A vida social dos gays

Mattachine Society 'Sip-In,' 1966Quando eu escrevi o artigo sobre pistantrofobia, a ideia era trazer aos leitores do blog o conhecimento sobre um problema psicológico pouco conhecido. Após vinte dias da publicação e alguns comentários sobre o assunto e diversas trocas de e-mails com leitores, eu me coloquei como observador de uma realidade comum para a maioria dos gays: solidão, medo e desconfiança. Tudo isso compromete a vida social dos gays.

Seria legal se todos os gays começassem sua vida social na adolescência e com vivência nos guetos, bares e boates porque esses ambientes auxiliam na formação da personalidade e do comportamento. Quem não vivencia essas experiências geralmente tem dificuldades de socializar e não socializando cria-se um circulo de medo e desconfiança – leia matéria: do gueto ao bairro gay

É importante destacar que menos de 1% dos homossexuais frequentam o Mundo Mix, portanto, a quase totalidade tem um aprendizado individual distorcido e a aceitação da homossexualidade é mais difícil, assim, um grande contingente de homossexuais tem muitas dificuldades de relacionar-se com outros gays porque não foram assimilados desde a juventude para vivenciar uma relação social homossexual, pois é no gueto que temos livre acesso a todas as formas de relação social.

Um amigo me disse: No mundo gay existem duas situações: Ou o cara é casado ou solteiro.

Com base nessas premissas eu posso afirmar que os casados vivem uma vida “quase” familiar, porque criaram vínculos com outras pessoas que podem ser amigos gays ou familiares de um dos parceiros – Hoje é comum agregar parentes nas relações sociais de casais gays.

Nessa situação os envolvidos não se sentem sozinhos, a solidão passa longe e a confiança nas pessoas envolvidas nessa rede social é sólida. Nada diferente de qualquer casal heterossexual, aliás, um psicólogo disse que “os gays buscam nos modelos heterossexuais os padrões sociais para as suas vidas”.

Eu, particularmente, acredito que os modelos sociais dos heterossexuais não servem aos gays e que cada um deve buscar o melhor modelo e adequá-lo ao seu cotidiano. Gays com vida social estão sempre com a agenda cheia de compromissos. Almoço ou jantar com amigos e parentes, eventos sociais, viagens, festas, comemorações – Como diz um amigo: “Pessoas assim nem precisam de um animal de estimação”.

Casais gays tem vida social diária, mas isso não é eterno, porque tudo na vida tem prazo de validade. As relações podem durar alguns meses ou vários anos, mas um dia acaba. O que talvez possa gerar alguns medos e desconfianças são doenças e a idade avançada, pois como diz outro conhecido: “Os idosos desconfiam de tudo, até dos preços nos rótulos das embalagens“.

Já os solteiros tem vida social diferente. A condição de solteiro remete à ideia de gays que não se adaptam à vida a dois, ou, a não aceitação da homossexualidade. Viver sozinho é bom porque a sua individualidade não é afetada – Sexo eventual, saídas para curtir finais de semana com amigos, curtir praia, bares, viagens e aproveitar tudo o que uma vida de casal muitas vezes não permite.

Viver no armário também é sinônimo de estar solteiro, porque as relações são casuais e sempre remetem para um fim próximo. Lembre-se, estar solteiro pode ser uma situação transitória e temporária, mas no caso dos gays essa transitoriedade acaba tornando-se permanente com o decorrer dos anos.

Cada ser humano tem uma história e uma realidade diferente, mas no contexto geral é interessante buscar se ocupar não apenas com pessoas, mas com coisas prazerosas da vida. De certa forma isso ajuda a moldar nossa autoestima e aprendemos a conviver com a solteirice.

Na velhice são comuns os medos de perdas, mas isso é inevitável. As perdas decorrem da convivência social e familiar e fazem parte da vida. Os solteiros e os solitários sofrem menos com as perdas porque aprenderam a viver sozinhos.

No rol de gays solteiros, tem aqueles que são ativos e dinâmicos, mas tem aqueles que são acomodados e não movem uma palha para mudar a situação.

Eu conheço um gay idoso que aos setenta anos vai à sauna todas as semanas e para que? Para socializar, para não sentir-se sozinho, para não pirar e manter a depressão longe da sua vida, porque ele não acredita em milagres. Se surgir uma oportunidade para o sexo ele cai de cabeça, porque tudo na vida passa.

