Não é fácil ser gay

feliz_gayEu já perdi a conta de quantas vezes durante a minha vida eu disse: Não é fácil ser gay.

Realmente não é fácil, aliás, não é fácil pertencer às minorias. A minoria gay é composta por gente de todas as profissões. Jogador de futebol, ator, cantor, padre, político, executivo, caminhoneiro, faxineiro, etc.

Os problemas dos gays são iguais em qualquer lugar do mundo ou você pensa que não existe homofobia ou violência física e psicológica contra os gays na Holanda que é considerado o país mais evoluído do mundo quanto à liberdade de opção sexual?

Partindo de uma visão macro de minoria, ela está no mundo inteiro. No cenário mundial existe uma variedade de culturas, raças e religiões e dentro de cada cenário a questão da homossexualidade é tratada de formas diferentes. Algumas mais evoluídas e outras ainda vivendo na idade da pedra.

No Brasil nossa realidade ainda está longe do ideal. A homossexualidade ainda tem peso negativo na sociedade e ainda não podemos dizer que ser gay é uma coisa normal. Aqui desde a juventude até a velhice não é nada fácil nascer homossexual, sim porque não é uma escolha. Você que está lendo este post tem suas razões, algumas coletivas outras pessoais para saber que realmente não é nada fácil viver desta maneira.

nao_facil_ser_gay4Quem, em sã consciência, escolheria viver de forma diferente da maioria, ter desejos diferentes, ser apontado como aberração e sofrer preconceitos e discriminações? Apesar de vivermos no século XXI e as novas gerações, pouco a pouco, trabalharem melhor a questão da homossexualidade não é fácil ser diferente. Não é, nunca foi e nunca será. Então, não é de se estranhar os gays que escolhem viver no armário, negando a si mesmos e assumindo identidade heterossexual em prol de aceitação da sociedade. Aqueles que assumiram dizem que tiraram um peso das costas e que a vida ficou diferente, será? Pois mesmo assumindo a homossexualidade continua pertencendo à minoria.

“O tempo é algo que não volta atrás, portanto, plante o seu jardim e decore a sua alma, ao invés de esperar que alguém lhe mande flores” – William Shakespeare.

Não é fácil ser gay quando os seus familiares te mandam embora de casa com a vergonha da homossexualidade – não é fácil, fica até difícil mandar flores para si mesmo.

Um jovem me escreveu o seguinte: Sou homossexual e pago os dízimos da vida por isso, mas creio que um dia, muito em breve, essa luta acabará. Pode ser que sim, mas vai depender de muita coisa no decorrer da vida ou poderá acabar apenas com a morte, vai saber.

Existem situações de sofrimentos físicos. Muitos gays apanharam e ainda apanham do pai e dos irmãos para aprender a ser homem. Foram levados à beira da loucura para aprender a ser macho. Foram castigados, violentados, massacrados e somente foram libertados da violência física quando saíram de casa. Passarão anos e esquecerão aqueles que os maltrataram, porém não esquecerão os maus-tratos.

Os gays sofrem muita opressão dentro de casa e em todos os seguimentos da sociedade. Morrem de medo de se permitirem ser eles mesmos.
Homens com desejos pelo mesmo sexo vivendo relações heterossexuais por obrigação? Sim, isso tem de montão, porque é mais fácil pertencer à maioria heterossexual.

Não é fácil ser gay porque a angustia da espera do momento certo para abrir o jogo com a família, parente ou amigos dura uma eternidade. É óbvio que vai chegar uma hora que a vida vai te colocar contra a parede – É o que eu chamo de “beco da vida”, rua sem saída.

Na minha família não tem veado, caso tenha algum eu mato, coloco na rua, esfolo o rabo dele até aprender a ser macho! – Esse tipo de situação é comum nos lares brasileiros.

Deus é a salvação, homossexualismo (sic) a perdição! Aleluia irmão! – Frase pobre e até cômica, comum nos ambientes evangélicos.

nao_facil_ser_gay1

Não é fácil ser homossexual quando a religião entra no processo de discriminação e estigma contra os gays. Seguindo e reforçando o processo de estigmatização que marca os homens que fazem sexo com homens de forma negativa, as igrejas fundamentalistas veem os gays que sentem prazer homoerótico como sendo pessoas marginais, imorais, pervertidas, criminosas, pecadoras e demoníacas.

Mesmo não sendo nada fácil, os gays tem sentimentos e imaginações, o que lhes faz sonhar. Os sonhos surgem e se desvanecem rapidamente, pois a expectativa por uma real mudança na cultura sexual brasileira é muito baixa. Eu espero mudanças há 40 anos, mas os problemas são os mesmos dos jovens de hoje, só mudou o cenário.

