Os gays cuidadores de pais idosos

pai_gay_idosoAtualmente muito se fala sobre casamento gay, união homoafetiva, e nessa onda eu sempre brinco com o meu companheiro sobre família homoerótica e ele dá muitas risadas porque a forma como eu falo do assunto e talvez o meu jeito de transmitir a ideia tem um tom ingênuo e hilário.

A família tradicional sempre foi um assunto dolorido de se falar e para um gay de meia idade como eu, isso já ficou no passado. Vida familiar e os pais estão sempre na contramão dos anseios dos homossexuais, mas quantos gays jovens, maduros ou idosos não sentem a responsabilidade de cuidar dos seus pais?

Luiz Alberto é um velho conhecido e numa conversa me confidenciou que a sua sina sempre foi cuidar dos pais mesmo tendo três irmãos.

Desde cedo ele não escondeu sua condição de homossexual e saiu de casa para viver a sua vida. Descendente de família tradicional italiana do bairro da Mooca, o seu afastamento familiar aconteceu com muitas brigas e muitos traumas. Nos finais de semana Luiz sempre fazia uma visita para rever a família, mas os pais e irmãos recusavam-se a recebê-lo naquele período. Conforme os pais envelheceram e necessitaram de atenção e cuidados especiais, de comum acordo a família se mostrou aberta a rever o rechaço do passado e a voltar a recebê-lo no seio da família, até que ele se tornou a pessoa “escolhida” como cuidador dos pais. Assim foi até o falecimento da mãe em 1990 e do pai em 1995.

Hoje Luiz tem sessenta e quatro anos e vive sozinho num apartamento na região central da cidade de São Paulo e têm poucos amigos, um deles é o Jorge que viveu e vive uma situação semelhante.

Jorge sempre foi o responsável pelo cuidado de seus pais idosos o que ocorria também com outros parentes velhos próximos. Embora em menor escala, o mesmo ocorria em relação a seus amigos homossexuais mais íntimos, assim como dois de seus ex-companheiros ou mesmo do atual companheiro, quando da ocasião de uma doença crônica devido ao envelhecimento avançado. Jorge sempre gostou de homens idosos e acima dos setenta anos.

O gay masculino está destinado a ser cuidador de pessoas idosas?

Oswaldo, outro amigo da turma diz que sim, porque o homossexual não constitui família, tem renda mensal superior à média dos parentes e é o estepe da família original. Esta situação é frequente no meio gay. Os homossexuais são sensíveis e carentes de afeto e na falta de carinho transferem para os pais idosos, irmãos, parentes e amigos os cuidados que os heterossexuais não fazem questão de assumir.

Francisco, outro amigo do grupo, também não foge à regra. Depois dos sessenta anos de idade, a família quase toda já se foi e os pais já faleceram. Sua narrativa é surpreendente:

pai_gay_idoso1Não tenho mais que dar satisfação pra ninguém. A gente faz então o que quer mesmo. Eu sou filho único, então a pressão era maior. Fiquei noivo por oito anos, você acredita? Enrolando a coitada da noiva, mas ela meio que sabia da minha orientação sexual. Nós homossexuais temos uma lacuna enorme de pai e sobra de mãe, e possessivas, dominadoras mesmo.

Até você destruir isso tudo dentro de você não é fácil. Às vezes a morte dos pais ou parentes é um alívio para os homossexuais. É a liberdade definitiva. Para muitos isso é chocante e mórbido, mas é a realidade.

Quando descobri isso lutei pra chegar mais rápido à tona, tirar esse ranço todo. Minha mãe já é falecida, meu pai também. Nos últimos dois anos da vida dela resgatamos nosso encontro na vida. Meu pai sempre foi calado, omisso e ausente. O que eu queria mesmo é ser aceito pelos meus pais, nada mais.

Era uma relação velada, eles no fundo sabiam que eu era gay, mas até por uma questão de respeito não falavam nada. Eu venho de uma geração onde a palavra era ditadura, era ficar calado e respeitar. Não acredito em confrontos, da mesma forma que houve respeito deles para comigo, também tive com eles. Uma troca justa. Não acredito na conquista na base da porrada, pois você não chega a lugar nenhum.

