Arquivo mensal: abril 2014

Ser homossexual idoso nos dias atuais

TOutro dia alguém me perguntou como era a vida dos gays idosos nas décadas de 1950 e 1960 e eu respondi que não era muito diferente dos dias atuais.

Após avaliar a minha resposta e conversar com alguns idosos que hoje tem entre 70 e 80 anos, eu constatei que a minha afirmação não era verdadeira.

Nos últimos 30 anos as transformações sociais são significativas e os gays da atualidade tem menos preconceito. Como diz um amigo: “No passado não dava para assumir porque os preconceitos e a própria sociedade via o homossexual como um desviante e anormal”.

Hoje a sexualidade é discutida nas rádios, em programas de televisão ou através das mídias eletrônicas e isso gera certo “conforto” aos indivíduos homo e bissexuais e nele inclui-se o grupo dos idosos.

Quanto à velhice, há que levar em consideração alguns fatores: A velhice em si não muda nunca. O envelhecimento é um processo que independe do cenário social do mundo.

Com os avanços da ciência e da medicina hoje os gays idosos tem melhor qualidade de vida, assistência médica (para aqueles que podem pagar), e com isso há uma sobrevida. A expectativa de vida da população brasileira aumentou 25,4 anos entre 1960 e 2010. A média de idade para os homens é de 73,4 anos.

Ser homossexual nos dias atuais não é tão doloroso quanto no passado. Quem viveu naquela época diz que hoje é o “Admirável Mundo Novo”, porque jamais poderiam imaginar que existiria mais liberdade no futuro – Homossexual e idoso no anos 50, nem pensar!

A discriminação contra os idosos em geral ainda não melhorou muita coisa e os próprios gays ainda não aceitam a velhice como um processo normal da vida.

post_29_2Hoje os centros urbanos propiciam lazer e entretenimento e quem pode pagar tem muitas opções.

A questão de parceiros também é outro indicador de melhora, porque hoje o gay idoso está mais ativo sexualmente, pois tem à sua disposição medicamentos que melhoram as práticas sexuais, além de profissionais que auxiliam nas questões psicológicas.

Hoje a informação corre o mundo em questão de segundos, a Internet é uma porta para quase tudo na vida e através de redes sociais é possível socializar com outros idosos com as mesmas preferências, inclusive sexual.

Numa reportagem da Revista Superinteressante de setembro de 2001, o assunto em pauta era a perspectiva da aprovação no Brasil de direitos civis aos casais homossexuais que insuflava uma série de debates sobre o amor entre pessoas do mesmo sexo, em especial como a sociedade deveria ser posicionar a respeito. Bem, isso é passado.

Os gays adquiriram alguns direitos impensáveis há 10 ou 20 anos e as ONGs estão aí para ajudar em outros temas importantes para a manutenção da cidadania dos homossexuais, como seres humanos livres.

Um dos meus correspondentes do blog tem hoje 70 anos e diz que o maior problema no passado era a família e isso não é muito diferente dos dias atuais, principalmente, para os idosos.

Ele também afirma que hoje encara as questões de namoro, sexo e vida social de uma maneira natural, e descobriu que a vida é cheia de surpresas em qualquer idade, e que, no fim, a vida dos homossexuais da atualidade não é mais uma categoria à parte. É comum e natural, tão cheia de drama e diversão como qualquer outra.

Sim, ser homossexual nos dias atuais é melhor do que no passado, inclusive para os gays idosos, mesmo sabendo que ainda estamos longe de chegar à condição ideal.

Quem viver verá

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Um olhar crítico sobre publicações homoeróticas

olhar_critico_g_magazineO envelhecimento parece não interessar a ninguém, inclusive aos gays.

Quando eu era jovem eu era cobiçado e desejado e olha que não faz tanto tempo assim. Hoje aos 55 anos percebo claramente como o homossexual vai desaparecendo à medida que envelhece.

A minha geração participou dos primeiros movimentos sociais em prol dos diretos e da identidade dos homossexuais. No decorrer desses anos conquistamos alguns direitos e liberdade, mas o próprio movimento gay não liberou esse preconceito de idade.

Eu me recordo de antigas publicações, como o Snob, Gente Gay, Pasquim e Lampião da Esquina que traziam notícias sobre o universo homossexual, violência policial e discutia-se a sexualidade. Com o fim do jornal em 1981 sobraram as revistas homoeróticas ou pornográficas, em sua maioria estrangeiras centradas na publicação de fotos de nu e cenas de sexo. Lembro-me também da revista SuiGeneris quesurgiu como produto da segmentação do mercado editorial que propunha discutir, com homossexuais e heterossexuais, questões relativas à homossexualidade.