Nossas fantasias, entretanto estão marcadas pelo desejo por uma forma de sexualidade que nós é proibida. Mais que isso, estão marcadas pela estigmatização e pela exclusão, pela opressão sexual e pelo medo. Igualzinho aos tempos da minha juventude.

Aqui um relato de um leitor do blog que se tornou michê depois de ser expulso de casa:

Hoje, ontem, amanhã, eu vou sempre aos mesmos locais à procura de sexo. Não é fácil falar “não” para caras que pagam por um boquete, um sexo chulo, no meio do parque, num hotel barato ou numa escada de um prédio no centro da cidade. Já fiz mais do que você possa imaginar na vida. Tudo ou, bem dizendo, quase tudo. Não tenho escolha: é dar ou descer. Volto para onde eu moro sempre muito vazio, sem amanhã, sem destino. Muitas vezes penso que quero morrer cedo ou encontrar o prazer de viver com alguém ao meu lado, me protegendo.

Esse relato mostra a falta de carinho e amor dentro do lar e os gays buscam nos seus pares o afeto perdido.

Um psicólogo me disse: da depressão para o suicídio, o passo é muito pequeno. Isso vale para todas as idades e os jovens gays e idosos estão mais propensos a atos dessa natureza porque não aguentam enfrentar suas situações. Aliás, elas são semelhantes em todos os aspectos.

Mas nem tudo é descaminho. Os gays sempre conseguem reconstruir seus mundos, constroem escudos invisíveis para protegê-los do mundo exterior. São exemplos que podem dar luz às mudanças coletivas para a minoria gay: Um futuro onde o direito à livre escolha da orientação sexual prevaleça.

Na minha juventude eu não tinha vez e nem voz. Não tinha encontro de pares, grupos de apoio, mobilização coletiva, campanhas na mídia, protestos nas redes sociais, projetos na câmara dos deputados ou direitos civis e ainda assim percebo que ser gay em 2013 não é nada fácil para a maioria dos gays brasileiros.

Mas como eu sou otimista, assim como a Lygia, também, acredito que no futuro será mais fácil ser gay!

Lygia-Fagundes-Telles_gay

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Sobre Regis

57 anos de idade, residente na cidade de São Paulo

Publicado em 10/05/2013, em Sexualidade, Sociedade e marcado como , . Adicione o link aos favoritos. 11 Comentários.

  1. Não é fácil ser humano, penso. O post e os comentários são muito interessantes. Houve tempo em que esta questão era o meu maior peso. Nunca gostei de hipocrisia e não tenho a menor vocação para vida dupla. Quando cheguei no meu limite, conversei com minha família. Morri de medo. Mas fui completamente aceito, embora todo o cenário conspirasse contra: pais nordestinos e semi-alfabetizados, etc. Depois disso, passei a andar de cabeça erguida e quem quiser gostar de mim, terá de gostar como sou. Também não sofri preconceitos na vida profissional ou social. Curiosamente recebi 2 comentários negativos de 2 amigos gays: um disse que meus pais “não mereciam isso” (saberem que sou gay) e outro disse que eu saí do armário e coloquei minha família inteira dentro dele.

  2. olá… amigos tudo bem?
    A pauta em questão: Não é fácil ser gay?
    resposta: com certeza não é fácil ser gay.

    Empatia= é a capacidade de se colocar no lugar do outro.
    Será que é fácil ser hetero? provavelmente não
    Será que é fácil a vida dos transgêneros? A variedade é grande:
    -trans-homem: ex: João W. Nery é um senhor, de barba, bofe mas nasceu (genitália feminina)
    -trans-mulher:ex: Laerte Coutinho (cartunista), casado com mulher, pai de família, em que
    em sua imagem corporal sente-se Sonia, tem pinto e gosta de mulher.

    -trans-lésbica: genitália masculina ou feminina(quando operada), endumentária feminina e
    atração pelo sexo feminino. trabalham profissões relevantes e masculinas. Sofreram muito
    para serem respeitadas….

    -travesti: acho acho todo mundo sabe o ke é.

    Pergunta: Será ke é fácil para eles?
    Quem sofre mais ou quem sofre menos?

    Onde existir a espécie humana existirá nossa mania de sofrer
    O “PROBLEMA” é cronificar o sofrimento em nossas vidas……
    e com isso, a vida vai vc só fika no ensaio
    e a estréia não acontece nunca.

    Obs: pra quem tiver interesse tem entrevistas dessas pessoas na Marilia Gabriela,Jo soares,
    no programa do Abujamra(provocações) etc…..

    thinking about this.