Eu só fui me encontrar como homossexual muitos anos já na fase adulta da vida, porque os pais ficavam em cima. Ser filho único era um lance muito pesado. Um inferno, né? A gente fica entre a filha predileta da mãe e a derrota do pai… kkkk [risos].

A gente vive o nada. Daí eu me joguei de cabeça na vida gay. Você ainda tem teus pais vivos? Ele me pergunta. E eu respondo que tenho apenas meu pai. Entendo, então você ainda vive o seu inferno astral. Mas, o dia em que seu pai morrer você vai se sentir muito estranho. Uma mistura de perda e ganho… Horas você vê a perda… Horas você vai ver que ganhou a vida… Liberdade. É muito estranho isso. Você vai viver com ele ao seu lado e ao mesmo tempo agradecendo ele não ser imortal.

Quando você perde pai e mãe, você vai levar pelo menos um ano para refazer você mesmo, até romper todos os seus conceitos. Minha mãe teve morte súbita, dormiu e não acordou, meu pai resolveu que não queria mais viver e definhou. Eu que cuidei deles, até parei de trabalhar, mas valeu a pena. A gente tem que abandonar tudo, não tem como dividir, você tem que resolver tudo e nada ao mesmo tempo. Mas comigo a velhice vai ser diferente. Você já viu viado em asilo? Pedindo esmola? Largado? Isso é triste e existe de montão.

Na falta da família nós fazemos amigos… que vão cuidar uns dos outros. Pelo menos é o que eu espero do Luiz, do Jorge e do Oswaldo. A gente sempre espera ser cuidado da mesma forma como cuidamos dos nossos pais e amigos íntimos, com carinho, dedicação e uma boa dose de amor.

Caro leitor, quando ouço esse tipo de declaração, passa um filme na minha cabeça e fica uma afirmação: os gays estão predestinados a serem os cuidadores dos pais idosos, outros idosos da família e por fim alguns poucos amigos gays idosos.

E você já cuidou ou cuida dos seus pais?

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Sobre Regis

57 anos de idade, residente na cidade de São Paulo

Publicado em 09/04/2013, em Sociedade e marcado como . Adicione o link aos favoritos. 14 Comentários.

  1. Eu sim cuido da minha mãe 22 anos , e é algo impagável, .. É uma linda história de amor fraternal, eu acho lindo quando eu pergunto pra ela qual é o meu nome e Ela sorrindo diz não me lembro mais VC e alguma coisa minha e VC é bom 💟

  2. Ricardo Vieira

    Tenho 37 anos e nunca me assumi como homossexual, apesar de família e parentes desconfiarem, pois nunca me viram com namoradas em toda a minha vida.
    Minha mãe vez por outra me questionava sobre isso, agora nem fala mais, não sei se desconfia mas no fundo ela sabe que há algo errado em minha condição. Meu pai é falecido há 7 anos e eu fui o que mais cuidou dele que tinha problemas renais crônicos, afinal nunca tive vida própria.

