Do Gueto ao Bairro Gay

???????????????????????????????A sociabilidade espacial humana se produz a partir de variadas influencias, dentre elas a cultura, a qual, representada através do contexto de vivência individual ou grupal, atribui certos padrões de convivência e aceitações internas e externas ao grupo.

No caso dos homossexuais, o conflito entre padrões de conduta e a norma heterossexual produz formas variadas de manifestações de hostilidade, oscilando entre olhares enviesados e múltiplas formas de agressão, que findam por expurgar os homossexuais dos espaços públicos, levando-os a constituírem certos tipos de guetos, onde os iguais se encontram e coexistem em liberdade.

Em 2010, o escritor João Silvério Trevisan em entrevista à revista CULT falou sobre o gueto como um mal necessário.

“Eu frequento o gueto, tenho receio de que leve a uma demarcação de territórios- mas sei que ele é necessário. Se eu for com o meu namorado ao gueto, posso beijá-lo; mas se eu fizer isso numa boate hetero ou num restaurante, o segurança vai me botar pra fora ou eu serei repreendido pelo garçom – tanto que as pessoas estão forçando a barra para expressar seus afetos em público, apoiando-se nas leis anti-homofóbicas que existem”.

“Fora do gueto, você corre riscos, pois o campo da sexualidade é muito propício para a eclosão de demônios e existe uma enorme quantidade de pessoas doentes por homofobia, A existência do gueto, portanto, é um mal menor. A ideia é que o gueto se amplie a tal ponto que as suas fronteiras desapareçam”.

Pois bem, como o leitor pode perceber, o gueto existe há muito tempo e talvez sempre vá existir.

Na juventude foi no gueto que eu aprendi tudo o que sou hoje, onde fui assimilado, socializado e a sexualidade fluiu naturalmente. Das conversas despretensiosas para passar o tempo aos amores de fim de noite, das paqueras inconsequentes aos porres homéricos; mas eu não percebia o gueto como um lugar perigoso, muito pelo contrário, lá eu me sentia seguro.

Hoje no meu cotidiano a imagem daquele gueto ficou no passado e guardei singelas memórias do lugar onde pessoas conhecidas ou amigas desfilavam com suas melhores roupas e perfumes. Chegavam no começo da noite alegres, soltos e a fim de curtir o local numa boa e sem neuras. A maioria queria mesmo demonstrar os seus afetos livremente, através dos flertes e beijos na boca, como disse o Trevisan.

Recentemente um conhecido me falou dos perigos dos guetos, com muitos bandidos infiltrados para aplicar golpes, roubar e até matar por míseros trocados – eu penso que isso sempre existiu, mas em menor escala. Hoje a violência está em todos os extratos sociais.

Eu me lembro de que nos anos de 1970 não existiam muitos guetos, pois eram compostos apenas por uma ou duas ruas, com alguns bares, saunas e uma boate – A vida no gueto começava ao cair da tarde e terminava com os primeiros raios da manhã. Nos finais de semana você via gays de todas a idades e vindos dos mais diferentes lugares da cidade, do interior e de outros estados.

Hoje a quantidade de guetos, ou melhor, de locais de frequência dos gays é diversificada e não se concentram num ou noutro ponto das cidades. As fronteiras dos guetos ultrapassaram esquinas, atravessaram praças e seguiram em várias direções. Não existe mais a penumbra e escuridão. Pulsa todos os dias e durante vinte e quatro horas – É o que eu chamo de Bairro Gay.

O primeiro bairro gay que eu visitei foi na cidade de Toronto no Canadá (fotografei cenas do bairro em 2002 – veja a primeira imagem neste post), depois, conheci outros em Nova York, Madri e Barcelona. Nesses bairros a diversidade vai além de uma rua, um bar ou boate. Existem comércios e serviços tradicionais como supermercados, sapatarias, jornaleiros, lavanderias, açougues, lojas de roupas, padarias, cafés, livrarias e habitações, casas ou apartamentos. Eu ainda não conheço o Castro, o bairro ou sub-bairro em São Francisco, talvez um dos mais antigos do mundo, mas com certeza o mais famoso por que ali morou Harvey Milk.

A transformação dos guetos em bairro gay não foi premeditada, mas por intermédio das grandes mudanças sociais dos últimos trinta anos – O Mercado Mix colaborou para essa transformação, com uma gama de serviços e produtos destinados aos gays. Os mais comuns continuam sendo as saunas, boates e os bares. A transformação do gueto em bairro gay modificou o cenário e trouxe a insegurança e a violência.

gueto_bairro_gayAtualmente a sociologia urbana realiza pesquisas para tentar entender a segregação homossexual nos espaços de lazer das cidades e a violência urbana que chegou aos guetos ou bairros gays, como uma extensão da violência das periferias das cidades.

Nos bons tempos dos guetos paulistanos, não se via assaltos diários, ou golpes de “boa noite Cinderela”, bem como, contava-se nos dedos a violência física contra os gays.

Na cidade de São Paulo os antigos guetos nas imediações da Rua Vieira de Carvalho e Largo do Arouche e da região do Baixo Augusta ( Praça Roosevelt, Rua da Consolação, Bela Cintra, Frei Caneca, Peixoto Gomide) se uniram e formaram uma Zona Gay, ou Gay Village. Hoje não há mais limites entre essas duas regiões, o que comprova o que o João Silvério declarou à Revista Cult.

A percepção dessas mudanças é bastante óbvia, principalmente para os moradores do bairro que como eu sabem que este não é um fenômeno isolado, pois acontece noutras capitais como: Rio de Janeiro, Salvador, Recife ou Porto Alegre.

Ah, de Porto Alegre eu me recordo do Caio Fernando Abreu (nasceu em Santiago e faleceu em Porto Alegre) e da sua novela Pela Noite, que compõe o livro Triangulo das Águas.

Aquelas personagens principais que se vêem duplamente aprisionadas sejam na esfera pessoal, na angustia individual ou na social dentro do gueto, um cárcere que oscila entre a escolha, a necessidade e a obrigação do ocultamento.

A transformação dos guetos em bairros amplia as possibilidades dos gays viverem livremente a sexualidade, sem escolhas forçadas ou a obrigação de viver no armário, tornando-os cidadãos dignos, honrados e sem o estigma da discriminação.

Leia também:

Créditos:

Revista Cult 

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Sobre Regis

58 anos de idade, residente na cidade de São Paulo

Publicado em 10/07/2013, em Sociedade e marcado como , . Adicione o link aos favoritos. 3 Comentários.

  1. O gueto gay é para o homossexual um espaço de liberdade individual,onde ele se sente livre para agir como quiser com seu namorado sem chamar a atenção ou provocar escândalo. Isso no caso dos mais discretos, pois os mais chamativos buscam justamente o contrário: chamar a atenção e provocar escândalo

  2. No meio gay o termo gueto é muito usado, como por exemplo, o local frequentado por homossexuais, mais não podemos generalizar. Não sou sociólogo e nem comprove em tese, que o gueto seja o local frequentado por gay, sim por pessoas excluídas de qualquer orientação sexual. Será que todos os locais gays são frequentados pelos excluídos? Por que quando falamos em gueto, muitos imaginam como o local composto de pessoas de baixa renda, porém o gueto tanto falado no meio homossexual a muito deles composto pelas classes abastada, tais como: saunas bares boate… por isso não devemos chamar o local de frequência de homossexuais de gueto. Sei lá, pode ser o que o banheirão em terminais de transportes urbanos seja um gueto, já o banheirão em alguns shoppings não sejam, em fim. Quando falamos em gueto será bom especificar qual o tipo dele, por quer se generalizar, pode ser que na teoria seja uma inclusão e na pratica não passa de uma exclusão.

  1. Pingback: A vida social dos gays | Grisalhos

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