Os gays casados geralmente moram juntos, mas a maioria ainda mora separado. Já os solteiros moram sozinhos e a maioria ainda mora com a família. Esses criam vínculos de amizades fora da família, justamente para não sentirem-se “alone”. Nem sempre estar sozinho é uma opção e alguns dizem que estão sozinhos porque não encontraram a pessoa certa. Será que existe a pessoa certa?

Outro grupo eu chamo de “os esquecidos” e olha que esse grupo não é pequeno – São gays que foram assimilados numa cultura de opressão e discriminação e ficaram marcados com rótulos e que tem fobia de tudo – A questão de não confiar nas pessoas diminui a amplitude social desses gays.

Vivemos na era da visibilidade e dos direitos LGBT, com suas paradas gays e movimentos sociais das minorias, mas ainda vivemos e socializamos como cantou Elis Regina: “ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”.

Leia também:

A sociabilidade dos gays maduros

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Sobre Regis

58 anos de idade, residente na cidade de São Paulo

Publicado em 10/03/2014, em Sociedade e marcado como , . Adicione o link aos favoritos. 17 Comentários.

  1. Léo Sousa

    Sr Sergio,
    Gostei muito das suas considerações!
    Abraço.

  2. Os comentários e o artigo levam a muitas questões sobre relacionamentos. Existem amigos e amigos, alguns são como irmãos, outros são por afinidade (política, futebolística, alcoólica, por aí). E tem a coisa do amor.

    Um amigo, já falecido, dizia que o amor é uma forma de neurose. A neurose se inventa e, em certo momento não conseguimos nos livrar dela. O amor seria similar, alguém nos atrai, vem paixão, maior ou menor. Podemos ficar por aí, um dia, uma semana, um ano. Depois acaba sozinha. Mas se achamos que a paixão arrefeceu um pouco, mas há algo mais, chamamos de amor. E, ao contrário da paixão, é difícil acabar com ele.

    É claro que um dia acaba, pode durar a vida inteira, mas com a morte, temos saudades, mas o amor exige um objeto amado e vivo.

    Regis acha que o amor sempre acaba. Talvez entre homossexuais homens seja assim mesmo. Mas amor de vida toda entre homem e mulher, acho que pode ter sim. Minha psicóloga diz que eu amo porque minha parte feminina tem a entrega que mulheres tem. Será? Mas nunca amei de fato um homem. Algumas mulheres com certeza. E alguns amores não se acabaram. Um continua intenso, os outros são como brasas sob as cinzas, quando nos vemos acende um pouco.

    Mas, como disse, com homens, talvez infelizmente, nunca pensei em amor. Ou tive vontade de passar da paixão momentânea para algo mais duradouro. Talvez porque eu só entreabra o armário. O Thiago disse bem, que sair totalmente do armário traz complicações indesejáveis. É então mais cômodo ficar entrando e saindo. Eu, quando estou me relacionando sexualmente com homens, fica não apenas totalmente fora do armário. Sinto um enorme prazer em ser um coroa passivo e ainda desejado. Fico embaraçado, mas confesso que gosto quando me chamam de viado durante a foda. Quando esta acaba, depois do orgasmo, volto sem maiores problemas para o armário. Só que o armário, no meu caso, devo dizer, não é um lugar solitário. E todo o mundo fora do gueto.

    Isaac Deutscher, pensador polonês, dizia que a grande contribuição para a humanidade veio, com frequência, do judeu não judeu. Aquele que não fazia questão de afirmar seu judaísmo, mas usava-o para seu desenvolvimento intelectual e, com isto, transcendia o gueto. Bem, a comparação é meio forçada, mas será que temos que ir para o gueto sempre.

    Para alguns a coisa pode ser sofrida, afinal sempre se tem os pais, amigos, colegas cobrando casamento, filhos. Hoje eu vejo que, com frequência, os solteirões eram muitas vezes homossexuais que não queriam, ou podiam, “assumir”. Se o cara não gosta de mulher e se casa só para manter as aparências, ele está a enganar a todos, mais ou menos…

    Alguns se casam sem notar o que são. Aí fica difícil, quando se descobre gay, sair do armário. Outros, como eu, mais para bi que para homo, isto não chega a ser um problema.
    E, com isto, se evita o que Thiago fala.

