Arquivo mensal: junho 2013

Um olhar crítico sobre o movimento gay

protesto_cura_gayNa semana passada eu e o meu companheiro saímos à noite para observar a manifestação organizada na Praça Roosevelt no centro de São Paulo, que tinha como foco protestar contra a aprovação do projeto de cura gay, no CDHM – Comissão de Direitos Humanos e Minorias, presidida por Marco Feliciano.

Num determinado momento um repórter se aproximou e me pediu para conceder-lhe uma entrevista. Curioso, eu perguntei porque ele me escolheu e a resposta foi óbvia: “Está difícil encontrar pessoas mais velhas ou idosas neste movimento para colher opiniões”.

Após a breve entrevista e registradas nossas idades, 54 e 67 respectivamente, o repórter agradeceu e se afastou e eu passei a prestar mais atenção as pessoas e percebi que nós éramos únicos, quase invisíveis naquela multidão, composta na totalidade por jovens, Drags, travestis, lésbicas e barbies.

Daquela visão constatei com tristeza de que os gays maduros e idosos continuam invisíveis não apenas para a sociedade, mas para as comunidades homossexuais organizadas e porque não, para nós mesmos, pois chegamos à zona de conforto, própria da idade e das consequências do isolamento social.

Em nosso país os contornos do movimento gay, embora tênues e sem limites precisos, apontam para uma diversidade de subgrupos internos e formas de vida particulares. Essa diversidade pode ser percebida na vida cotidiana, embora não faça parte do discurso mediático. Desse modo, a construção de uma imagem coletiva gay, é marcada pela tentativa de impor limites a essa diversidade de identidades.

Eu percebo o estilo de vida gay, como um espelho da realidade de um grupo homossexual brasileiro, urbano e de classe média.

Nas variadas falas que identifico pelas ruas, nas imagens dos protestos em diversas capitais do país, eu constato uma imagem ideal de homossexual, quer seja, o gay bem resolvido psicologicamente, jovem e assumido publicamente.

Os gays pós-geração 1980, consolidaram a imagem ideal.  Essa idealização cultuada, coloca-se como objetivo a ser alcançado para aqueles homossexuais que, num país tão desigual socialmente, pretendem se ver integrados e socialmente aceitos.

O estilo gay exclui de suas fileiras os “cidadãos de segunda categoria”. Essa exclusão, propiciada por um modo único de viver a sexualidade, está ligada a uma tentativa de uniformizar padrões de comportamento, hábitos e valores que perpassam a comunidade homossexual. Embora o discurso corrente saliente uma diversidade cromática e recrimine o preconceito interno nas comunidades homossexuais, eu percebo que prevalece os padrões estéticos, a juventude e o culto à beleza acima de qualquer coisa.

Também, observei naquela manifestação que o cenário das tribos homossexuais era composto por efeminados, Drags, travestis, lésbicas, jovens bears e boys sarados, mas a figura mais comum era da Barbie, tipo privilegiado no meio gay que é o modelo do ideal, um ícone contra a discriminação e os trejeitos femininos, que os homossexuais precisam alcançar se quiserem ser alçados à condição de cidadão gay, de “novo homem”, requintado e contemporâneo.

Por julgar que os gays, em geral, possuem maior poder aquisitivo que seus pares heterossexuais, já que não possuem filhos, e por acreditar que homossexuais são mais sensíveis e estetas, os movimentos gays excluem justamente, muitos daqueles que eles pretendem guiar em direção ao orgulho e a uma vida digna.

No retorno para casa, eu comentei com o meu companheiro sobre como o momento atual é propício às manifestações de rua e ainda assim, eu não vejo grupos homossexuais organizando protestos nas redes sociais (onde tudo começou), para reivindicar dos governos, a inclusão social para os gays pobres, desempregados e de rua. Ou, os gays idosos e sozinhos organizando-se para reivindicar casas de repouso ou asilos. Talvez, às ONGs com representatividade caberia cobrar programas consistentes sobre DST e AIDS ou mobilizar-se para a aprovação do PLC-122, entre tantas outras coisas. Tudo isso é possível no nível mais específico das nossas necessidades – Veja como a Marcha das Vadias ganhou visibilidade nacional.

Fazer uma manifestação contra um projeto ridículo do deputado federal João Campos do PSDB de Goiás, apelidado de “cura gay” é pouco para milhões de homossexuais paulistanos e brasileiros. Aliás, o próprio João Campos foi um dos nove deputados que ontem votaram a favor da PEC 37.

…o repórter me perguntou: Você é contra a cura gay?

respondi com outra pergunta: Você acredita que alguém deixará de ser gay com tratamento psicológico?

História gay e a Turma OK

movimento_gay1Pouca gente sabe, mas a história dos movimentos sociais, políticos e culturais de homossexuais no Brasil remonta às décadas de 1950-1960. Há poucos estudos acadêmicos ou registros históricos sobre o assunto e durante as minhas férias fui pesquisar para trazer aos leitores do blog um pouco dessa história.

