Solidão de amigos gays

Os gays, lésbicas e bissexuais acima dos 50 anos, tendem a sofrer de maior solidão e depressões devido à discriminação da sua orientação sexual.

No meu cotidiano da metrópole de São Paulo, eu vivencio isso todos os dias. Observo os gays com atenção e percebo que mesmo havendo diversas atividades e ocupações esses gays me transmitem um estado de solidão, muitas vezes imperceptíveis a eles.

Diz o ditado: Solidão é estado de espírito, mas estar só não significa que a solidão tem que ser a companheira diária. Mesmo acompanhados de pessoas, vizinhos e amigos esses gays estão sozinhos porque estão assimilados nessa condição e por mais que eles tenham um rosário de atividades diárias, no fim do dia a solidão bate à porta para lembrar-lhes que ela esta sempre à espera da oportunidade para dar-lhes um presente: a depressão

Em 2011 um estudo da Universidade de Washington tratou dessa questão e os resultados não são diferentes da realidade dos gays brasileiros e residentes no país.

De acordo com as conclusões da investigadora responsável pelo estudo, Karen Fredriksen-Goldsen, “as taxas mais elevadas de envelhecimento e as disparidades de saúde entre lésbicas, gays, bissexuais e transexuais adultos mais velhos motivam enorme preocupação para a saúde pública”. Mais de 40% dos entrevistados apresentaram quadro de depressão e com tendências ao suicídio.

“As disparidades refletem o contexto histórico e social de suas vidas. As adversidades graves que atravessaram podem comprometer a sua saúde e gerar relutância em procurarem os cuidados médicos na velhice”.

Eu sempre tento na medida do possível passar aos leitores do blog um conteúdo positivo. Falar em solidão não é legal, mas a solidão e o isolamento existem e isso é comum na população LGBT idosa. Na verdade a solidão passa a fazer parte da nossa vida desde quando nos descobrimos gays.

Observando o cotidiano dos gays eu vejo a solidão disfarçada em apatia, indiferença, conformismo e rejeições. Soma-se a isso a fragmentação e o individualismo dos seres humanos deste século.

A seguir alguns relatos de amigos gays:

João: “Ser gay é conhecer o desprezo, a solidão e o abandono. Quem gosta de se sentir desprezado, sozinho e abandonado? A gente não escolhe, apenas aceita essa determinação da vida”.

Luciano: Eu sempre contei os meus amigos apenas nos dedos numa das mãos. São aqueles poucos que me aceitaram da forma que sou. Hoje sofro preconceito mesmo no meio gay. Os gays abrem exceções para aqueles que lhes interessam e quanto aos demais, bem, são restos de nada e escravos da solidão”.

André: “Quando a solidão chega eu corro pro bar e encho a cara. No dia seguinte eu estou melhor”.

Zezinho: “Combato a solidão buscando parceiros eventuais, mas depois do sexo eu fico ainda mais vazio”.

Cláudio: “Solidão vai e vem. Depende de cada momento e de como estou me relacionando, porque se estou numa relação, não tenho tempo para pensar ou sentir-me solitário”.

Observe que além do abandono, os gays que estão nessa fase da vida, mesmo gozando de saúde e autonomia, conseguem driblar o isolamento, mas não se livram da solidão – Ela vai e volta e isso depende de cada um e de como trabalham as questões psicológicas e emocionais. Nenhum deles acha que precisa de cuidados ou orientações médicas.

Eu li não sei aonde sobre a solução para minimizar a solidão.  É acreditar no casamento entre iguais ou numa relação estável, como uma forma de resolver tal questão e também apostar na amizade.

O filósofo Foucault também apostou na amizade. Para ele, a homossexualidade pode ser uma forma de escapar da normatização social através de novos estilos de vida, novas relações e, entre essas, a amizade – Amizade como uma relação de cuidado e afeto, tal como em épocas passadas.

Foucault chegou a dizer que após o estudo da história da sexualidade seria preciso pensar a história da amizade e ressaltou a importância de novos modos de relações afetivas, sexuais, éticas e políticas.

Bom final de semana!

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Sobre Regis

58 anos de idade, residente na cidade de São Paulo

Publicado em 13/09/2013, em Comportamento, Relacionamento e marcado como , . Adicione o link aos favoritos. 11 Comentários.