    • Vendo por esse lado, realmente eu concluo que estou reclamando de “barriga cheia” e que não sofro nada em comparação a esses exemplos citados. Na real, creio que só tenho a agradecer;;; 🙂
      Tks!

  3. Acho que o mais difícil para a sociedade é aceitar o gay efeminado. Nunca tive grandes problemas com minha condição de homossexual, porém porque tenho um comportamento discreto, embora todos saibam. Acho que a palavra “gay” está profundamente relacionada ao estereótipo do sujeito afetado, feminino e fútil. Confesso que até me irrito diante dos meus pares quando são afetados, imagine um homofóbico.

  4. Um texto muito melancólico e pessimista. Prefiro acreditar como a escritora L.Fagundes Teles que o século XXI é o século dos gays.E também acho que diminuiu muito o número de famílias homofóbicas nos grandes centros urbanos.O casamento igualitário é algo que está chegando aos poucos. Mas devagar se vai ao longe.

    • Paulo

      Também penso como a Lígia, mas ela se referiu ao século 22, pois o século 21 será de mudanças em todos os seguimentos sociais.
      abraços
      Regis

  5. Eu já me revoltei, já xinguei, já chorei, já blasfemei…enfim tive que engolir e aceitar a minha condição de gay. Não é, e, não foi fácil. Acho que agente vai ficando mais velho e parece que as forças vão se acabando, dai se chega à conclusão que não adianta mais se debater. Nadar contra a corrente. Que não há saída. É por isso que os pastores evangélicos se valem em dizer que tem muito homossexual que quer deixar de ser gay. Mas é claro! é um forma desesperada de não sofrer todo esse peso de ser gay, numa sociedade que esses próprios pastores criaram, fazendo com que cada gay se sinta culpado, sujo, excluído etc… Se eles, ao contrário pregasse apenas o amor ao próximo, eu creio que não haveria mais homossexual que quisesse reverter sua orientação.
    Às vezes eu paro pra pensar e imagino todas essas pessoas que criticam e apontam o dedo para o gay… Se eles fosse gays, eu aposto que esse discurso mudaria…

  6. Ótimo texto. Porém, não acredito que as coisas vão melhorar, 513 anos de Brasil, e muita coisa ainda continua estática, não vejo muita esperança para a diminuição do preconceito, enfim…

    Ser gay não é fácil mesmo, aliás, é extremamente complicado. No meu caso, acho um pouco mais, já que só sinto atração por coroas. A sociedade já tolhe por você gostar de pessoas de mais idade, e ,ainda, sendo gay e gostando de gays coroas, praticamente um marginal social.

    Não sei se vivo totalmente no armário, pois, apesar dos pesares, aceito minha homossexualidade, e contei para alguns poucos amigos que sou. Família não sabe, tenho vontade de contar, porém, ainda não é a hora – e nem sei se um dia essa hora chegará.
    Entretanto, essa aceitação não é nada fácil, somente com 24 anos (hoje, 27) entrei nesse processo. Infância e adolescência foram dolorosas demais. Não foram as poucas vezes que desejei morrer por conta disso. Alguns ranços (pessimismo e baixa-estima) impregnaram-se em minha pessoa, sendo difícil de esfacelá-los, tento sublimá-los, creio eu.
    O suicídio nunca tentei, mas sempre passou pela cabeça, talvez como uma forma de reconforto. Este ainda passa, mas com menos intensidade. Não que eu vá ou não vá fazer, todavia, o acho legítimo, se a pessoa não dá conta de estar materializada aqui, por que sofrer então?

    Assim, vou levando a vida. Quando perguntam-me e ai tudo bem? Não consigo responder tudo bem, sempre uma resposta fel do tipo: indo, levando, tocando…

    A vida é dura; pelo menos, sempre tive ciência de tal condição e sabia que uma hora iria sentir na pele tal dureza.

    • Realmente um ótimo texto. Caramba!!!! F. Parece até que foi eu que escrevi este comentário, exceto a parte do desejo de morrer e pensamento em suicídio, mas força tenho 24 anos e também ainda não consegui contar à minha família, somente para meu irmão, que na realidade ele me perguntou se eu era gay e eu respondi que sim, ele me abraçou disse algumas coisas entre elas q ele achava normal eu ser assim…… mas ele meu irmao, dentre todos da minha familia é um dos q tinha mais medo de rejeiçao e ele me aceitou numa boa. por isso acredito q as coisas vao melhorar……..abraços

  7. Espero que seja verdade, mas isso ainda ta longe

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