    Não tinha amigos ou vida social e sentimental, era de casa pro trabalho e vice-e -versa.Tenho a consciência tranquila por isso, pois sofria muito em vê-lo definhar e agonizar depois de uma vida de fracassos e tristezas. Moro atualmente com minha mãe e apesar de amá-la e respeitá-la isso me incomoda muito, pois queria muito morar sozinho. Ela me sufoca, me irrita profundamente seu temperamento suas cobranças para comigo. Como acontece com a maioria dos homossexuais masculinos que tiveram mães dominadoras e pais desligados e distantes comigo não foi diferente.
    Enquanto lia o texto revivi a dualidade de sentimentos em relação a meu pai quando ele morreu, ao mesmo tempo que sofria intensamente com a perda sentia também um certo alívio o que acarretava culpa e remorso também. Sempre me senti aprisionado pela minha família, pelos problemas financeiros e conjugais de meus pais, somado ao fato de que eles me prendiam muito, acabei me tornando alguém muito inseguro e passivo ao longo da vida.
    Atualmente não tenho mais ilusões e expectativas irreais em relação a vida e as pessoas, só quero viver em paz e sozinho como sempre fui. Como li outro dia uma frase ” não sou solitário para ser mais feliz mas sou solitário para ser menos infeliz”.
    Cresci carregando o fardo das cobranças e pressões da sociedade, parentes… para seguir o padrão hetero e atitudes másculas que se espera de um homem. Nunca consegui criar vínculos com ninguém e me sinto cada dia mais distante de todos, inclusive de minha mãe. Me incomoda um pouco esse desejo de liberdade que sinto, essa vontade de ficar bem longe dela e de todos da minha família, mas é o que eu verdadeiramente almejo.
    Minha maior motivação é a minha vida profissional, os estudos…projetos futuros… retomar minha vida espiritual, afinal a vida é muito mais do que relacionamentos e sexualidade. Apesar de tudo ainda tenho muita esperança de viver tudo isso futuramente, mesmo sozinho.

    • Olá Ricardo
      Seu depoimento é semelhante em muitas coisas e situações vivenciadas por gays e suas respectivas famílias.
      O importante é não se entregar ao conformismo e ir à luta.
      Pelo texto, percebo que você tem bom entendimento da vida e de seus objetivos. Isso é legal
      Sucesso pra você.
      Regis

  3. Eu tenho 27 anos e gosto também só de coroas. Meu ex brincava comigo de que eu ia ter que cuidar dele e tal e eu ficava falando que não sou enfermeiro…
    Moro com meus pais e um irmão mais velho. Minha irmã é casada e mora fora. Todos sabem de mim aqui em casa, exceto meu pai. Não pretendo ficar para cuidar dos meus pais, embora futuramente possa ajudá-los financeiramente. Eu confesso que sou um tanto egoísta em algumas coisas. Talvez ainda cuide da minha mãe, afinal ela sabe de mim e sempre fomos muito próximos, mas do meu pai é uma outra história.

  4. Eu moro com minhã mãe. Ela esta com 87 anos. Tem lá seus probleminhas da idade, mas nada grave; é minha alegria e meu porto seguro. Creio que ela é quem cuida de mim rssss.
    Sei que preciso me preparar para essa separação, pois não somos eternos. A única coisa que sei é que irei sofrer muito quando ela se for… parece que agente se completa na alma.
    bom, vamos continuar vivendo da melhor forma possível e confiar na vida.
    Abraços a todos.

  5. José Augusto Heeren

    Que a população brasileira está vivendo mais é um fato, outro fato é que não estamos preparados para lidar com estes idosos… cuidar de pessoas com idade avançada, sem autonomia ou acometidas de qualquer tipo de senilidade é muito difícil e o preço que se paga por isso é enorme. Gostamos de imaginar que somos capazes de enfrentar tal missão mas quando a hora chega e temos que realmente por a mão na massa, a situação muda e, nem todos vão conseguir lidar com o problema. Não saber lidar com a velhice e com a morte não é falta de caráter ou outra coisa qualquer e sim responder ao problema de forma humana. Não devemos sentir culpa. Penso que não devemos fazer planos sobre o futuro e sim viver o presente e quando e somente quando o problema se revelar é que saberemos onde o calo aperta…

  6. Ufa…post realista demais!Vivo essa situação atualmente,meu pai já se foi e mesmo morando em outra cidade,cuidei dele até o final,minha mãe mora comigo e está bem fragilizada,meus irmãos,todos casados,não se importam;as vezes é difícil segurar,o pior de tudo é a sensação de desamparo e solidão dentro da família,penso que minha mãe saiba de mim e até meus irmãos,porém ninguém comenta.Tenho um amigo idoso,por quem sou apaixonado,pena que ele seja hétero,adoraria cuidar dele,caso precise algum dia.Quando penso em minha velhice,fico temeroso,tenho 35 anos e não sei se quando precisar,terei ajuda de algum familiar,isso é bem assustador,mas sou grato a meus pais e farei de tudo para que minha mãe fique bem.