A revista investiu numa possibilidade de afirmação do “ser gay” através de temas como cultura, comportamento, moda e entrevistas com grandes nomes do meio artístico/político nacional. Esta publicação buscava refletir a atitude do “assumir-se”, mas também destacava a validade do desejo homoerótico e buscava fortalecer a autoestima dos seus leitores. Circulou de janeiro de 1995 a março de 2000, quando, por motivos financeiros, encerrou sua publicação.

olhar_critico_juniorHá algum tempo eu acompanho as publicações da revista G Magazine lançada em 1997 e da Junior e o que pude constatar é que não existe espaço para os gays mais velhos; os ursos até ganham algum destaque porque se mostram másculos e viris e os poucos maduros ou idosos são apresentados de uma forma deturpada.

No caso da representação dos homossexuais idosos feitas nas revistas homoeróticas como a G Magazine e Junior, por exemplo, é válida a daquele que se cuida, que está preocupado em ficar com aparência de homem jovem e bonito; que procura sempre fazer com que a velhice não esteja ali, a mostra de quem quer ver.

Em boa parte das matérias, esses homens idosos e homossexuais aparecem como pessoas que só tinham desejos sexuais quando eram jovens. Na velhice, eles são representados como pessoas que não possuem desejos sexuais. Ser homossexual idoso, nas matérias dessas revistas, está ligado à imagem daquele que disfarça a velhice e que são carentes de relações afetivo-sexuais.

Estamos no meio da cultura da juventude: importa a masculinidade, mas também importa a idade. É como se os gays vivessem um eterno complexo de Peter Pan, onde o envelhecimento é o principal vilão que deve ser combatido a todo custo. Do contrário, deixará de ser um corpo desejado, tornando-se um corpo abjeto e que deverá ser escondido.

No tocante a homossexualidade, o corpo velho parece evidenciar uma espécie de pânico produzido pela imagem de deterioração legado pelo mito da velhice, cuja fragilidade e horror são amplamente produzidos no interior das “comunidades” gays, que produzem novos efeitos em torno de certa homonormatividade baseada no ideal de juventude e individualismo.

Mais do que nunca, a homossexualidade está sempre ligada ao “ser jovem”, consequentemente, a ideia do ser jovem não deve aparecer apenas no rosto, mas também no corpo que deve sempre ser “sexy”, “gostoso”, “malhado”, “sarado”, “atlético” e “saudável”.

olhar_critico_sui_generisOscilando entre a imagem da “tia velha”, exageradamente efeminado, desprovido de atrativos e meio gagá, e a do “tiozinho tarado”, capaz de atacar inesperadamente qualquer jovem “inocente”, os homossexuais idosos representariam uma das formas mais proeminentes de alteridade abjeta e excluída dentro da atual experiência “positiva” da homossexualidade masculina.

Eu digo isso sem nenhum receio de ser criticado, pois se observa, por exemplo, na imprensa voltada para grupos minoritários, em especial ao público homossexual masculino, a existência de publicações que não atribui automaticamente um lugar de fala para o homossexual na sociedade. Indo mais além, através das revistas voltadas para os gays é possível analisar qual o espaço e representações que elas fazem do desdobramento desse grupo, pois até então, é como se os homossexuais idosos não existissem, há um silencio no tocante a existência desse grupo tido, normalmente por essas publicações homoeróticas e pelos próprios homossexuais, como pessoas duplamente abjetas, isto é, pela questão da idade e do corpo, que vai fugir do padrão de desejo.

Lidar com as limitações biológicas da vida e aceitar o corpo em degeneração continuam sendo um dos principais desafios dos gays no mundo moderno, basta observarmos a obsessão que as pessoas, têm com as formas corporais e a apresentação juvenil que atravessa todo o complexo da moda, das academias de ginástica, dos anabolizantes, dos cosméticos e da cirurgia plástica.

Se a preferência pela juventude e a antipatia pela velhice é comum na história das concepções sobre envelhecimento, e também constituem sentimentos disseminados na chamada cultura de consumo, eles parecem atingir o seu ápice quando se considera a chamada “cultura gay masculina” dos centros urbanos e das metrópoles.

Nesse cenário, aparentemente marcado pelo hedonismo e pela obsessão com atributos físicos capazes de suscitar atração e desejo, em que tudo parece girar em torno de um mercado sexual hierarquizado por critérios de juventude e beleza, não há lugar para pessoas de mais idade, que carregam os estereótipos derivados da depreciação de sua atratividade como parceiros sexuais.

Aos mais velhos, só resta pagar para desfrutar de companhia fugaz e arriscada. E essa concepção ou “verdade” que geralmente está inserida no contexto ao ser gay idoso, pois a verdade pode ser vista como social e histórica.

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