Arquivo mensal: maio 2014

Copa do Mundo: Memórias de um gay maduro

copa_2014_gayA partir de amanhã estarei de férias e não foi por acaso que escolhi este período. Eu quero ficar longe das manifestações, aglomeração, agitação, transito caótico, barulho e todas as inconveniências da Copa do Mundo na minha cidade, no meu país.

Eu até gosto de futebol, mas no conforto da minha casa. Outro dia um amigo me perguntou se eu tinha lembrança da minha primeira copa. Bem, eu nunca fui a uma Copa do Mundo e nem pretendo ir, mas aquela conversa me fez viajar no tempo e buscar no baú de memórias alguns fatos importantes que construíram a homossexualidade no curso da minha vida.

Eu Tenho vagas lembranças da Copa em 1970 no México e de lá para cá foram outras dez. Caramba! O tempo é realmente implacável!

No decorrer dessas copas, a minha homossexualidade  foi construída com muita determinação e luta. Além do envelhecimento natural, eu amadureci, a sociedade mudou e hoje me sinto tranquilo.

Na Copa de 1970, eu nem tinha ideia de quem eu era. As poucas memórias me remetem à rua onde morava. Na minha adolescência, era quase proibido ser homossexual. Então, a pessoa sabia que a outra era homossexual e já via com outros olhos, já achava que era um marginal. Eu acho que os vizinhos tinham mais medo de um homossexual do que de um bandido. Pra eles homossexualidade era uma doença que podia contagiar alguém da sua família.

Em 1978, na Copa da Argentina, eu assisti a final entre os anfitriões e a Holanda ao lado de um homem que me ensinou muita coisa sobre “ser gay”, ainda numa época de ditadura militar. O que marcou a minha vida naquele período foi a percepção de que, eu precisava não só de aventuras homossexuais, eu precisava enveredar por um amor homossexual.

Na Copa de 1986 no México eu ainda me sentia constrangido com a própria homossexualidade, o que gerou enfrentamento das muitas crises existenciais que apareceram na gestão da vida individual.

Quando o Brasil foi tetracampeão na Copa de 1994, eu já tinha travado as lutas contra mim mesmo, a fim de me situar num espaço social preconceituoso, que gerava sentimentos de vergonha, sensação de permissividade, sujeira e transgressão.

Em 2002, enquanto o Brasil buscava mais um título, eu partia para os Estados Unidos e Canadá na busca do entendimento das questões da homossexualidade fora do país. Naquela época eu já tinha a percepção de se poder viver um estilo de vida gay satisfatório adaptado às normas sociais.

Na última Copa em 2010, este blog já tinha mais de um ano de vida e eu escrevi sobre os gays maduros como torcedores de futebol – Leia aqui. Também, escrevi um artigo sobre Amenidades, mundo gay e futebol.

De lá para cá não toquei mais no assunto do esporte bretão (origem do futebol na Bretanha ou Inglaterra) e priorizei os temas culturais e sociais, além das experiências de outros gays. Como diz outro amigo: “na velhice tem que cuidar da saúde e ter algum dinheiro para ter uma vida digna”.

Enfim, eu chego a mais uma Copa do Mundo e desta vez no Brasil. Não vou nem entrar nas questões sociais, políticas e financeiras deste evento, mas eu posso dizer que a maturidade associada ao momento social me permite ser quem eu sou.

Eu sei que no trabalho falam de mim, dizem muitas coisas às escondidas, mas não estou nem ai. O meu lema é: Seja distinto, afaste-se de pessoas maldosas, e viva a vida sem neuras.

Durante a Copa, eu quero a vida tranquila das pequenas cidades do interior de Minas Gerais, depois uma passagem rápida por outras cidades do Mato Grosso e por fim, uma viagem de aventuras nas Serras Catarinenses. O meu companheiro detesta o frio, mas vai me acompanhar nessa aventura e não contra a sua vontade.

Se você gosta de futebol torça por sua seleção, mas priorize a sua vida e trate das questões da homossexualidade sem culpas ou medos, pois lá na frente, você ainda vai rir de tudo isso.

Aos leitores dos GRISALHOS uma ótima Copa do Mundo. Em Julho estarei de volta – Abraço, Regis

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A vida de um gay idoso no Asilo

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Seu José, sentado ao lado de uma interna

Numa das minhas viagens às cidades do interior do Estado de São Paulo, eu fui parar numa festa para arrecadar dinheiro para um asilo de idosos. A festa chamada de “Pamonhada” ocorreu no próprio asilo, no último sábado, dia 17 de maio.

