Breve história da Boate Sótão

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Para quem viveu a efervescência da homossexualidade nos anos 1970/1980, lembra-se das primeiras boates gays que surgiram nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro.

Após 1972, os empresários tiraram vantagem da abertura à sociabilidade homossexual e ofereceram um número crescente de opções para os consumidores gays de classe média, cuja renda havia crescido no período do milagre econômico.

A galeria Alaska era o mais famoso reduto gay do Rio de Janeiro e tinha o apelido de Galeria do Amor (que virou nome de música de Agnaldo Timóteo). Ser gay naquela época ainda era sinônimo de discrição, mas na galeria era um dos poucos lugares do Rio que se podia soltar literalmente, a franga. A galeria era repleta de michês, que iam faturar dinheiro com os gays que frequentavam o lugar. Eram tempos românticos e ainda se podia arrumar namorado sem correr riscos de ser assaltado. Até os michês era profissionais e educados.

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A boate Sótão foi inaugurada no dia 16 de julho de 1970, numa quinta-feira à noite (Jornal do Brasil, caderno B de 15/07/1970) e prometia moralizar o cenário da galeria Alaska e competir com as melhores casas do Rio de Janeiro.

Nos primeiros anos de vida a sótão marcou presença com uma cozinha internacional e muitas atrações de primeira linha, com shows ao vivo e na segunda metade dos anos 70 a boate entrou na era da Disco Music e os homens eram proibidos de se tocar enquanto dançavam na pista.

No coração da vida noturna carioca, a boate atraia uma clientela de classe alta que podia pagar preços elevados para uma noitada de dança, shows e diversão.

Além do Sótão, a galeria tinha o Teatro Alaska que apresentava shows de travestis, no melhor estilo dos cabarés. Havia no local uma boate para lésbicas e muitos bares em torno da galeria que todas as noites de segunda a domingo lotava seus corredores e escadas – Ali era um verdadeiro shopping gay.

A Boate Sótão foi o primeiro clube prive do Brasil. Se você não fosse conhecido e não tivesse muita influência para entrar, era barrado. A fama corria solta porque a boate era um luxo, requintada, elegante e sofisticada.  Foi a casa noturna mais bem equipada do Rio de Janeiro. As caixas de som ficavam no teto e o piso era de acrílico todo iluminado por baixo, semelhante à boate do filme Os Embalos de Sábado à Noite. O Som e a Iluminação eram coisa de cinema. A boate tinha um atrativo especial para o seu público: Os garçons eram todos rapazes lindos e escolhidos a dedo. A boate fez tanto sucesso e fama que virou um programa para os heterossexuais descolados.

Amandio Presents Sotão Discotheque - Capa 1A partir de 1978 a boate ficou conhecida internacionalmente. Os artistas internacionais eram levados à boate num esquema semelhante ao o que ocorria no Studio 54 de Nova York, mesmo sendo a Sótão uma boate gay, porque além do ambiente ela tinha a melhor música

Após 10 anos de funcionamento, a boate se tornou a única do Rio de Janeiro a ser comparada, por alguns dos seus frequentadores com as melhores discotecas de Nova Iorque e Paris.

Na boate Sótão passaram famosos como Mick Jagger, Freddie Mercury, Cat Stevens e dezenas, talvez centenas de artistas brasileiros.. A música era tão boa que vinham caravanas de gays de Nova York e escutavam ali o que eles não ouviam na terra do tio Sam, porque o DJ Amândio (*) era excelente e tocava o que não rolava nas rádios e boates da América.

Obviamente, também tocava os sucessos mundiais e quem reinava nas pistas era Donna Summer, Roberta Kelly e Anita Ward, entre outras.

A pista de dança fervia quando o DJ Amândio tocava MacArtur Park, com Donna Summer ou Zodiac, com Roberta Kelly.

Mas ai chegou a AIDS e aos poucos a boate e o mundo da Galeria Alaska chegou ao fim. Para você que não viveu naqueles tempos, as saunas e boates gays passaram a ser vistas como lugares malditos, pois a paranoia e o medo esvaziaram os locais de diversão dos gays.

Não foi somente a AIDS que influenciou a decadência, mas a concorrência. A boate Sótão não era grande e cabiam ali aproximadamente 200 ou 300 pessoas. A cena da época das discotecas pedia locais amplos e mais espaçosos para comportar não apenas os gays, mas toda uma geração que descobriu e viveu a febre da Disco Music. Dai surgiram boates como Hippopotamus e Papagaio Disco Club do empresário Ricardo Amaral com amplos espaços para comportar até três mil pessoas.

Coincidência ou não, o grande hit da Boate Sótão sempre foi a música I will Survive, da Glória Gaynor.

Os anos 80 foram marcados por perdas humanas, pois muita gente morreu de AIDS. Os meus amigos quase todos morreram, os meus pontos de referência não existem mais. Na década de 80 a AIDS arrasou a noite das boates, mas passados quase 40 anos os gays estão ai, mais descolados, politizados e lutando por seus direitos, enfim, sobrevivendo.

(*) Tocando na boate Sótão, onde estreou em 1973, Amândio tornou-se referência nacional como DJ e virou ídolo dos modernos do Rio na década de 70. Cheio de vitalidade, ele toca até hoje, e muito bem!

Fonte de pesquisas:

  • Jornal do Brasil – período de 1970 a 1980
  • Jornal Correio da Manhã – período de 1970 a 1980
  • Livro: Depois do Carnaval – A homossexualidade masculina no Brasil do Século XX, de James Green, Cristina Fino e Cássio Arantes Leite.
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Sobre Regis

57 anos de idade, residente na cidade de São Paulo

Publicado em 26/11/2013, em História, Música, Memória e marcado como , . Adicione o link aos favoritos. 8 Comentários.

  1. epoca muito boa, frequentava sempre a boite sotao, dança muito, tempos bem vividos

  2. Márcio Januário

    Dancei muito no Sótão! E segunda feira era o dia mais chic!

  3. Quando de férias, não deixava de frequentar a Sotão. Som? Nem pensar em escutar igual em outras boates. Quando pedia ao Dj para gravar uma fita cassete e pegaria no outro dia para trazer para cidade(Tubarão-SC) e tocava musicas nunca antes ouvidas. Uma pena que este mundo não só se modificou, mas, se destruiu. Saudades.

  4. Eu frequentei algumas vezes essa casa no Rio e realmente, além de tudo que foi dito, havia a presença de pessoas muito bonitas, bronzeadas, felizes…me lembro tb de seguranças da casa gentilmente afastando casais que insistissem em contato mais pessoal. Não podemos esquecer que o clima urbano no Rio de Janeiro sempre foi mais aberto que o de São Paulo (minha cidade). A música era ótima, as pessoas lindas…me deu muita saudade desse tempo

  5. muito interessante. Ate hoje nunca fui numa festa gay

  6. a época, que saudades. Foi o máximo!

    • Que saudade , fiz uma longa e prazerosa viagem de volta,me senti no túnel do tempo,o sótão….,obrigado pelas lembranças,como fui feliz,vivi intensamente,juventude e’ tudo mas me sinto jovem na mente e adoro as boites atuais,ainda frequento e to nem ai ,vou pra dançar e me divertir.

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