Recortes da cena gay paulistana de 1980

recortes_cena_gay_paulistanaHoje acordei com o saudosismo à flor da pele. Dentro do carro, no caminho do trabalho eu observava o dia ensolarado, típico de outono e por breve momento me transportei ao passado,  ao ano de 1980.

Naquele ano acontecia no mundo as Olimpíadas de Moscou; em setembro foi publicado o padrão Ethernet, tecnologia de rede, que hoje conhecemos como Internet. Nascia o PT – Partido dos Trabalhadores e nos cinemas o sucesso era Guerra nas Estrelas – O império contra ataca. Madonna era desconhecida e Michael Jackson estava no ostracismo e sacudiria o mundo apenas dois anos depois, com o álbum Thriller.

Eu, jovem homossexual residente na periferia de São Paulo, recém-saído do exército, ainda não sabia qual carreira seguir. Aos vinte e um anos de idade, eu vivia uma relação complicada com um Italiano nascido em Padova e não tinha a mínima ideia o que eram: cena gay ou movimentos homossexuais.

Pois é, passados exatos trinta e três anos, no dia 06 de abril de 1980, aconteceu o primeiro Encontro Brasileiro de Grupos Homossexuais Organizados, reunindo jovens representantes de todo Brasil no Centro Acadêmico da Faculdade de Medicina da USP – Universidade de São Paulo.

No decorrer daquele encontro debateram vários temas, o que fez com que seu objetivo não fosse alcançado, pois o que pensavam ser um espaço para trocas de experiências e solidariedade transformou-se num lugar de competição, rivalidade e busca pelo poder, o que fez com que começasse a vir abaixo a procura de um espaço próprio para o movimento homossexual, que parecia correr o risco de ver seus objetivos diluídos.

João Silvério Trevisan, um dos precursores dos movimentos homossexuais no Brasil escreveu:

“Percebe-se que a própria comunidade homossexual se torna facilmente refém de suas lideranças, que galgam as escadas do poder a qualquer custo, inclusive mentindo, manipulando, se digladiando e puxando o tapete uns dos outros, principalmente dentro do movimento”.

Indiferente aos acontecimentos políticos daquele ano, o meu cotidiano era colorido e naquela época a cena gay e underground paulistana já fazia barulho. Bandas como Jardim das Delícias e Truque Sujo onde participou a multiartista Claudia Wonder, faziam razoável sucesso na noite.  Os points e bares de ferveção dos entendidos convergiam na região da Rua Vieira de Carvalho e Largo do Arouche, no centro histórico e lá pelos lados da Avenida Paulista as boates, Medieval e NostroMondo faziam sucesso com os shows de Miss Biá.

Naquele ano, nos interiores da sauna Four Friends, durante o dia, na esquina das avenidas Ipiranga e São João, à noite, e no salão enfumaçado da boate Medieval, ao longo da madrugada, eram devoradas as páginas do jornal mensal Entender – e, sobretudo a prestigiada Coluna do Meio, que o jornalista Celso Curi assinava ininterruptamente na Última Hora paulista.

Nos finais de semana eu saia para ver os espetáculos protagonizados por travestis ou pelo que se chamava então de transformistas. Recordo-me da travesti Condessa Monica uma figura quase maternal para uma comunidade gay que começava a se sentir mais confiante – Condessa morreu vitima da AIDS na segunda metade daquela década.

E que fim levou o produtor Darby Daniel? Se ainda estiver nesta terra deve ter mais de setenta anos.

Lembro-me de uma noite de maio no Teatro Lira Paulistana, outro local underground da cidade. Palco de Arrigo Barnabé, Itamar Assunção e Eliete Negreiros – Numa parede lateral e externa ao teatro dois homens se beijavam e se pegavam loucamente. Senti-me o próprio diabo atiçando aquele casal para que cometessem o PECADO homossexual, ao vivo e em cores fortes.

A São Paulo de 1980 era odiada por artistas e intelectuais não residentes na cidade, mas o que era diferente, o estranho,  o fora do lugar das minorias gays, começou desde aquele ano a ditar comportamentos para o Brasil.

Atualmente a noite gay acabou e a cena perdeu o glamour, mas percebo a minha cidade como acolhedora dos gays de todos os locais do Brasil, que convivem com demandas políticas e projetos de vida, contempladas em conjugalidade e parentalidade homossexuais, que se tornaram bandeiras do movimento LGBT.

No presente, a cena gay paulistana estampa as marcas da visibilidade e da inclusão, com a expansão e diversificação das expressões identitárias amparadas pela difusão do mercado Mundo Mix segmentado e voltado à homossexualidade e pelo modelo de ativismo bem-sucedido e consagrado na Parada do Orgulho Gay.

Como diz um amigo: Quem vive de passado é museu, mas reverenciar o passado e a história é sábio – Aqui registro mais alguns recortes da história homossexual de São Paulo.

Leia também:

# Um olhar retrô sobre a cena gay paulistana

# O principio do movimento gay no Brasil

# Lampião da Esquina – acervo digitalizado

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Sobre Regis

57 anos de idade, residente na cidade de São Paulo

Publicado em 12/04/2013, em Contos da cidade, Memória, Sociedade e marcado como , . Adicione o link aos favoritos. 3 Comentários.

  1. eu não posso falar com propriedade dos ano 80 porque era muito jovem,foi o auge das
    novelas como dancyns days, da sonia braga o lenny dale, lebram?, as meninas usava
    uma meias coloridas com brilho, já no meio do anos 80 muitas bandas se lançaram, era
    o término da ditadura militar, do ernesto geisel, as coisas valores, a repressão ainda ke
    continuava de uma forma velada, o cazuza é desse tempo, kid abelha, leo jayme, gretchen,
    o cassino do chacrinha…..È isso gente ? ou não
    Pra quem tiver interesse sobre os anos 80 tem um filme nacional novela das 8. Av ida é ficcção
    filme de odilon rocha, claudia ohana, janessa giacomo, mateus solano ( um diplomata gay) muito legal a estória não foi uma época fácil linda e glória como muitos pensam, aids a
    peste gay, igreja, valores morais, o futuro era fazer uma faculdade, bem complicado mesmo.

  2. José Augusto Heeren

    Tenho acompanhado com muito prazer o blog e gostaria de deixar um obrigado pelos textos sensíveis que representam tão bem a realidade daqueles que já estão grisalhos…em seu texto senti falta do jornal Lampião da Esquina que sem sombra de dúvida ajudou muitos de nós a construir uma identidade mais positiva. O periódico acompanhou em várias edições o caso de Celso Curi, Saudades de seus textos maravilhosos, inteligentes e irônicos…

    • José Augusto

      Em 2010 publiquei um post sobre o Lampião da Esquina.
      Veja: Lampião da Esquina
      Também, lado direito da página do blog tem um link chamado Grupo Dignidade. Clique ali e você será direcionado para todas as edições do Lampião da Esquina digitalizados e preservados

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