O tropicalismo e a homossexualidade

TROPICALIANeste domingo acontece em São Paulo a Parada Gay e isso me fez refletir sobre onde tudo começou, mais precisamente no Tropicalismo que durou pouco mais de dois anos,  mas que durante os poucos anos enquanto movimento, ele  mudou os rumos da sexualidade e da livre expressão política e cultural no Brasil.

Aos jovens leitores do blog, o Tropicalismo foi um movimento que resultou em uma síntese assistemática de alguns elementos da brasilidade, em sintonia com as manifestações estéticas e culturais do final dos anos 60. A geração tropicalista pode ser considerada aquela estudiosa ou conhecedora do modo de vida em nosso país.

Essa geração entendeu que os participantes de movimentos sociais – sindicais, estudantis, eclesiásticos, ambientalistas, feministas, anti-racistas, homossexuais, entre outros, juntamente com intelectuais e artistas independentes, poderiam se tornar companheiros, na criação de um partido político a partir dessas bases.

Quando se fala em tropicalismo logo nos lembramos de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Mutantes, Gal Costa, Tom Zé, Jorge Mautner, entre outros. Mas as mudanças não foram apenas através da música, inclui-se principalmente, o teatro, a literatura e porque não, a política!

Gilberto Gil foi o responsável pelo desbunde da época do tropicalismo, ele chegou a ser acusado de apologia à homossexualidade nos relatórios do Departamento de Ordem Política e Social – DOPS, durante seu período de exílio em Londres. Isso porque Gil requebrava e se permitia trocar afeto com Caetano Veloso em suas apresentações na Inglaterra.

É óbvio que o movimento tropicalista tinha tudo a ver com a quebra de tabus, inclusive, sexuais. O que rolou aqui no Brasil foi semelhante ao movimento Flower Power americano. Foram os hippies brasileiros que abriram as portas para o entendimento da homossexualidade. Ninguém pensou em fazer o tropicalismo, ele simplesmente aconteceu. Tom Zé disse: “Foi uma visão que fervia no cérebro de seus principais integrantes”.

Um pouco de história:

Em 1967 as transformações sociais eram evidenciadas no mundo e aqui no Brasil os homossexuais entraram em cena misturados à explosão da cultura brasileira onde tudo parecia possível. Os homossexuais não eram o foco do movimento, mas pegaram carona nas transformações em curso.

Em 1968, ano das barricadas estudantis em Paris, dos festivais da Ilha de Wight em Londres e Woodstock em Nova York, da Primavera de Praga, Caetano Veloso, Gilberto Gil e mais um grupo de músicos e cantores lançou o Tropicalismo, movimento que, em sintonia com a contracultura que mobilizava jovens em todo o mundo ocidental, apresentava uma nova postura estética, política e existencial. Influenciados pelo movimento antropofágico de Oswald de Andrade e pela poesia concreta, Caetano, Gil e Torquato Neto, entre outros poetas e compositores, incorporaram à linguagem poética as novidades da indústria cultural, a retórica dos comícios, passeatas e manifestações políticas, as imagens fragmentárias do discurso cinematográfico.

A partir de 1968, com a Instituição do Ato Institucional número 5 – AI-5, as cassações, deportações e prisões recrudesceram, e a censura proibiu a circulação de centenas de filmes, livros, peças teatrais, músicas e até novelas. A imprensa diária, durante anos, sofreu com a censura prévia, que inúmeras vezes impediu a divulgação de notícias políticas, sociais ou culturais sobre o país. Registro aqui que os homossexuais foram perseguidos e também deportados e muitos foram mortos ou sumiram nos porões da ditadura militar.

Foi um período lindo de descobertas e possibilidades individuais e coletivas, em contrapartida foi um período negro marcado por torturas, mortes e exílio.

APTOPIX Gay Pride

Para mim ficou marcado como uma época de mudança de comportamento, a ruptura com o ancestral machismo brasileiro. A extravagância dos cabelos compridos e das roupas coloridas, mais do que uma cópia de um modelo americano hippie, também era uma forma de protesto ao provincianismo brasileiro.

E hoje, mesmo depois dos anos históricos do tropicalismo, a questão comportamental dos gays, a orientação sexual, a identidade de gênero e a androginia ainda não esta totalmente resolvida, mas as conquistas alcançadas são heranças daqueles anos maravilhosos porque o tropicalismo e a homossexualidade estão intrinsecamente unidos por questões históricas.

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Sobre Regis

58 anos de idade, residente na cidade de São Paulo

Publicado em 01/06/2013, em Cultura, História e marcado como , , . Adicione o link aos favoritos. 2 Comentários.

  1. Antonio Moura.

    Parabéns Paulo Azevedo Chaves.

  2. Ainda outro dia li que mais mais de 37% dos brasileiros não aceitariam um filho gay.Para enfrentar essa estatística horrorosa, o sucesso das passeatas gays em São Paulo (um evento sobretudo turístico),não vai contribuir em nada. O que pode contribuir para mudar essa percepção preconceituosa em relação à homossexualidade são mais novelas com personagens gays de bem com a vida nas tramas e mais romances, filmes, peças de teatro, etc em que eles estejam presentes. E também mais presença afirmativa de gays em blogs e nas redes sociais.Sem esquecer gente do show business — como Daniela Mercury — saindo do armário. Quanto a mim , modéstia à parte, faço publicidade constante da homossexualidade através de minha página no FB. Sem falar nos livros em prosa e poesia (7) que publiquei ao longo de minha vida expondo minha intimidade e orientação sexual sem qualquer pudor e sempre com absoluta franqueza.É essa ação afirmativa individual e coletiva que mudará a cabeça das pessoas em diferentes partes do mundo nos anos que virão

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