Gay idoso – Vida de aposentado

aposentado_gay_rjFlávio Gikovate escreveu hoje no seu twitter: “Muitos dos que se aposentam passam por um longo período depressivo: não se sentem mais úteis, ninguém os procura e não sabem como se ocupar”.

O que o Flávio escreveu é a realidade para a maioria dos aposentados brasileiros que não se prepararam para a aposentadoria, bem como, sofrem discriminação social por estarem “desocupados” e ficam desnorteados sem saber o que fazer. Imagine então a situação dos aposentados homossexuais?

Os gays são profissionais como qualquer bissexual ou heterossexual, portanto, na aposentadoria deve-se decidir se vai ou não continuar trabalhando. Se parar, a diferença está na condição familiar dos homossexuais, pois eles não têm esposa, filhos e netos. A maioria estará, invariavelmente, sozinha.

O longo período depressivo citado pelo Gikovate ocorre quando você para de trabalhar e não planeja a parada e aí fica um vazio, se sente inútil, as pessoas desaparecem mesmo! O aposentado estava acostumado com a vida agitada do mercado de trabalho, o corre-corre diário, uma remuneração mensal maior do que os proventos da aposentadoria e de repente tudo muda – É um novo começo! O mais difícil é reaprender a se ocupar.

Eu já escrevi dois posts sobre o assunto. Um em 2009:  Gays Maduros – Planejando a aposentadoria e outro em janeiro deste ano – Reflexões de um gay maduro sobre a aposentadoria. Em ambos, eu fui e sou otimista, porque não é fácil ser aposentado, homossexual e idoso num país como o Brasil. Você precisa acreditar e fazer diferente para não ser mais um ser invisível na multidão.

Francamente, a vida de aposentado não é fácil, mas não é o fim do mundo, não é mesmo Jorge?

Eu conheci esta história via e-mail. Jorge têm 62 anos, se aposentou em 2010, após 35 anos de trabalho e mora no Rio de Janeiro. A cidade é o cenário ideal para os aposentados, principalmente, na zona sul e praias. Naquela cidade parece que todo dia é feriado.

Ele me disse que procura se ocupar durante o dia e que o pior é à noite quando bate a solidão. Então, ele vai pra frente do computador e busca parceiros virtuais para masturbação. Satisfeito liga a TV e fica deitado esperando o sono chegar. Jorge dorme por volta das 23h e levanta depois da 7h.

Essa rotina ocorre de segunda a sexta-feira e nos finais de semana, ele faz algumas coisas diferentes; encontra um ou outro amigo e sai para outros programas. Pelo meu relato, o leitor já percebeu que o Jorge não tem marido e mora sozinho.

Uma vez eu ouvi um cara dizer que solidão é “estado de espírito” e que a solidão física é uma “prisão para qualquer ser humano”. A chave para abrir a prisão física é não sentir-se sozinho espiritualmente.

Ao responder o e-mail do Jorge eu escrevi algumas coisas . Parecem banalidades, mas são as coisas mais simples do cotidiano.

  • Criar um calendário dos dias da semana, planejar e fazer cumprir o que escreveu;
  • Fazer planejamento para o médio prazo; seis meses, um ano – para viagens;
  • Existem tantas coisas para fazer que eu não acredito que a sua vida é só isso;
    • Cozinhar e aprender a se virar sozinho com a alimentação; tem gente que come fora todos os dias;
    • Lavar e passar roupas, porque não? Pelo menos, levar e buscar roupas na lavanderia;
    • Limpar a casa ou apartamento – não precisa fazer o trabalho mais pesado; tem casa de aposentado sozinho que o cenário é poeira para todos os lados;
    • Cuidar de animais e plantas e dedicar um tempo pra isso; Plantar, podar, limpar, dar comida e água;
    • Sair e paquerar, conversar com pessoas e criar vínculos;
    • Fazer trabalho social ou voluntário, visitar hospitais, creches e asilos;
    • Cinema, teatro, museus, igrejas, praças públicas, calçadão da praia;
    • Leitura, música, cursos, Internet, compras;
    • Praticar esportes: caminhadas, academia, andar de bicicleta;
    • O Rio de Janeiro tem tanta coisa para visitar e conhecer que não dá para destacar aqui;
    • Viajar pelo menos uma vez a cada dois meses, para outras localidades, longe ou perto; sair do lugar comum; hotéis, pousadas, casa de familiares distantes, amigos;
    • Socializar: tomar um Chopp no bar da esquina ou num local de frequência de homossexuais;
    • Sexo casual, nada melhor do que sauna ou boate e fuja do sexo virtual que te aprisiona e vicia.
    • E o principal: não ter medo do que as pessoas vão pensar ou falar sobre a sua diversidade sexual;

Jorge você merece um palavrão – PQP. Será que a depressão deixou você cego e sem perspectivas de vida? Outro aposentado me disse: depois que a gente aposenta dá uma preguiça de fazer as coisas – Comodismo? Ferrugem? Entregar os pontos? Fim da linha? Que merda!