  1. Olá. Que bom ter conhecido esse blog.
    Há tempos já estou vivendo a solidão. Tive um relacionamento de quase oito anos, ao qual eu mesmo pus fim porque não tinha para onde ir, já que não fui mais do que o namorado – ou somente amigo? – de final de semana durante todo esse tempo, e paciência tem limite. Ele nunca quis sair da casa dos pais, e como por isso nossos encontros eram raros, ele foi se distanciando cada vez mais. Se ao menos, quisesse um relacionamento profundo… Ou seja, a solidão já estava presente há muito tempo.
    Mesmo depois de quase quatro anos, não consegui um outro namoro; apenas um caso de duas ou três semanas que me parecia que iria durar mas afundou quando o rapaz que eu tinha conhecido voltou para o ex sem falar nada; simplesmente se foi. Eu sabia que minha idade (tinha 39 na época) e minha característica introspectiva não iriam me ajudar em nada.

    Que adianta ser romântico e ter a sensibilidade à flor da pele, com desejo enorme de conhecer alguém pra seguir a vida, se agora me vejo sem forças? Meus amigos têm relacionamentos estáveis. Não dá pra ficar convidando-os pra sair. Frequento espaços de cultura geralmente sozinho; nada de ambientes gays, porque os poucos que conheci nesses ambientes quando era mais jovem não me deram nada além de uma noite ou algumas semanas para depois correrem atrás de novidade.
    Há alguns dias, depois de assistir a um programa de televisão, chorei muito, porque, no fundo, estou apavorado. O medo de uma velhice solitária está me angustiando. Desde mais novo, queria muito ter filhos, mas parece que não vai ser nessa vida que terei filhos.

    Tenho duas graduações, sou discreto, sensível, meus poucos amigos dizem que sou muito legal. Não estou dizendo isso para me exibir, mas para afirmar que, apesar de ter as qualidades que dizem buscar nas pessoas para relacionamento, continuo sozinho. Às vezes me pergunto se é minha barriguinha (no diminutivo mesmo) que me deixa feio, sem atrativos, porque de rosto não sou feio. Não estou conseguindo os olhares que conseguia antes.

    • Romero

      A vida é assim mesmo, cheia de altos e baixos.
      A busca pelo amor ideal é um risco porque quando se percebe a vida passou e não tem como recuperar o tempo perdido
      Viva o tempo presente e valorize a sua vida sem se preocupar em valorizar a vida dos outros.
      Isso acontece tanto para os homossexuais como para os heterossexuais

      Abs
      Regis

  2. Amigos,
    Tenho 40 anos, completados neste ano e meu companheiro tem 67. Moramos separados e ambos perdemos nossos companheiros há algum tempo atrás. Na medida do possível, tentamos estar juntos e nos completarmos. Como tudo na vida, solidão demais é realmente muito ruim, mas ela faz parte do dia a dia. Acredito que o problema não seja a solidão em si, mas sim como a pessoa encara a própria vida e a si mesmo.
    Há alguns dias em que estou sozinho e penso em como será minha vida quando ele não estiver mais perto de mim…a única coisa que sei é que não quero em hipótese alguma ficar em casa me lamentando, quero sair, aprender coisas novas, ir ao cinema, ir ao teatro, tomar um chopp de vez em quando, mesmo que sozinho, ficar contemplando a minha cidade, enfim, acredito que tendo pensamento positivo, a gente consegue driblar a solidão.
    Concordo com todos que falam que o mundo gay é uma selva de vaidades, mas também acredito que só seremos tragados por ela se lhe dermos valor demasiado.
    Beijos à todos.
    Marcelo.

