Duplo armário

duplo_armarioOutro dia eu ouvi alguém dizer: “pior do que um gay enrustido, é um gay enrustido e que não assume nenhuma relação”.

Então, eu imaginei como seria este homem e conclui tratar-se do homossexual preso dentro de dois armários – É o armário dentro do armário!

As “lentes” das pessoas variam e alternam perspectivas e julgamentos. Existe uma homofobia internalizada na maioria dos gays, principalmente, os mais velhos que, ao não validar este tipo de relação, faz com que muitas vezes os homens tenham um ‘duplo armário’. Está preso num segundo armário quando não quer revelar ou demonstrar que tem uma relação com outro homem. Isso talvez explique porque evitam festas, baladas e convívio social.

Tudo bem, se você não gosta de demonstrações públicas de afeto, mas viver como se você fosse um heterossexual  faz com que o companheiro sinta-se rejeitado e enclausurado.

duplo_armario_gayHistória verídica:

Germano tem sessenta anos e nunca aceitou sua homossexualidade. Viveu mais de trinta anos enfurnado nas saunas e bares. Os seus hábitos sempre foram noturnos porque sempre acreditou que estava sendo perseguido ou observado por parentes e amigos, o que lhe causava calafrios e falta de ar, fobias comuns para situações dessa natureza.

Um dia ele conheceu o Gabriel e logo se apaixonou. Depois de um mês levou a rapaz para casa e confinou o pobre coitado no seu duplo armário.

No começo o Gabriel até que aguentou o isolamento, mas sempre questionava porque eles não saiam para se divertir. Tentou mudar os hábitos do Germano, mas não obteve sucesso. Depois de dois anos não aguentou mais e encerrou a relação.

O Gabriel nunca pode demonstrar carinho ou afeto em público, apenas entre quatro paredes e de portas e cortinas bem fechadas. Uma vez alugaram um sítio só para os dois, num lugar longe, no meio do mato e quando se aproximou do Germano para fazer um carinho, a rejeição foi imediata. Moral da história: Caras amarradas, sem diálogo, sem sexo e fim de semana desperdiçado!

Eu conheço o Germano há mais de vinte anos e não foi fácil conquistar sua confiança. Nesse tempo de amizade eu nunca fui ao seu apartamento e nem ele ao meu. Nossos encontros sempre foram na rua e algumas vezes nos bares da cidade. Se eu fosse efeminado com certeza não teria a sua amizade – Eu não estou propagando modelos negativos, do homem que quer ser mulher, com saltos altos, plumas e paetês e não prego a heteronormatividade dominante na sociedade.

O comportamento do Germano é fruto de traumas da adolescência e de pressões familiares. De família italiana, católica e tradicional ele se trancou nos dois armários e viveu na clandestinidade dos guetos – sexo anônimo e sem compromisso.

Ele criou um mundo onde da sua redoma observa tudo, mas não gosta e não se permite ser observado. Suas conversas são vagas, não tem profundidade, humanidade e principalmente, sinceridade. Esconde tudo e a sua vida sempre foi um segredo de estado. Se você perguntar se ele é ativo ou passivo, a amizade já era.

O mais engraçado é que ele sempre reclamou da falta de sorte nos relacionamentos. Claro, buscou parceiros nas saunas, fez sexo anônimo dentro dos cinemas de pegação e vez ou outra carregou para casa, aquele cara mal encarado e bêbado do fim-de-noite dos bares. Esses locais são para sexo eventual e raras vezes resultam em relações afetivas.

Situações de duplo armário estão cheias por ai. Ninguém consegue tirar ninguém do armário, imagine então do armário dentro de outro! Em muitos casos, os principais obstáculos a ultrapassar são internos. Veja o exemplo do Germano: Ele sempre reclamou da falta de sorte, mas tinha que pelo menos sair de um dos dois armários para aumentar as possibilidades de ter relacionamentos mais duradouros.

Desde muito cedo foi dito aos homens que é errado amar ou demonstrar afeto e carinho a outro homem. Depois, ao longo do seu desenvolvimento, interiorizam estas mensagens negativas que causam danos na sua autoestima. Esta é uma das principais dificuldades para estabelecer relações entre dois homens, pois é possível que um homem que ame outro acredite que esse amor é errado. Ainda, destaco outro problema comum: Dois homens poderão ter alguns desafios acrescidos na gestão do poder, porque ninguém os preparou para o equilíbrio de tarefas e papéis.

Quem vive ou viveu uma relação sabe que os principais fatores que afetam a relação são: Problemas de comunicação, comportamento, ciúmes, problemas com amizades e problemas financeiros.

Apoiado nestes e noutros valores, a conclusão é que as relações entre homens são tão diferentes ou tão iguais, tão banais e prazerosas como quaisquer outras, mas cuidado com o duplo armário!

Crédito da primeira imagem: Angeli

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Sobre Regis

58 anos de idade, residente na cidade de São Paulo

Publicado em 18/10/2013, em Relacionamento, Sexualidade e marcado como . Adicione o link aos favoritos. 3 Comentários.

  1. Sou apaixonado por um homem que tem duplo armário, temos amizade há mais de 9 anos e já vivemos muitos momentos de atração sem ter algo mais íntimo. No início fazíamos caminhada e ele deixava que minhas mãos deslizassem pelas suas pernas e nádegas. De uns tempos para cá dou carona para ele 02 vezes por semana, apesar do percurso pequeno eu deslizo minhas mãos pelas suas pernas que são lisinhas ( uma delícia ), já me declarei para ele, mas ele não aceita falar neste assunto, mas eu percebo que ele gosta do que acontece entre a gente. Somos casados,eu tenho 42 anos e ele tem 68 anos. Não sei mais o que fazer, acho que não terei sucesso, mas continuo amando intensamente e após cada carona eu chego em casa e masturbo pensando nele.

  2. O relato fez-me lembrar de um episódio vivido por mim quando tinha 29 pra 30 anos.Estava sem dinheiro pra nada,aí uma amiga sabendo da minha situação me indicou pra uma familía que procurava um rapaz para cuidar de um idoso de 80 anos.Topei na hora,principalmente porque sempre tive imensa afeição por homens maduros e até velhos mesmo,pois a primeira experiência gay foi com um senhor de 74 anos.
    No decorrer de uns quatro meses cuidando daquele senhor(meu trabalho consistia em alimenta-lo,dar banho,limpa-lo depois do vaso…)pois ele perdera a mobilidade nas mãos depois de um AVC e em seguida o mal de Parkinson…
    resumindo:apos uns meses uma forte atração aconteceu entre nós,acabamos nos tornando muito mais do que patrão e empregado,pois eu que sempre fui passivo, me tornei o amante ativo daquele homem que passou 80 anos no armário.
    E sinto saudades até hoje, doze anos depois do falecimento dele…

  3. RENATO VIEIRA ALVES

    Estou me relacionando com um cara que conheci no passado e ao reencontrá-lo e a convivência, percebo que ele sofre por vários motivos em querer ser o hétero que ele não é.
    Ele tem dificuldades de conversar, falar sobre sexualidade, desempenho sexual, trabalho, familiares, amigos e um mar de frustrações tão dificil de lidar com ele mesmo.
    Ele não consegue me encarar olhos nos olhos. Não sabe lidar com mulheres.
    Ao me ver durante o dia ele quer falar comigo na frente dos outros e transpira e fica mudo.
    Tem medo de ligar pra mim no telefone e quando eu ligo ele larga tudo e aparece.
    Também, não consegue encarar seus familiares.

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