    O diabo é que eu tenho dificuldade em me relacionar com gays me abrindo como homo, ou bissexual. E com os héteros é pior ainda. Como fazer? O jeito são os guetos abertos, saunas e internet. Não fico satisfeito com isto, ainda mais velho e honesto que sou. Mas fazer o que?

    Ainda bem que podemos vir aqui conversar e nos expressar. Mesmo com o risco de sofrer “bifobia” pelos que estão fora do armário…

  3. Pessoal, boa noite,

    O assunto esquentou de vez. Cada um de nós tem uma maneira de encarar a vida e descrever a solidão ou a relação, ou o que seja.
    Como este não é um assunto que tenha gabarito para ser corrigido, todos estão certos, ninguém está certo.
    Eu concordo com quase tudo o que foi escrito, e o pouco que não concordo, pode ser que eu não tenha entendido a colocação ou o sentimento do amigo que tenha escrito.
    Eu, por minha parte, ainda não tenho experiência suficiente para um debate, leio tudo que posso para aprender, ainda estou dentro do armário para alguns e fora para outros, estou tentando reconstruir minha vida, transformando-a em duas partes, a dentro do armário para o emprego e família, e fora do armário para novos amigos, porque os velhos amigos se foram, junto com o meu casamento desfeito.
    Para mim a busca está apenas começando, por isso ao ler os comentários de todos os colegas acima, fico pensando … o que devo fazer?
    Enquanto penso vou levando a vida, tentando me proteger, me preservar, enquanto procuro amizades, quem sabe mais tarde, uma delas vire uma relação.
    Como disse, eu sou novo por aqui.

  4. Para f. | 11/03/2014 às 17:56
    Cara, essa solidão que você coloca está mais para os gays do que para os héteros. Sinceramente, não acredito que existe união entre dois homens, amor é outra coisa, é falácia cultural. Acho que são poucos os gays que realmente deram certo em relações. É tudo muito voltado para sexo casual, é incrível como nunca conheci uma relação entre gays que deu certo e durou muito tempo. E não vale dizer que os héteros também vivem a mesma situação. É só comparar. Porém, a cultura cristã pode ter algo haver com tudo isso. Será?! Engraçado é que com as lésbicas o amor funciona de maneira diferente. Testosterona?! Várias pessoas (homens gays) comentam que estão juntas há mais de um ano. Mas, será que essas relações realmente são relações sérias, mesmo sendo abertas, ou não passa de relações de amizade envolvendo sexo? Será que relações gays são fadadas a sexo, apenas? Bem, desconfio que sejam. Talvez por que somos homens e homens têm instinto mais sexualizado e casual, sem muito afeto. E assim nossa vida social está mais para vida solitária, restando apenas nossos amigos gays ou héteros e nossos pais e parentes (para os que têm).

  5. Eu decidi ficar entre o armário e fora dele, dependendo do momento. Uma coisa que aprendi nesses meus trinta anos de vida é que assumi-se gay pode não ser tão vantajoso em determinadas situações e a depender do local frequentado. As pessoas meio que se afastam quando sabem da sua homossexualidade. Preferi deixar a minha vida sexual e afetiva para quando eu chegar em casa (não frequento o gueto, sinto nojo desses lugares). No trabalho e na universidade é melhor ficar escondido mesmo. Coisa que não dá para mim é ser encubado a ponto de arranjar uma namorada ou dizer que vou me casar futuramente. Percebi também que mesmo a homossexualidade esteja sendo tão discutida ultimamente, as pessoas nunca vão mudar a forma de pensar delas sobre determinado assunto. Cada pessoa tem uma opinião e visão das coisas do mundo. E é muito difícil desconstruir ou mudar, nem que saiba um pouco, a maneira que elas veem as coisas. É muito difícil viver em um mundo erotizado, que coloca a sexualidade na frente da personalidade, do caráter. Estive assistindo a uma entrevista da nossa querida Marília Gabriela com uma entrevistada pesquisadora do mundo dos assexuais (pessoas desprovidas de sexualidade, de orientação sexual). Meu Deus, nem eles têm paz. Parece que sofrem mais preconceito que os gays, e muitas vezes são confundidos conosco por não demonstrarem desejos heterossexuais. Que vida chata. Só sinto prazer em ser gay quando estou trepando, afora, isso é uma angústia para mim. Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é.