  3. Tenho um amigo (82 anos incompletos), que está passando por momentos difíceis por causa da solidão; vive deprimido e ultimamente tudo que fala tem a morte como “tema”, faço tudo que me é possível para tirá-lo do abismo negro, mas não consigo, tudo se esvai para o nada… Os amigos sumiram, os antigos amantes também, sofremos juntos, mas uma coisa tenho certeza, eu estarei sempre ao seu lado, sempre!… Até meus amigos têm me evitado, dizem que sou “muleta”. É incrível como são insensíveis os gays mais jovens, para eles o que importa é o imediato, não têm olhos para os que um dia foram iguais a eles. Dir-se-ia que são estúpidos ao acharem que serão eternamente jovens. Os jovens não são solidários com os mais velhos… Este meu amigo teve amantes, adorou a beleza, viveu para ela. Nunca se preocupou em manter laços mais estreitos com alguém que tivesse por ele respeito, carinho, cumplicidade. Viveu o efêmero, curtiu o momento, a carne… O grande problema do homossexual é não pensar no dia seguinte; porque a vida não deve ser resumida apenas em sexo. Há vida para muito além de uma trepada; juntamente com um corpo escultural, deve haver um pouquinho de celebro, umas graminhas de inteligência, que convenhamos não fazem mal a ninguém. Pecam os “gays” que buscam em jovens acéfalos a realização dos seus sonhos sexuais. Deem uma chance a si mesmos, busquem algo mais além da beleza e de um corpo, para que possam ter uma velhice amparada e sem solidão. Velhos sozinhos, nada mais triste. Dói-me ver um velho triste porque os amo tanto…

    • Abas,

      senão a maioria, isso é comum a todos os seres humanos e aos gays porque não constituem família.
      A ficha vai cair quando a maturidade ou a velhice chegar. Ai então já é tarde.
      Eu acredito que tudo o que você escreveu deve ser construído dia-a-dia durante a vida, desde a juventude e a descoberta da homossexualidade.
      Abraços
      Regis

  4. A solidão é um problema sério, na vida dos indivíduos gays. Eu sempre ouço do meu companheiro, a seguinte expressão: “o que seria de mim sem você”. Faço o que posso dentro das minhas possibilidades, para ver ele feliz. Nessa sociedade, ser gay não é fácil, vivendo uma vida dupla (gay e solidão), é lamentável.

  5. Como já expus alguma vezes, tenho 28 anos e já sinto a solidão na pele e tento, a cada dia, adaptar-me a ela, já que sempre fará parte da minha vida. Como sinto atração somente por coroas, vejo a dificuldade também de ambos os lados.
    Percebo que parte considerável dos coroas querem fast-foda com jovens do corpitcho sarado, bonito como forma de sentirem-se quistos e inseridos na sociedade, mas que não passa de uma falácia para mascarar a vacuidade o qual acabam caindo, um abismo do qual olha e é olhado.
    Acho que, no mundo gay principalmente, vivemos uma liquidez sem tamanho de todas as coisas, é triste assumir isso, mas é como vejo e sinto tal grupo social.
    O importante é trepar sem limites e, a partir disso, mostrar que lhe traz poder esse trepar desenfreadamente, sejam coroas, sejam jovens.

    Não acredito nas pessoas e, muito menos, nos gays. Carrego um pessimismo-realista quanto à classe gay. Pagarei o preço como já pago, porém nem tudo são flores, aliás, quase nada são flores, mas sim espinhos a serem pisados cotidianamente.

    Já dizia o cineasta Lars Von Trier no filme Melancolia: o mundo é mau.

  6. José Augusto

    Talvez a maior dificuldade que encontramos em nossas vidas na hora em que deixamos a infância para trás esteja vinculado a nossa incrível falta de capacidade para vivenciar o momento presente. É um mal que atinge a todos, tanto faz se somos jovens, maduros ou idosos temos a tendência de não viver o presente e o que ele pode nos oferecer para ficar nadando em águas passadas ou então vivendo em mundos imaginários e acreditando que serão melhores e mais felizes. O fato é que esta dinâmica destrói a possibilidade real de vivermos e de interagimos verdadeiramente com o outro. Para mim a solidão só existe neste contexto. Edificamos tijolinho por tijolinho nosso próprio inferno e com certeza o cimento utilizado nesta construção está ligado a isto. Não estou falando exatamente de solipsismo, de carpe diem e nem da efemeridade do tempo e sim de algo vinculado a dinâmica do mundo interno das pessoas, pois somos criaturas da mudança, nascidos nela e assim sendo temos que ter a sensibilidade de deixá-la fruir de uma maneira pela qual possamos aproveitar ao máximo o que nos está sendo posto no momento. Completei cinqüenta anos, não estou com ninguém, e não me preocupo nem com o meu passado e muito menos com meu futuro. Penso no meu dia de hoje e o que ele pode me trazer.

  7. A solidão é ótima para quem a curte, como eu. Adoro estar só comigo mesmo. Mas é um tormento para quem curte a vida partilhada com outras pessoas. Deve ser um abismo negro de frustração.

  1. Pingback: Solidão de amigos gays | C O O LTURA

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