Entre as décadas de 1950 e 1970 algumas “turmas de homossexuais” começaram a surgir no Rio de Janeiro. Um estudo acadêmico realizado em 2010 sobre o jornal O Snob, contabilizou nove Turmas atuantes nos dois primeiros anos de existência daquela publicação (1963-1964). Essas Turmas adotavam, quase sempre, o nome da localidade da qual seus membros faziam parte: Turma do Catete, Turma de Copacabana, Turma da Zona Norte, Turma do Leme, Turma OK, Turma da Glória, Turma de Botafogo e o Grupo Snob.

Esses grupos se reuniam nos apartamentos daqueles membros que abriam as suas portas para receber amigos e outros convidados. Recebiam ainda membros de outras turmas, animando uma agitada vida social baseada em laços de amizade. Eram reuniões informais nas quais conversavam sobre amenidades, trocavam ideias, riam e flertavam. Cada um trazia um prato que era compartilhado por todos os presentes. Essas reuniões aproveitavam-se da intimidade dos apartamentos para controlar a frequência dos membros. Ali todos eram conhecidos, eram amigos, portanto poderiam ser eles mesmos, sem precisar esconder suas preferências sexuais.

As atividades das Turmas não se restringiam apenas às reuniões sociais, mas também a jantares e às esperadas festas temáticas. As festas eram o coroamento máximo dessas reuniões, através desses eventos é que surgiram os concursos de miss gay, espetáculos e outras atividades lúdicas. Foi da popularidade gerada por essas festas temáticas que surgiu a necessidade de se criar um jornal, O Snob, dedicado a divulgar o calendário de festas e outras atividades promovidas por essas Turmas.

A possibilidade de existir como homossexual era um dos principais objetivos perseguidos por esses grupos, diante de uma sociedade com poucos espaços de socialização. Nessas reuniões, ocorria muito mais do que o encontro de indivíduos que se reconheciam em função de suas preferências sociais, ali se aprendia a ser homossexual, assim como, mais tarde, em reuniões semelhantes, aprendeu-se a ser militante homossexual.

Além dessas atividades, as Turmas ocupavam papel semelhante àquele desempenhado pela família. Os homossexuais predominantemente masculinos se reuniam também em datas comemorativas como o Natal e o Ano Novo. Muitos moravam sozinhos e estavam longe de suas famílias biológicas, que se encontrava em outros estados ou moravam em bairros diferentes daqueles em que os familiares residiam. As reuniões natalinas concentravam um grande número de pessoas, cada qual trazia um prato de comida e realizavam um amigo-oculto. Esses encontros permitiam criar uma rede de proteção baseada em laços de amizade.

Essas relações foram progressivamente substituindo as relações familiares. O cuidado com o outro era uma preocupação recorrente entre os membros da Turma. Em algumas festas aparecia sempre a figura da mãe observando detalhes que colaboravam para o bom andamento das festas. O principal objetivo dessas “mães” era controlar as bichas, impedindo que ocorressem eventos que pudessem chamar atenção dos vizinhos ou mesmo da polícia. As relações de amizade permitiam repartir experiências de vida, oferecendo um espaço de trocas entre esses homens.

movimento_gay2A Turma OK foi o primeiro grupo gay de que se tem registro na história do Brasil. O grupo foi fundado oficialmente em 1962 no Rio de Janeiro, entrando em funcionamento sob a liderança de Agildo Bezerra Guimarães. No entanto, segundo informa o seu site na Internet, o grupo iniciou seus encontros semanais ou quinzenais já no ano anterior, precisamente em 13 de janeiro de 1961, no apartamento de Antônio Peres, no Edifício Varsóvia.

O nome do grupo, Turma OK, foi sugerido por Nylmar Amazonas Coelho após já haverem se congregado os seus fundadores e a aprovação foi unânime.

Até hoje é considerado um espaço referencial para a comunidade LGBT no Rio de Janeiro. Ao longo de seus 50 anos, trilha uma trajetória de luta e paixão que atravessa o tempo. Passando pelos severos anos da ditadura onde gays eram presos por vadiagem, até os dias de hoje, com seus tradicionais concursos e shows de transformismo e dublagem que resistem ao tempo, é um espaço de sociabilidade e respeito que abrilhanta a cena artística marginal da boemia da Lapa.

O grupo Turma OK continua em plena atividade, sendo uma das organizações de socialização gay mais antigas do Brasil ou, mesmo, de todo o mundo.

Como eles mesmos gostam de se definir:

Não é um grupo de militância gay, não é boate e nem bar gay. É um clube social, estritamente familiar. É uma verdadeira confraria gay.

Caro leitor dos Grisalhos. Espero que este registro histórico ofereça um entendimento sobre esse grupo, ainda pouco lembrado pelos estudiosos das homossexualidades e mesmo pela militância homossexual. Acredito que a trajetória desse grupo oferece pistas elucidativas sobre a história da homossexualidade no Brasil, bem como, sobre o surgimento de uma identidade gay entre os homens que amam homens no Brasil contemporâneo.

Conheça:

Créditos e pesquisa:

  • Textos complementares e de apoio ao mestrado de Thiago Barcelos Soliva – Começo ou fim do arco-íris? Homossexualidade, envelhecimento e sociabilidade na Turma OK.
  • Grupo Somos

Assista a  seguir, o documentário do Grupo Somos e a Avante Filmes, sobre a Turma

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