Após comer um milho cozido eu observei que o Lar dos Idosos estava em festa e os idosos estavam nas portas de seus alojamentos, recepcionando os visitantes.

Após tirar algumas fotografias eu fui conversar com um idoso sentado ao lado de uma mulher idosa e  também moradora do local, porque de certa forma, eu percebi que ele era gay – Os gays se percebem com facilidade.

Seu José tem 83 anos e vive há quinze anos no asilo, ou seja, desde os 68 anos, após sofrer um AVC e ter parte do lado esquerdo do corpo paralisado. Homossexual assumido ele disse: pior do que viver no asilo é viver “lá fora” e sem nenhum apoio de parentes ou amigos. O mais triste é perceber quando a velhice chega e as doenças aparecem, as pessoas somem da sua vida. Ninguém quer cuidar de velho, ainda mais um velho homossexual, concluiu.

Para ele viver no asilo não é um problema, pois, sempre se manteve no seu lugar. No começo é meio estranho, mas após um ou dois anos, você se acostuma. Os vizinhos de alojamento aos poucos vão descobrindo quem você é, e quando descobrem que você é homossexual, eles te deixam de lado nas conversas durante o café da manhã, ou nas refeições e ai você percebe o que é estar realmente sozinho e num lugar estranho à sua casa, onde você viveu quase a vida inteira.

Com o passar do tempo os colegas se aproximam e gradativamente passam a te aceitar, porque a única diferença entre você e eles é a sexualidade. A velhice é igual para todos, as doenças e o abandono afastam parentes e amigos de anos de convivência e ai entram em cena pessoas desconhecidas e idosas como você.

160A rotina do seu José é igual desde que chegou ao local em 1999. Levanta-se por volta das 6h30, toma banho e café. A parte da manhã é livre e depende das condições físicas de cada um. Os mais saudáveis fazem caminhada na área interna. Alguns fazem trabalhos leves, como cuidar das plantas e da horta. Aqueles com problemas físicos ficam sentados em cadeiras colocadas na varanda. Alguns não se locomovem e precisam de cadeira de rodas.

Após o almoço a maioria prefere tirar uma soneca e à tarde alguns assistem televisão. O jantar é servido às 18h30 e após 21h poucos ainda circulam nas áreas externas aos dormitórios. No asilo tem uma capela de Nossa Senhora Aparecida.

Essa rotina muda nos finais de semana, quando alguns internos recebem visitas de familiares e amigos e quem não tem ninguém, passa o dia sem nada para fazer, a não ser ler algum livro ou revista e ver TV. No caso do seu José ele passa a maior parte do tempo lembrando-se da vida, da adolescência, da fase adulta e dos bons momentos que passou ao lado de alguns companheiros que teve.

Seu José diz que a vida é uma viagem e apenas nos damos conta de que foi boa depois que passou. Nem tudo são flores, mas chegar aos 83 anos é uma dádiva da natureza, mas lamenta a falta de humanidade das pessoas. Envelhecer é um fardo e quanto mais velho fica, mais difícil é seguir vivendo isolado da sociedade. Ele reza todos os dias para o seu estado de saúde não piorar, porque não gosta de ficar entravado numa cama.

Perguntado sobre como ele é tratado por funcionários e voluntários, ele sorri e com voz mansa disse: Sou bem tratado pelos funcionários, apesar de perceber a falta de privilégios dados aos homens mais machões que vivem contando suas histórias de conquistas e sexo com as mulheres. Já os voluntários são neutros e gostam de ouvir histórias da minha vida e a curiosidade sobre os meus dias de glória quando paquerava rapazes lá na minha idade. Alguns até se espantam quando eu digo que tive um namorado que eu amei muito, lá pelos idos de 1951.

Os voluntários jovens são mais abertos a esse tipo de conversa e seu José não tem nenhum receio de conversar sobre este assunto.

Sobre a morte ele disse: Meu filho, nesses quinze anos aqui, eu vi homens e mulheres morrerem e a morte me parece ser o presente mais digno que um ser humano pode receber.

A minha vida foi boa, não tenho do que reclamar, aliás, não adianta reclamar, porque a morte é certa. Aqui é um local que eu chamo de “preparação”. É preciso saber que sua hora vai chegar e quando chegar tem que aceitar, pra mim, o sofrimento psicológico é pior do que o sofrimento físico, mas quero morrer sem dor.

Eu não resisti. Dei um beijo na sua face, afaguei os seus cabelos brancos e quase chorei. Na despedida ele abriu um leve sorriso e disse: Volte logo hein!, quem sabe na sua próxima visita eu já não esteja mais aqui.

Fotos: Regis – Asilo São Vicente de Paulo.

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