Eternamente seu

eternamente_seu_amante_gay1Foi o que eu ouvi na primeira vez que transei com um homem e isso faz mais de quarenta anos. O “eternamente seu” ficou só na frase porque na semana seguinte o coroa não apareceu e eu fiquei plantado na frente do cinema esperando o meu eterno amor chegar. Ele nunca mais apareceu e eu fiquei eternamente magoado, mas eu me enganei e a mágoa não foi eterna. Não durou nem três meses! Aquela situação foi um aprendizado que eu levarei para a eternidade.

A vida é assim, quando pensamos que encontramos o homem certo a coisa tende a não dar certo e é certo que outros homens virão. Depois de quatro décadas a única certeza é de que tudo o que eu vivi, valeu a pena.

Essa coisa de “eternamente seu” entre gays até existe, porque uma relação entre dois homens, com amor, carinho, sexo e principalmente respeito tem tudo para durar muito tempo. Aqueles que acreditam nisso vivem muitos anos de felicidades e entregam-se de corpo e alma ao amor, ou melhor, ao outro.

Eterno significa sem começo e nem fim, mas todo relacionamento tem um começo, um flerte, uma troca de olhar e se eterniza no sentimento daquilo que não cansa pela duração, ou seja, o tempo.

Desculpem-me os românticos e apaixonados, mas a relação entre dois serem humanos é eterna até que um dos parceiros passe desta vida, neste caso é eterno para o morto porque para o vivo a eternidade ainda é uma miragem. Talvez o sentimento do amor seja eterno, porque o que você sente por um companheiro jamais sentirá por outro. Os sentimentos são diferentes, as pessoas são diferentes, os momentos são diferentes…

“Eternamente seu” ou “até que a morte nos separe” são frases que vão além dos nossos desejos porque no mundo real nós não temos domínio sobre a vida das pessoas. Eternamente seu passa a ideia de pertencer apenas a uma pessoa e a mais ninguém durante a vida que lhe resta. Também, pode significar eternamente amigos, eternamente amantes, eternamente companheiros, eternamente qualquer coisa…

O amor entre dois homens tem pesos diferentes para cada parceiro. As formas de amar são diferentes e tem diferentes intensidades, além do livre arbítrio de cada um.

Existem relações que não tem explicação, duram décadas e quando um dos parceiros morre a situação tende a ser de profunda tristeza e de melancolia para o viúvo que não vê uma luz no fim do túnel, o chão desaparece, suas bases emocionais desmoronam e recomeçar parece uma tarefa impossível.

Existem gays viúvos que entram em depressão e não tem mais vontade de viver. Alguns chegam ao extremo de cometer suicídio, mas a maioria consegue superar o trauma da perda e retomar o curso de sua vida.

Aliás, o grande barato da vida é a adaptação dos seres humanos. Somos dotados de um instinto de sobrevivência e isso varia de pessoa pra pessoa.

Eu já tive amigos que perderam seus amores e percebi que alguns deles tinham predisposições inatas de comportamento que se supõe de forte base genética, para superar traumas e perdas. Infelizmente nem todos são assim.

Depois do primeiro “eternamente seu”, eu conheci outros homens e amantes, alguns deles juraram de pés juntos serem “eternamente meu”. Eu por minha vez nunca jurei nada, porque a vida sempre me pregou cada peça.

O meu segundo amante morreu de parada cardíaca, o terceiro morreu em decorrência da AIDS, o quarto morreu num acidente automobilístico e outro morreu de velhice. Parece cômico se não fosse trágico. Ah, superei todas essas perdas e aqui estou contando um pouco da minha vida e de uma forma humorada e positiva. Cacete, quantas mortes!

É legal quando um homem diz que será eternamente seu, porque isso faz bem para a alma e mantem a autoestima elevada.

Depois de tantos anos e vários relacionamentos eu chego aos dias atuais com um companheiro que comigo está há seis anos e recentemente eu o ouvi dizer que será eternamente meu. Isso é romântico e eu sei que ele diz isso para me agradar, me fazer feliz e para afirmar o seu sentimento e fidelidade.

