História gay e a Turma OK

movimento_gay1Pouca gente sabe, mas a história dos movimentos sociais, políticos e culturais de homossexuais no Brasil remonta às décadas de 1950-1960. Há poucos estudos acadêmicos ou registros históricos sobre o assunto e durante as minhas férias fui pesquisar para trazer aos leitores do blog um pouco dessa história.

Entre as décadas de 1950 e 1970 algumas “turmas de homossexuais” começaram a surgir no Rio de Janeiro. Um estudo acadêmico realizado em 2010 sobre o jornal O Snob, contabilizou nove Turmas atuantes nos dois primeiros anos de existência daquela publicação (1963-1964). Essas Turmas adotavam, quase sempre, o nome da localidade da qual seus membros faziam parte: Turma do Catete, Turma de Copacabana, Turma da Zona Norte, Turma do Leme, Turma OK, Turma da Glória, Turma de Botafogo e o Grupo Snob.

Esses grupos se reuniam nos apartamentos daqueles membros que abriam as suas portas para receber amigos e outros convidados. Recebiam ainda membros de outras turmas, animando uma agitada vida social baseada em laços de amizade. Eram reuniões informais nas quais conversavam sobre amenidades, trocavam ideias, riam e flertavam. Cada um trazia um prato que era compartilhado por todos os presentes. Essas reuniões aproveitavam-se da intimidade dos apartamentos para controlar a frequência dos membros. Ali todos eram conhecidos, eram amigos, portanto poderiam ser eles mesmos, sem precisar esconder suas preferências sexuais.

As atividades das Turmas não se restringiam apenas às reuniões sociais, mas também a jantares e às esperadas festas temáticas. As festas eram o coroamento máximo dessas reuniões, através desses eventos é que surgiram os concursos de miss gay, espetáculos e outras atividades lúdicas. Foi da popularidade gerada por essas festas temáticas que surgiu a necessidade de se criar um jornal, O Snob, dedicado a divulgar o calendário de festas e outras atividades promovidas por essas Turmas.

A possibilidade de existir como homossexual era um dos principais objetivos perseguidos por esses grupos, diante de uma sociedade com poucos espaços de socialização. Nessas reuniões, ocorria muito mais do que o encontro de indivíduos que se reconheciam em função de suas preferências sociais, ali se aprendia a ser homossexual, assim como, mais tarde, em reuniões semelhantes, aprendeu-se a ser militante homossexual.

Além dessas atividades, as Turmas ocupavam papel semelhante àquele desempenhado pela família. Os homossexuais predominantemente masculinos se reuniam também em datas comemorativas como o Natal e o Ano Novo. Muitos moravam sozinhos e estavam longe de suas famílias biológicas, que se encontrava em outros estados ou moravam em bairros diferentes daqueles em que os familiares residiam. As reuniões natalinas concentravam um grande número de pessoas, cada qual trazia um prato de comida e realizavam um amigo-oculto. Esses encontros permitiam criar uma rede de proteção baseada em laços de amizade.

Essas relações foram progressivamente substituindo as relações familiares. O cuidado com o outro era uma preocupação recorrente entre os membros da Turma. Em algumas festas aparecia sempre a figura da mãe observando detalhes que colaboravam para o bom andamento das festas. O principal objetivo dessas “mães” era controlar as bichas, impedindo que ocorressem eventos que pudessem chamar atenção dos vizinhos ou mesmo da polícia. As relações de amizade permitiam repartir experiências de vida, oferecendo um espaço de trocas entre esses homens.

movimento_gay2A Turma OK foi o primeiro grupo gay de que se tem registro na história do Brasil. O grupo foi fundado oficialmente em 1962 no Rio de Janeiro, entrando em funcionamento sob a liderança de Agildo Bezerra Guimarães. No entanto, segundo informa o seu site na Internet, o grupo iniciou seus encontros semanais ou quinzenais já no ano anterior, precisamente em 13 de janeiro de 1961, no apartamento de Antônio Peres, no Edifício Varsóvia.

O nome do grupo, Turma OK, foi sugerido por Nylmar Amazonas Coelho após já haverem se congregado os seus fundadores e a aprovação foi unânime.

Até hoje é considerado um espaço referencial para a comunidade LGBT no Rio de Janeiro. Ao longo de seus 50 anos, trilha uma trajetória de luta e paixão que atravessa o tempo. Passando pelos severos anos da ditadura onde gays eram presos por vadiagem, até os dias de hoje, com seus tradicionais concursos e shows de transformismo e dublagem que resistem ao tempo, é um espaço de sociabilidade e respeito que abrilhanta a cena artística marginal da boemia da Lapa.

O grupo Turma OK continua em plena atividade, sendo uma das organizações de socialização gay mais antigas do Brasil ou, mesmo, de todo o mundo.

Como eles mesmos gostam de se definir:

Não é um grupo de militância gay, não é boate e nem bar gay. É um clube social, estritamente familiar. É uma verdadeira confraria gay.

Caro leitor dos Grisalhos. Espero que este registro histórico ofereça um entendimento sobre esse grupo, ainda pouco lembrado pelos estudiosos das homossexualidades e mesmo pela militância homossexual. Acredito que a trajetória desse grupo oferece pistas elucidativas sobre a história da homossexualidade no Brasil, bem como, sobre o surgimento de uma identidade gay entre os homens que amam homens no Brasil contemporâneo.

Conheça:

Créditos e pesquisa:

  • Textos complementares e de apoio ao mestrado de Thiago Barcelos Soliva – Começo ou fim do arco-íris? Homossexualidade, envelhecimento e sociabilidade na Turma OK.
  • Grupo Somos

Assista a  seguir, o documentário do Grupo Somos e a Avante Filmes, sobre a Turma

Anúncios

Sobre Regis

57 anos de idade, residente na cidade de São Paulo

Publicado em 19/06/2013, em História e marcado como . Adicione o link aos favoritos. 2 Comentários.

  1. Eu morei no Rio de Janeiro a partir de 1960, tendo me formado na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, em Direito, em1963. Confesso que nunca ouvi falar desse grupo Ok. A vida homossexual era muito livre na cidade naquela época e um dos nossos points preferidos era o bar-restaurante LA GONDOLA, onde se reuniam artistas de teatro,intelectuais, boêmios e gourmets em geral, Ele ficava na rua transversal do Hotel Miramar que ligava a Avenida Atlântica à Av. Nossa Senhora de Copacabana. Ali, travestis não tinham vez. Aliás, nunca tive nada a favor nem contra eles. Simplesmente , não me identificava na época (e também hoje) com suas frescuras e valores superficiais. O movimento LGBT tem aliás como característica sua heterogeneidade de posturas e comportamentos.

  2. Nossa que legal, como eu gostaria de conhecer um lugar como este, deve ser muito divertido poder curtir com pessoas da mesma idade, ver shows enfim soltar a franga e viver, adorei a materia parabens.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: