Arquivo mensal: novembro 2013

Breve história da Boate Sótão

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Para quem viveu a efervescência da homossexualidade nos anos 1970/1980, lembra-se das primeiras boates gays que surgiram nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro.

Após 1972, os empresários tiraram vantagem da abertura à sociabilidade homossexual e ofereceram um número crescente de opções para os consumidores gays de classe média, cuja renda havia crescido no período do milagre econômico.

A galeria Alaska era o mais famoso reduto gay do Rio de Janeiro e tinha o apelido de Galeria do Amor (que virou nome de música de Agnaldo Timóteo). Ser gay naquela época ainda era sinônimo de discrição, mas na galeria era um dos poucos lugares do Rio que se podia soltar literalmente, a franga. A galeria era repleta de michês, que iam faturar dinheiro com os gays que frequentavam o lugar. Eram tempos românticos e ainda se podia arrumar namorado sem correr riscos de ser assaltado. Até os michês era profissionais e educados.

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A boate Sótão foi inaugurada no dia 16 de julho de 1970, numa quinta-feira à noite (Jornal do Brasil, caderno B de 15/07/1970) e prometia moralizar o cenário da galeria Alaska e competir com as melhores casas do Rio de Janeiro.

Nos primeiros anos de vida a sótão marcou presença com uma cozinha internacional e muitas atrações de primeira linha, com shows ao vivo e na segunda metade dos anos 70 a boate entrou na era da Disco Music e os homens eram proibidos de se tocar enquanto dançavam na pista.

No coração da vida noturna carioca, a boate atraia uma clientela de classe alta que podia pagar preços elevados para uma noitada de dança, shows e diversão.

Além do Sótão, a galeria tinha o Teatro Alaska que apresentava shows de travestis, no melhor estilo dos cabarés. Havia no local uma boate para lésbicas e muitos bares em torno da galeria que todas as noites de segunda a domingo lotava seus corredores e escadas – Ali era um verdadeiro shopping gay.

A Boate Sótão foi o primeiro clube prive do Brasil. Se você não fosse conhecido e não tivesse muita influência para entrar, era barrado. A fama corria solta porque a boate era um luxo, requintada, elegante e sofisticada.  Foi a casa noturna mais bem equipada do Rio de Janeiro. As caixas de som ficavam no teto e o piso era de acrílico todo iluminado por baixo, semelhante à boate do filme Os Embalos de Sábado à Noite. O Som e a Iluminação eram coisa de cinema. A boate tinha um atrativo especial para o seu público: Os garçons eram todos rapazes lindos e escolhidos a dedo. A boate fez tanto sucesso e fama que virou um programa para os heterossexuais descolados.

Amandio Presents Sotão Discotheque - Capa 1A partir de 1978 a boate ficou conhecida internacionalmente. Os artistas internacionais eram levados à boate num esquema semelhante ao o que ocorria no Studio 54 de Nova York, mesmo sendo a Sótão uma boate gay, porque além do ambiente ela tinha a melhor música

Após 10 anos de funcionamento, a boate se tornou a única do Rio de Janeiro a ser comparada, por alguns dos seus frequentadores com as melhores discotecas de Nova Iorque e Paris.

Na boate Sótão passaram famosos como Mick Jagger, Freddie Mercury, Cat Stevens e dezenas, talvez centenas de artistas brasileiros.. A música era tão boa que vinham caravanas de gays de Nova York e escutavam ali o que eles não ouviam na terra do tio Sam, porque o DJ Amândio (*) era excelente e tocava o que não rolava nas rádios e boates da América.

Obviamente, também tocava os sucessos mundiais e quem reinava nas pistas era Donna Summer, Roberta Kelly e Anita Ward, entre outras.

A pista de dança fervia quando o DJ Amândio tocava MacArtur Park, com Donna Summer ou Zodiac, com Roberta Kelly.

Mas ai chegou a AIDS e aos poucos a boate e o mundo da Galeria Alaska chegou ao fim. Para você que não viveu naqueles tempos, as saunas e boates gays passaram a ser vistas como lugares malditos, pois a paranoia e o medo esvaziaram os locais de diversão dos gays.

Não foi somente a AIDS que influenciou a decadência, mas a concorrência. A boate Sótão não era grande e cabiam ali aproximadamente 200 ou 300 pessoas. A cena da época das discotecas pedia locais amplos e mais espaçosos para comportar não apenas os gays, mas toda uma geração que descobriu e viveu a febre da Disco Music. Dai surgiram boates como Hippopotamus e Papagaio Disco Club do empresário Ricardo Amaral com amplos espaços para comportar até três mil pessoas.

Coincidência ou não, o grande hit da Boate Sótão sempre foi a música I will Survive, da Glória Gaynor.

Os anos 80 foram marcados por perdas humanas, pois muita gente morreu de AIDS. Os meus amigos quase todos morreram, os meus pontos de referência não existem mais. Na década de 80 a AIDS arrasou a noite das boates, mas passados quase 40 anos os gays estão ai, mais descolados, politizados e lutando por seus direitos, enfim, sobrevivendo.

(*) Tocando na boate Sótão, onde estreou em 1973, Amândio tornou-se referência nacional como DJ e virou ídolo dos modernos do Rio na década de 70. Cheio de vitalidade, ele toca até hoje, e muito bem!

