Arquivo mensal: março 2013

Amor bandido e homossexual

amor_homossexual_idosoEra fim de verão na pequena cidade do interior. Mario terminou a regência na missa matinal e foi para casa.

A sua vida era pacata e recheada de atividades sociais. De família tradicional, além de regente ele era cantor lírico e professor de regência e canto. A sua atuação na catedral da cidade era uma marca de competência e sensibilidade. Discreto, culto e elegante, todos o conheciam como referência de gentileza e vida pessoal que privilegiava a deferência para com os amigos e para com seus conhecidos.

Aos setenta e cinco anos, solteiro, ele morava sozinho num sobrado na rua paralela ao largo da matriz. A sua vida secreta era um refugio aos seus íntimos desejos homossexuais. Na busca por prazer e sexo, ele buscava seus parceiros nas esquinas da cidade ou em locais públicos, como praças e banheiros.

Ele não mantinha nenhum relacionamento fixo, mas possuía uma coleção de jovens e belos garotos residentes, principalmente, na periferia da cidade.

Naquele sábado chuvoso e frio, fim de verão, ele preferiu ficar em casa para aproveitar o dia para descansar, pois na semana seguinte a sua agenda cultural tomaria muito do seu tempo.

Após o almoço caiu no sofá para ver televisão, mas antes telefonou para um dos seus amantes e pediu a presença dele na sua casa.

Ao cair da noite o amante chegou e entrou no sobrado sem causar alarde. Por lá ficou mais de duas horas e ao sair por volta das onze da noite, levou o carro do Mario, um Peugeot vermelho, ano 2010.

Na manha de domingo a governanta chegou para preparar o café e encontrou o corpo do Mario caído no chão do quarto. Estava nu, com os pés e os braços amarrados para trás com uma gravata e tinha uma toalha na boca, além de um cinto preso na região do nariz.

Para a polícia o caso foi de latrocínio, roubo seguido de morte, mas o real motivo foi a fragilidade de um senhor idoso, homossexual e indefeso.

Esse foi o triste fim de um homem carismático, alegre e motivador da música lírica entre as gerações mais jovens.

O amor homossexual é algo marginal e isso fascina. A promiscuidade nos acorrenta, aprisiona e mata. A busca por cacetes duros nos cega e nos condiciona a não ver os riscos entregando-nos ao desconhecido. Vida homossexual cercada de belos corpos, bandidos, másculos e sarados que nos proporciona prazer e nos tira a vida.

@@ Conto baseado na história de Mario Luiz, encontrado morto no dia 17 de março de 2013, na cidade de Jundiaí/SP

A homofobia internalizada contra gays idosos

homofobia_internalizada_gay_idosoQuando se fala em homofobia, logo vem à mente a violência sofrida por jovens gays, porque é isso o que vemos todos os dias nos noticiários e jornais de todo o país.

A Homofobia, termo derivado da abordagem psicológica, é definida como a aversão ou rejeição de homossexuais e da homossexualidade; sob essa designação, além dos homossexuais, também estão incluídos os bissexuais, travestis e transexuais.

A homofobia afeta os gays nas esferas da discriminação e do preconceito. O preconceito pertence à esfera da psique e a discriminação à esfera social.

A discriminação contra os gays sempre existiu e está longe de acabar. Hoje a homofobia atinge os gays de todas as idades, inclusive, as pessoas da terceira idade com mais de sessenta e cinco anos.

No Brasil, este assunto praticamente não existe e não existem estudos sobre as formas como acontecem os ataques homofóbicos contra os gays idosos.

Há que se considerar a homofobia praticada, inclusive, e, principalmente, no próprio meio gay. É a homofobia internalizada.

Diante das frustrações pessoais o indivíduo gay procura culpados da situação que lhe causa mal-estar, elegendo certos indivíduos; O gay em conflito interno tenta solucioná-lo projetando-o, total ou parcialmente, em determinados indivíduos destinando-lhes tratamento desfavorável, chegando à violência física, que pode culminar com a morte.

Um amigo frequentador de points em São Paulo me disse que o preconceito e a discriminação ocorre bastante no meio gay e são praticados por homossexuais jovens que não gostam dos mais velhos porque “velho” está fora do padrão da cultura gay – Como se idosos não pudessem ser gays.

Sabedor dos riscos de homofobia interna e externa, o gay idoso prefere ficar trançadinho no armário e vive uma vida reclusa e solitária. Talvez você discorde dessa afirmação, mas pense de uma forma mais ampla, sem se restringir a você e ao seu mundo.

Na terceira idade o grupo das travestis é o que mais sofre com a homofobia. Outro grupo é os bissexuais. Sim, eles são discriminados no meio gay porque são idosos, a maioria foi casado e ficou viúvo. Os jovens gays chamam esse grupo de velhos safados. Os gays idosos efeminados sofrem duplo preconceito, interno e externo. Já os masculinizados circulam com cautela e discrição. A homofobia dentro do meio gay é mais psicológica do que física, exceto casos pontuais de crimes motivados por dinheiro. Os jovens gays intimidam os mais velhos, excluindo-os do meio e ai o silêncio prevalece.

E eu lá em 1980 pensava que em 2010, a liberdade dos gays seria ampla e irrestrita. Hoje fico triste com a constatação sobre os homossexuais idosos que combateram as primeiras batalhas pela igualdade desde a época da ditadura brasileira e que hoje enfrentam tanto medo de discriminação, intimidação e abuso que muitos estão escondendo suas vidas para sobreviver. Os americanos chamam essa situação de Coming Out – Coming In. Sair do armário e voltar ao armário.

Uma frase resume toda essa situação vivenciada por gays e bissexuais idosos:

Querido, para não sofrer homofobia o melhor é envelhecer em silêncio.

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Se você não viu, não deixe de ver o documentário a seguir:

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