Depois de seis anos juntos e vivendo a maturidade dos seus 67 anos, ele decidiu se revelar eternamente meu. Que legal! Que seja eterno enquanto dure!

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Sobre Regis

58 anos de idade, residente na cidade de São Paulo

Publicado em 19/03/2014, em Relacionamento e marcado como , . Adicione o link aos favoritos. 10 Comentários.

  1. Oi Fernando. Gostei muito da sua história e me identifiquei bastante. Eu também vivi algo semelhante, um amor que vou lembrar por toda a minha vida. Além disso me identifiquei com você, gostaria muito de conhecê-lo e compartilhar minha história com você.
    Abraço.

    • Boa noite Leo, tudo bem?
      Eu gosto muito de ler e também de escrever.
      Não chego a ser um escritor nem nada, mas penso um dia em publicar um livro.
      Tenho uma página no “Recanto das Letras” para ficar brincando de escrever, e por lá tem meu contato. Se for possível, mande uma mensagem lá que receberei no meu email sem a necessidade de nos expor, tudo bem?
      Será muito bom poder conversar com você!
      Abraço.

      http://www.recantodasletras.com.br/autores/ferdinandiz

      • Olá Fernando,
        Obrigado pelo retorno, fiquei muito feliz. Eu também gosto de escrever. Vejo que temos muito em comum. Acho que vamos nos dar bem. Vou contatar-lhe no Recanto das Letras. Até mais…
        Abraço.

  2. Nossa…
    Estou boquiaberto com seus textos e este, em particular, me fez chorar!
    Eu sempre fui um garoto tímido e sem jeito. Nunca senti atração por mulheres nem por homens da minha idade e sempre recusei saunas e boates, pois sempre odiei barulho e lugares fechados e abafados. Eu me sentia anormal, assexuado até que por um acaso, num site qualquer, vi um coroa seminu e fiquei maluquinho.
    Me descobri e fiquei pensando em como conseguir algo real. Até que tentei a sorte pela primeira vez num grupo do Yahoo. Conheci um coroa muito bonito que me fez sonhar acordado.
    Conversa vai, meses passam e decidimos nos encontrar. Já na primeira vez, me entrego de corpo e alma. Entrego-me sem escutar uma palavra de carinho ou afeto.
    Não houve beijos ou sentimentos da parte dele, mas eu o amei de forma louca e incondicional. Algo que, em cinco minutos, posso explicar lendo um livro de José de Alencar.
    Eu o amei tanto que mesmo na maior timidez fui capaz de dizer que o amava e que estava muito apaixonado, mas o que ouvi em segundos foi justamente o contrário. “eu não posso dizer que te amo e não estou apaixonado por você”.
    Esta resposta me marcou no mundo gay: “Bem vindo à realidade!”. Chorei muito, paramos de conversar, me vi perdido e sozinho. Carente e sem amigos.
    Com o tempo passando, depois dele, outros coroas apareceram e não me lembro de ter escutado que me amavam ou outras coisas loucas assim. Para alguns, me abri até demais, para outros, uma noite e nada mais. Alguns se abriram comigo e outros, acredito que se machucaram comigo também…
    E numa dessas, depois de praticamente 8 anos, reencontrei meu “primeiro amor” no mesmo bate papo do Yahoo. Só que desta vez o vi um tanto quanto sozinho, carente e com poucos amigos.
    Encontramos-nos e dessa vez nos beijamos. Eu, mesmo tentando segurar, disse que nunca havia deixado de amá-lo e ele ficou calado. Eu sinceramente esperei algo. Não um “eu te amo”, mas sim o “eu não te amo” novamente, todavia não houve nem um e nem outro e sim, o silêncio.
    Aquele silêncio me deixou pensativo: ou nada mudou e simplesmente ele não quis me machucar, ou… algo mudou… mas ele está sendo orgulhoso demais para dizer ou admitir.
    Lendo o seu texto e relendo, confesso que me perdi em algumas partes como “eternamente seu”, “românticos e apaixonados” e na palavra respeito…
    Já tenho quase 30 e ainda não sei se achei o coroa da minha vida ou se a minha história vai acabar bem ou mal, mas me vejo na fase do “eterno enquanto dure”.
    O fato é que, pela primeira vez em muito tempo, estou gostando de amar novamente. Estou sendo racional e estou feliz. E isso é o que importa.
    Para uma pessoa que já tentou a morte por causa de algumas várias desilusões, ter momentos felizes é estranho. E isso me fez abençoar tudo o que já passei.

  3. Estou vivendo um relacionamento a onze anos, sou fiel e acredito que ele o seja, por isso estamos tanto tempo juntos, nunca me deu motivos para pensar ao contrario … acredito em relacionamentos duráveis, só que os mesmos demandam de fidelidade ,,, sim, e é difícil os meus amigos abrirem mão de sua vida social em boates e bares gays ou ate mesmo cinemas… entendem onde eu quero chegar, para se ter um relacionamento duradouro tem que se sair de certas festanças gays e dedicar-se a vida a dois… Agora quanto para sempre, não existe, nada e para sempre, podemos ir mais a frente ou ate um dos dois partir …. então, como disse o colunista acima, quem sobrevive não tem o pra sempre … bola pra frente

  4. Regis
    Eu tô com 39 e perto dos 40 e esse site desde que o descobri foi um alento pra mim, pois temia sofreria as mesmas dificuldades que sofri quando completei 30 anos e lendo as matérias fui entendendo como é a vida do gay maduro. Nenhum gay que eu me relacionei me disse:eternamente seu.

    Eu ousei dizer ao Marlon eu te amo e foi uma verdadeira desilusão, pois ele tava saindo de um relacionamento que não deu certo e involuntariamente ou voluntariamente a gente nunca sabe, ele descontou em mim o que o outro fez pra ele. Confesso que depois que ele me deixou eu pude me ver melhor, mudei de profissão, conheci vários, beijei e beijo até hoje. Mas como esquecer uma pessoa tão marcante e ao mesmo tempo tão cruel que do nada muda sua vida? Isso não quer dizer que eu o ame.

    Na contramão dos amigos que postam seus comentários por aqui, a maioria de meus casos foram com homens mais jovens. Devo ter ficado com uns dois ou três mais velhos. Não se trata de preconceito é que aparecem nessa faixa mesmo. Meu ultimo ficante tem 19 anos. Eu acredito no amor e não desisto jamais, mas se não acontecer não dá pra ficar se lamentando. Abraços e parabéns pelas postagens.

  5. É bem assim mesmo, todos os meus casos até hoje não passaram de semanas ou dias, ja me acostumei pois nunca acreditei em amor entre os gays.
    tenho 60 anos e vou levando a vida numa boa sem me preocupar se tenho alguém ou não
    se aparecer alguém tudo bem.

  6. Pedro Santos

    Regis

    Gostei do texto, gostei mais ainda por você revelar um pouco de sua vida e sentimentos.

    Para aqueles, como eu, que estão iniciando uma nova vida, cada frase é uma lição, muitos de nós, que não saíram do armário, ou que entram e saem dele a todo instante, não conhecem verdadeiramente como é uma relação entre homens, reconhecidamente publica, não sabemos como isso se dá na vida prática.

    E tem mais, acredito que poucos homens, possam dizer que tiveram uma relação homossexual um pouco mais duradoura, sei lá por mais de um ano talvez, e dessa forma, pensou eu, a relação ainda não é sentimentalmente profunda.

    Mas seus comentários me alertaram, para que eu não fale uma coisa dessas levianamente, naquele momento de mais emoção, e que também não acredite tanto, se ouvi-la de outro homem, vou tentar encará-la como uma reação romântica daquele momento.

    obrigado.
    Pedro Santos

  7. Leo Sousa, slz-ma

    Como eu quero que um coroa um dia me diga isso…

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