Fonte de pesquisas:

  • Jornal do Brasil – período de 1970 a 1980
  • Jornal Correio da Manhã – período de 1970 a 1980
  • Livro: Depois do Carnaval – A homossexualidade masculina no Brasil do Século XX, de James Green, Cristina Fino e Cássio Arantes Leite.
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Os gays maduros e as relações abertas

face_grisalhos2013Psicólogos defendem as relações humanas contemporâneas como abertas e sem prazo de validade. Na prática todas as relações são abertas.

Há tempos ouço debates sobre qual é o modelo de relação mais comum. Entre defensores da monogamia e da poligamia, eu costumo brincar que fechada, aberta e de carne são esfihas; relação é outra coisa. Já que o que realmente nos une ou separa de uma pessoa não é um acordo pré-fixado, nem uma instituição, nem um papel.

Quando falamos de relação entre parceiros do mesmo sexo não podemos esquecer que principalmente os homens tem um instinto natural de caça, de busca por sexo, já as mulheres são mais fiéis às suas companheiras.

A seguir uma coleção de opiniões minhas, de amigos, conhecidos e leitores do blog:

  • Os gays buscam durante a vida um parceiro para viver um grande amor e quando encontram o parceiro, nem sempre dura muito tempo e nem sempre é um grande amor – Foi um encontro, com algum sexo e uma tentativa de tornar a relação mais estável e duradoura – Leia esse artigo onde relato a minha última experiência de relacionamento.

Um leitor disse que as relações começam com a atração física, aquela coisa de pele, toques, cheiro. Depois de alguns dias vem a paixão. Ai entra em cena a intimidade e a rotina – Se você encontrar no seu caminho um cara mais bonito, você vai se atirar porque a atração foi mais forte  do que a vontade de persistir no relacionamento que você está vivendo.

  • No mundo gay a fidelidade é uma figurinha carimbada. Durante mais de trinta anos eu vivenciei isso todos os dias. Se o seu companheiro é bonito e gostoso sempre vai chover gays em cima dele. Ai surge a questão da Liberdade e ciúmes dos gays maduros.
  • João Carlos escreveu no e-mail: Se você tem um companheiro trate de ficar longe dos guetos, principalmente bares e boates, porque o cenário é propício às separações.
  • Mario é um coroa sessentão. Ele disse que os gays idealizam um parceiro e quando encontram a primeira grande atitude é a traição. Será que traiu, acabou? Vai depender do outro e de como ele vê essa situação. Os gays não são monogâmicos, isso é um mito.

Um ex-companheiro meu, Amedeo sempre dizia que não abria mão da relação estável e uma hora depois lá estava ele numa sauna e dizia que não era para procurar companheiros, ele ia em busca apenas de sexo.

Outro leitor escreveu: A relação entre gays é difícil porque a sociedade não tira os olhos e quando encontramos um parceiro cessamos imediatamente a busca e focamos naquela relação. Então fui buscar um post de 2009 sobre a difícil arte dos encontros.

  • O meu vizinho gay mantêm dois relacionamentos há mais de cinco anos. Ele diz que na falta de um existe o outro, mas ele evita morar junto ou viajar por longos períodos. Ele se diz livre e que um não sabe que o outro existe – Também, um mora no Rio de Janeiro e o outro em Madri. Com certeza o madrileno ou o carioca faz a mesma coisa, porque essa convivência de cinco anos é conveniente para ambos.

Os gays se preocupam demais em acertar e muito pouco em vivenciar com os próprios olhos, tato, ouvido, paladar e corpo, desperdiçando a parte mais saborosa das relações, que é explorá-las, desbravá-las. E é justamente essa conduta que atinge o ponto vital das relações, fazendo com que fiquem apáticas, anêmicas e sem fluidez.

Aí para não perder o amigo de longa convivência sugerimos abrir a relação, porque o desgaste leva à perda do tesão. Muitos gays conseguem separar sexo e sentimentos.

Os gays maduros e idosos caem de cabeça nos relacionamentos porque tem medo de ficar sozinhos. Não querem um companheiro, querem um enfermeiro – Quem disse isso foi o Geraldo, outro conhecido que cuidou do companheiro até a morte.

Já o André é mais emocional e diz que os gays não percebem que o comprometimento na relação vem antes da promessa, que o amor vem antes do pedido de morar juntos, que a conexão vem antes da razão.

relaoes_abertas_grisalhosOs enganos que mascaramos são como fingir o tesão: nós recebemos de volta aquilo que nos insatisfaz enquanto tentamos fazer o outro acreditar que nos contenta.

Na ânsia de controlar o outro, colocamos o carro na frente dos bois e definimos formatos de relações para garantir segurança, enquanto ironicamente evitamos nos expor ao contato e sem garantias. Abertos, assim como todas as relações.

Então caro leitor dos GRISALHOS da próxima vez que tiver dúvidas sobre qual tipo de relação está vivendo, parta do seguinte ponto: Todas e abertas.

Deixo aos leitores do blog, a página do meu amigo Fabricio Viana no Facebook, que, aliás, faz tempo que não tenho contato. Ele está com um projeto de um documentário sobre Relações Abertas – Uma conversa sobre as possibilidades sexuais e afetivas.

Nota: O grisalho da foto é gostosão e entrou neste post para provocar a imaginação dos leitores.

Crédito da imagem: Older4me

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