Como disse Raul Seixas: …com a boca escancarada e cheia de dentes, esperando a morte chegar?

Tá faltando um parceiro na sua vida? Se você quer uma relação estável, a hora é essa. Você tem todo o tempo livre para se relacionar com pessoas. Não precisa ser marido, pode ser companheiro ou uma pessoa com afinidades.

Se você tem carro, você tem mobilidade, senão vai de ônibus mesmo e observe a cidade linda e maravilhosa onde você mora.

Quem está fora tem outra visão porque vê o todo, mas eu posso me tornar você amanhã e para que isso não aconteça, eu preciso quebrar barreiras e fazer tudo aquilo que eu sempre quis e nunca tive tempo, porque vivi mais de trinta e cinco anos da minha vida para o trabalho – Trabalhar foi bom, mas o ciclo da vida de aposentado é outro – Você é o senhor do seu tempo! Aproveite, logo as doenças vão aparecer e ai você terá outros problemas.

Acho que vou parar por aqui. Isso tá ficando imenso e nem sou psicólogo ou home care de aposentado. Da próxima vez eu mando para você a fatura dos serviços prestados – abraços.

Caro leitor, vida de aposentado gay é isso mesmo? Quais outras dicas podemos deixar para o Jorge?

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Sobre Regis

57 anos de idade, residente na cidade de São Paulo

Publicado em 16/04/2013, em Mercado de trabalho, Qualidade de Vida e marcado como . Adicione o link aos favoritos. 7 Comentários.

  1. Amigos,
    Eu completei 40 anos agora em Maio e meu companheiro tem 67 anos. Nos amamos muito e faço o impossível para que ele não se sinta sozinho. Ainda não moramos juntos, mas sempre passo na casa dele pra dar um beijinho pra que ele se sinta bem. Ultimamente ele anda sem muita vontade de sair, prefere ficar em casa. Durante muito tempo eu não compreendia isso, mas agora eu entendo que ele está numa fase mais quieta e tenho tentado me adequar a essa nova realidade, é difícil mas quando a gente ama, tem que saber entender.

    • Marcelo, na vida aves mudaram alguns hábitos e adequamos outros, só pra ficar próximo de quem ama; cuida do seu companheiro, na idade que ele esta merece uma pessoa igual a você: educado e compressível. Sejam felizes! Abraços…

  2. Estou nessa de ostracismo. Sou aposentado gay e procuro uma pessoa amiga para trocar ideias e até, quem sabe, sermos mutuamente carinhosos.Isso faz uma falta danada. As vezes saio decidido a me relacionar com outras pessoas e fazer amigos, só que na hora H , me retraio e tudo acaba em nada. Volto pra casa murcho e com um sentimento de covardia enorme. Contra tudo isso ainda tem a minha preferência ´por coroas acima de 60 anos o que não é normal já que a maioria dos maduros nesta faixa etária preferem garotos para se relacionarem. Sinceramente, para ser bem vulgar; estou fud……………

  3. Eu diria ao Jorge:
    meu, a hora que você precisar de uma mão amiga olhe para o final do teu braço que você encontra uma.
    Você tá acamado? está em estado terminal? O Rio de Gayneiro é o paraíso. friendly é um
    paraíso paradisíaco neste aspecto GLS. tem tanto lugar pra ir……….
    Tem dias que a gente não tá bem, mas no geral não. Uma casa tem sempre coisas para fazer esse tipo de serviço não tem fim.
    lavar paredes cansa o corpo e relaxa a mente.
    Você se abandonou.
    Solução: se o treko persistir procure um profissional da saúde e faça um check-up total,
    hoje existem pilulas da felicidade associadas a terapia, mas este milagre pode ocorrer desde que você queira.
    mermão tu tá chorando de barriga cheia mano…..

  4. Para quem é escritor ou artista, não existe aposentadoria. A maior disponibilidade de tempo após a aposentadoria do emprego formal é materia prima muito util para o escritor e /ou artista.Quanto ao aposentado gay, é preciso ter cuidado com os michês de plantão e de olho em seu pouco ou muito dinheiro. Mas sem por isso perder a fé de que um amor ainda é possivel.

  1. Pingback: https://grisalhos.wordpress.com/ | EVS NOTÍCIAS

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