  7. Poxa, adorei.
    Sempre leio os textos …gostaria muito de poder encontrar um idoso acima de sessenta anos, para ficar c/ele até o fim de vida e pode cuidar dele.
    É muito difícil encontrar homem maduro que queira algo sério. Eu acho que vou ficar idoso não encontrarei o meu coroa dos sonhos.

  8. Nossa…….que post…. de repente sei lá….mil coisas me passaram pela mente.
    A princípio um pai e uma mãe que se preze e tem um pouco de cérebro( não precisa ter muita cultura não) deveria dar glórias a Deus por ter um filho gay.
    Pensem comigo: esse filho será um aliado para a nossa velhice então, nada melhor do que tratá-lo bem,pois a devolutiva será recompensatória.
    Mas no geral isto acontece?
    resposta: na maioria das vezes não, o gay rasteja igual a uma lagarta quase ke metade da sua vida implorando por sentimentos, até ke um dia cria asas e diz: basta!!!!!
    Gostei muito do depoimento do francisco, apesar de não ter passado ainda por esta situação ele foi muito realista e sincero no ke diz.
    Então meus amigos, se por mais ke você curta um grisalho, vocÊ gay, sem família é a pessoa mais certa e eleita por unanimidade familiar para cuidar dos seus pais?
    Depende:
    – vc tem outros irmãos? então eles também farão parte do processo sim, why not?
    – como vc foi tratado ao longo dos anos?
    -Dizem que os gays são mais sensíveis…talvez….tem um emocional mais fraco?…sei lá….
    são bons de coração…. até ai tudo bem. mas passar por trocha….bobo, enquanto todos fogem das responsabilidades?
    Nem a pau juvenal………
    -vc foi amado, respeitado, fez parte da família, teve apoio? então cuide sim dos seus pais idosos….acho válido. e digno.
    solução: tem uma profissão nova despontado no mercado de trabalho: cuidadores de idosos
    esse negócio de deixar tudo pro solteirão….. é fria …..o conto do bilhete premiado já tá muito manjado inventem outra. Tô fora……

  9. Eu escondi por muito tempo, ate que um dia minha mãe disse: traz teu namorado pra jantar conosco hoje. han ? como?.
    e ela me falou que já sabia quem eu era. Hoje ela tem 96 anos, somos só nós dois em casa .
    Não é necessário contar nada nossos pais nos conhecem e viva a vida dignamente e sejamos felizes. bjs

  10. adriano salve salve

    Eu tenho , 43 anos, gosto de pessoas com bem mais idades. Idade de uma pessoa, que eu conheço, meu namorado, sempre falo para ele, vou ficar com você ate os últimos dias de nossas vidas, vou ter um prazer enorme de cuidar dele, pois eu o amo. Eu ainda tenho pai e mãe, não sei se vou cuidar deles, tenho mais 3 irmãos, e , 2 irmãs, talvez cuidem deles…

  11. Texto denso. Complicada essa situação. Eu já nem sei mais o que pensar. Tenho 27 anos, sinto atração só por coroas e não sei como lidarei com essa situação no futuro. Creio que estarei sempre estudando, fazendo cursos e coisas gênero, como forma de mascarar a solidão, mas não sei se será possível. Com 27, já sinto ela na pele. Quanto à família saber sobre sexualidade, isso é um dos maiores entraves que levo comigo. Tenho vontade contar, mas sempre acho que não é a hora, por ainda estar morando com eles. Sempre me questiono: e quando eu sair daqui, contarei ou não??? A sensação de estar sempre sozinho, por ser gay, é bem dilacerante, e, geralmente, é com família que podemos contar ao longo da vida, entretanto, como fica a questão de esperar contar com família, quando você é gay e não contou para sua família sobre tal??? Um questionamento que me apregoa cotidianamente. Ainda nessas, vem aquelas: será mesmo que devo contar???
    Eu tenho, às vezes, a sensação de que estou perto fisicamente, mas longe existencialmente da minha família pela questão da minha homossexualidade. Enfim, vivendo e TENTANDO aprender….

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