Um poema aos gays

Francis Bacon-Imagem para o PostCaro leitor, depois de duas semanas de férias e sem computador eu voltei, mas me arrependi de ter voltado. A caixa de e-mail estava lotada e me desesperei e decidi sair para a estrada novamente. Amanhã depois de uma rápida visita ao dentista pego os caminhos das Minas Gerais – Circuito das Águas, lá pelos lados de Caxambu e São Lourenço.

No meio de tantos e-mails, uma mensagem me chamou a atenção e fui lá conferir. Um leitor me indicou para publicar um poema de um escritor carioca chamado Nelson Rodrigues de Souza, não o Nelson Rodrigues famoso e nascido no Recife. Os créditos estão no final deste post.

Adieu, voltarei depois do dia vinte de junho.

Onde Está Você?

Onde está você?
Em saunas, bares, boates, ruas, metrôs, ônibus,
Centros culturais, teatros, cinemas, corredores e banheiros de shopping,
Madrugadas de lugares ermos (como o Aterro, o Arpoador),
Salas de bate-papo na Internet, etc…?

Onde está você?
Onde se esconde?
Quando vai me encontrar?
Que longo caminho tenho que percorrer para chegar até você, e você a mim?
Está parado?
Está na mesma busca?
Já tem alguém?
Está contente?
Quer uma nova experiência?
Vai me deixar voltando só à noite, cantando “Ronda”?
(“De noite eu rondo a cidade a te procurar…”)
Vai me deixar cantando “A Noite”?
(“A noite tem deixado seus rancores gravados…”)
Onde está você?
Gosta de mulheres também?
Tem mulher? Tem filhos?
Tem um namorado? Tem amante? Está sozinho?
Será que você vai mudar a minha vida?
Juro que quando lhe encontrar não vai saber das feridas
Que trago de outros amores,
Estarei pronto para você.
“Pode entrar que a casa é sua”
Ou vai me deixar aqui cantando “Eu e a Brisa”?
(“Quem sabe o inesperado faça uma surpresa…”)
Vai me deixar apenas mastigar os alimentos,
Os filmes, as peças, os livros, os CDs, os DVDs…
Apenas ouvindo falar de amores, aventuras,
Prisioneiro de certa pequenez,
Eu aqui pelas noites escuras,
Os dias preenchidos de silêncios e dores sublimadas…
Onde está você?
Por que adora se esconder?
Por que esta voz tão calada?
Por que não quer me conhecer?
A solidão também lhe dói?
Corrói? Destrói?
Ou é daqueles que construíram um mundo só para si,
Sem espaço para mais ninguém,
Sem nunca querer dizer nem “Meu bem”?
Já sei, você passa o tempo vendo tevê…
Eu não!!!
(“Eu não sou audiência para a solidão”)
Onde está você?
Não vê que estou envergonhado segurando as lágrimas?
Não vê que me desespero às vezes?
Não vê que fico assanhado, deixo de lado o recato
E admito em alto e bom som, que não estou feliz sem você?
Será que vou ter de sair por aí gritando, berrando, pra você me ouvir?
(“É impossível ser feliz sozinho..”)
Será que vou ter que me expor em classificados de namoros e encontros,
No manhunt, ursos.com.br, jornais e revistas e que tais?
Não vê que eu já esperei muito?
Não percebe que estou por um triz
Não sente que não aguento mais?
E esta carne que é meu invólucro, é tão perecível?
É o tempo passando (“me comendo feito traça”).
E você aí de pirraça,
Bebendo não sei o que…
Vinho, cerveja, drinques,
Pra ter forças de não se encontrar comigo.
Você que eu não conheço,
Mas sei que existe.
Será que não sabe como é tão triste,
Não ter a certeza de que você vem?
De trem
De avião
De caminhão
Ou outro meio…Invente!