  6. Reginaldo Ferreira

    Caro Regis,

    Achei este texto sobre a vida social, como os demais, lúcido e equilibrado. Ainda não tive um relação estável, um companheiro fixo, mas concordo que tudo tem um começo, meio e fim. Quero aproveitar também pra cumprimentar pela qualidade do design das páginas do site. Tudo, na minha opinião, de muito bom gosto. Por último, pergunto: tenho alguns (3) contos de minha autoria. Você tem interesse em publicá-los? Em caso afirmativo, mando para qual email?

    Abraços
    Reginaldo

  7. Muito boa a matéria.

    Mas uma coisa aprendi: confiar em gays é praticamente impossível. Ô racinha que tem pra canalhice viu.

    Relacionamentos são uma mentira.

    Fast-fodas são outras mentiras, mas, pelo menos, ninguém te enche o saco.

    Se ficar correr o bicho pega, se ficar o bicho come.

    Sinceramente, não vejo saída para os gays além de uma vida cheia de solidão e muitos questionamento existenciais. Sinto que muitos querem tampar o sol com a peneira que a vida de um gay costuma ser uma merda perante as construções sociais, que nos são impostas.

    Prefiro ser realista a achar que um dia vou achar alguém, porque não acha mesmo. Isso é balela jornalística, midiática de que amor existe.

    Não existe amor em algum lugar. O ser humano é podre. A diferença é que uns fedem mais e outros menos.

    Sejam gays ou sejam héteros. Falo mais dos primeiros, pois, infelizmente, é no bojo destes que faço parte.

    • Até os meus 28 anos eu também era muito descrente nos relacionamentos gays e estava a ponto de desistir quando aconteceu de eu conhecer alguém. Minha vida, ou melhor, nossas vidas, mudaram radicalmente desde então. São muitos anos de carinho, afeto, respeito e cumplicidade. Portanto acredite, o amor existe sim. Baixe a guarda e prepare-se para ele!

  8. L.S., slz-ma

    Regis, sou seu fã, amo seus textos. bjs

  9. Achei muito interessante a matéria, porém permita-me discordar da seguinte afirmação contida no seu texto: “Casais gays têm vida social diária, mas isso não é eterno, porque tudo na vida tem prazo de validade.As relações podem durar vários meses ou alguns anos, mas um dia acabam”.
    Como você pode afirmar isso? Um profissional psicólogo um dia me perguntou, você já viveu um grande e eterno amor para saber por quanto tempo ele é capaz de resistir? Não? Então você não pode falar sobre esse amor.
    Eu e meu companheiro estamos juntos e apaixonados há 23 anos e parece que nosso amor mal começou! Sentimos necessidade de termos nos conhecido antes, para não termos perdido tanto tempo! Às vezes pensamos que “nossos destinos foram traçados na maternidade”. É impossível para nós imaginarmos a vida sem a companhia um do outro e por isso, naturalmente, tememos o envelhecimento, sabemos dos prováveis sofrimentos, mas podemos garantir que nosso amor jamais envelhecerá, isso podemos falar por larga e sólida experiência, e costumamos dizer que nosso amor tem fôlego para ir até a Lua, voltar e ir de novo, sempre.
    Por isto, confesso ter ficado bastante desapontado com uma afirmação que não tem sustentação na experiência.

    Abraços

    • Daniel
      Muito obrigado por comentar este artigo.
      Infelizmente sobre o texto, eu tenho que reafirmar que mesmo numa relação de 20, 30 ou 40 anos, um dia ela vai terminar porque tudo na vida é finito. No seu caso, a sua relação tem 23 anos e pode durar ainda mais vinte anos, mas ela vai acabar um dia.
      Você disse que já teme o envelhecimento, pois é, essa é a sustentação dos meus argumentos do texto.
      Seja feliz, não pense no amanhã, viva o hoje.
      abraço
      Regis

      • Nesse caso seria mais apropriado dizer que os relacionamentos podem durar vários meses, alguns anos ou a vida toda! E acabarão sim, naturalmente, posto que tudo na vida é finito. Mas isto não é privilégio dos relacionamentos de casais gays, como o texto leva a acreditar.

        obrigado
        Daniel

  10. Grisalhos, boa noite

    Realmente é verdade, a medida que a idade chega, alguns medos vão embora e outros medos chegam. Para nós gays, poucos medos vão embora e muitos medos chegam.

    Gostei dessa matéria, uma explicação simples, que muitas vezes não queremos enxergar.

    Obrigado

    Pedro

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