A cena gay de São Paulo em dois atos

O nascimento da noite gay em São Paulo é contado em prosa e verso em novo documentário de Lufe Steffen. Nas fotos acima, cenas das boates Medival e Corintho nos anos 70 e 80 Créditos: Acervo pessoal de Elisa Mascaro

O nascimento da noite gay em São Paulo é contado em prosa e verso em novo documentário de Lufe Steffen. Nesta imagem, cenas das boates Medieval e Corintho nos anos 70 e 80

Ato I – Anos 70 e 80

A cena gay paulistana começou a tomar forma nos anos 70 com o advento da Discoteca e com o surgimento de boates que se tornaram ícones daqueles tempos e permaneceram no cenário paulistano por quase duas décadas.Entre as mais famosas estavam a Boate Medieval, Nostro Mondo, Homo Sapiens ou HS e Corintho.

Posso dizer que a Medieval reinou absoluta nos anos 70 e a Corintho herdou o trono nos anos 80. A Homo Sapiens também marcou época com frequentadores do naipe do Clodovil e Cauby Peixoto, pois mantinha o glamour das produções do teatro de revistas. Atualmente quem ocupa o espaço da Homo Sapiens é o ABC Bailão que atrai gente de todas as idades, principalmente acima de 50 anos.

A cena gay  era complementada por bares como o 266 West Bar, Val Improviso, Barroquinho e Caneca de Prata, além do Ferro’s Bar, Moustache e Feitiço’s frequentados por lésbicas. O pessoal que frequentou esses locais tem hoje entre 55 e 65 anos – leia recortes da cena gay paulistana.

Se você viveu aqueles tempos e essas boates e bares fizeram parte da sua história, você poderá matar a saudade com o documentário São Paulo em Hi-Fi que será exibido em primeira mão no Festival Mix Brasil, nos dias 10 e 14 de novembro de 2013.

Ato II – Anos 90

No inicio da década de 90 a cena gay da cidade ampliou-se para além dos horizontes e multiplicou-se para todos os cantos da cidade. Surgiram boates como a Rave que ficava na Rua Bela Cintra. Lembro-me das filas quilométricas do convite VIP quase dobravam a esquina. Por lá rolou muita coisa boa, mas foi na Rave em 1992, que o Aparício Basílio conheceu os seus assassinos.

No primeiro ano da boate Rave o preço da entrada era caro e selecionava o publico, mas os gays queriam ser vistos e pagavam o preço, nem que fosse apenas por uma noite. As mesas perto da janela tinham fila de espera.

Havia um corredor em cima da pista, onde rolava de tudo. A casa tinha restaurante e as pessoas saiam de suas casas às 21h para jantar e se jogar na pista depois da 23h. Naquela época não se podia entrar de sandálias ou tênis na boate. Os frequentadores já conheciam as regras e era preciso se arrumar, colocar uma roupa bonita e sapatos sociais ou esportivos – Tudo era realmente diferente.

Até meados dos anos 90 ninguém tirava a camiseta dentro de uma boate em São Paulo. Todo mundo andava arrumadinho. Os mais sarados usavam roupas mais justas e depois os abusados iam de regata para mostrar o físico.

A paquera era tranquila. Depois de algumas cervejas a noite fervia. No Clube Massivo fundado em 1991 surgiu uma onda de beijos em grupo, chamados de Almôndega. Até então a sociedade paulistana era mais rígida quanto à homossexualidade, os espaços eram poucos e ali era o momento de extravasar. O Massivo foi muito popular e se tornou um clássico na noite da cidade.

Naquela época apareceu no Brasil a figura do Go-Go boy. Eu já tinha visto algo parecido em forma de anjos seminus numa boate da Rua da Consolação chamada Anjo’s Bar em 1977.

A década de 90 trouxe para a cidade muitas boates famosas entre elas a Latino, Level, Mad Queen, Diesel, Ultralouge, SoGo, Gent’s, Blue Space e mais uma centena de barzinhos e novas casas noturnas que hoje estão em todos os bairros da cidade.

As boates foram e ainda são espaços no circuito gay que permitem que, gênero e sexualidade sejam expressões do que somos, não apenas para o lazer, mas para a sociabilidade, nos estilos e no modo de viver e isso passa a incorporar, em certa medida, elementos do orgulho e da visibilidade gay.

De um modo geral quem viveu a cena gay em São Paulo ou noutra cidade entre os anos 70 e 90, não fez parte de uma história marginal, underground, mas contribuiu para a construção da sociabilidade LGBT dos dias atuais.

Créditos da imagem: Acervo pessoal de Elisa Mascaro

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Sobre Regis

58 anos de idade, residente na cidade de São Paulo

Publicado em 07/11/2013, em História, Memória e marcado como , . Adicione o link aos favoritos. 3 Comentários.

  1. Viajei!!! Ai, que saudade.

  2. Eu, participei da Rave, curtia muito, nos anos de 1996/1997. Era sem dúvida um excelente ambiente.

  3. Muito bom!!!
    Quero um dia experimentar essas noites divertidas de Sampa!

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