Mas venha!
Meus tranqüilizantes
Já não são mais simpatizantes,
Dos meus receios, das minhas angústias, dos meus anseios.
Será que “dependo da bondade de estranhos”?
Será que não vou perder a paciência com você
E ficar aqui igual, parado?
Desculpe-me, você pode estar como eu, me procurando,
Mas Deus, o destino, a sina, seja lá o que for,
Não quer que nos encontremos.
Está nos sabotando!
Nos castigando!
Por quê?
O que fizemos?
(“Oh Deus será que o Senhor não está vendo isto?”)
Não sei…
Só sei que lhe amo amor…
Espero que me ame também…
Mas ainda não nos conhecemos,
Só sabemos o que queremos.
E eu aqui na saudade
De algo que ainda nem aconteceu,
Mas que de modo algum em mim morreu.
Esta vontade louca de encontrar você.
Saber de você.
Como você é.
Se é como imagino, como sonho.
Ah! Eu sei:
“A realidade é sempre mais ou menos do que nos queremos”
Não posso ter um ideal a encontrar,
Quero você bem real,
Tomando posse de mim,
Sequestrando meu coração,
Mas me doando o seu.
Amor, há muito humor e ironia aqui
Mas saiba que eu também sou um fingidor,
Sofro mais do que suscito,
No fundo calo dentro de mim,
Um profundo grito,
Como o de Munch
E não há nada que o dissolva,
A não ser você.
Onde está você?
Em outro planeta e ainda vai cair na Terra?
Tem olhos de gato?
De tigre?
Onde está você?
Quando nos veremos?
Vai esperar outras encarnações?
Mas se você voltar mulher,
E eu como eu sou…
Não vou gostar do que você vai querer…
E se os místicos todos estiverem equivocados,
E não há nada além do outro lado da porta?
Como estaremos apaixonados no vácuo,
No limbo impalpável da morte?
Assim venha logo amor,
Não me faça mais perguntar “Onde está você?”
Estamos perdendo tempos preciosos.
“O tempo é um carrasco sombrio”,
Afinal, pela última vez?
Terei coragem?
Onde está você?

 Escritor: Nelson Rodrigues de Souza

Engenheiro com especialização em estatística e econometria. Aposentado, tendo feito vários cursos na área cultural.

Rio de Janeiro – RJ – Brasil

Quer saber mais visite o  blog do escritor:

Pela Luz dos meus olhos

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Sobre Regis

57 anos de idade, residente na cidade de São Paulo

Publicado em 10/06/2013, em Internet e marcado como , . Adicione o link aos favoritos. 4 Comentários.

  1. A intenção é boa, mas a poema… Quer ler poesia? Leia Constantin Cavafy.

    O ESPELHO NA ENTRADA

    A casa rica tinha no vestíbulo
    um espelho enorme, imenso, muito antigo,
    comprado há pelo menos oitenta anos.

    Um perfeito rapaz, aprendiz de alfaiate –
    e aos domingos atleta amador –
    chegou com um embrulho. Entregou-o
    a alguém da casa que o levou pra dentro
    por causa do recibo. O mandarete
    ficou sozinho à espera ali na entrada.
    E foi até ao espelho e começou a ver-se
    e a ajeitar a gravata. Uns minutos depois,
    trouxeram-lhe o recibo, e foi-se embora.

    Porém o espelho antigo que já vira,
    nos tantos anos em que fora espelho,
    milhares e milhares de imagens várias,
    ficou contente enfim, cheio de orgulho,
    pois recebera em si, dentro de si,
    inteira, tal beleza, por instantes.

    Obs:. Esse é UM GRANDE POETA GAY.

  2. bonito, mas que pena que a realidade é bem diferente disso.
    como diria o artista criolo: “não existe amor em sp”, aliás, nos dias de hoje, não existe amor em lugar algum. O amor é líquido como disse o sociólogo polonês Zygmunt Bauman.

  3. José Augusto

    Muito bonito e verdadeiro. Me sinto exatamente igual ao eu-lírico!!!!

  4. lindo poema.Existe amor existe sim está em algum lugar.

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