Casais gays – Dinâmicas de relacionamento

dinamica_casais_gay_filhoO casal gay masculino é um dos exemplos do pluralismo de formas familiares emergentes nas sociedades contemporâneas. Em si é um conceito recente, mas que na prática sempre existiu.

Na juventude as minhas relações não foram estáveis e não duraram mais do que dois ou três meses. Eram loucas paixões, com muito fogo sexual e todas foram vividas na clandestinidade através de encontros fortuitos, a maioria noturnos, em saunas, hotéis e motéis à beira das estradas.

As dinâmicas de relacionamentos dos gays dependem dos protagonistas e da fase da vida dos envolvidos: jovem/jovem, jovem/maduro, jovem/idoso, maduro/maduro, maduro/idoso ou idoso/idoso.

Analisar uma relação gay corresponde a falar-se, antes de qualquer coisa da dinâmica do desenvolvimento do compromisso e dos laços afetivos entre os parceiros. Apesar de não ser uma forma institucionalizada de relacionamento, o casal homossexual masculino regulamenta a gestão da sua intimidade com base em valores sociais abrangentes, nomeadamente, amor, amizade, confiança e companheirismo.

A diferença estabelece-se quanto à importância da fidelidade sexual, decidindo os parceiros o que é mais adequado na sua relação, de forma que a satisfação e a estabilidade no relacionamento sejam asseguradas – Isso é inconsciente e acontece com a maioria dos gays.

Observe por exemplo o modelo da relação aberta. Parece ser legitimada pela visão e vivência masculina da sexualidade; o amor que se sente pelo parceiro não é impeditivo da procura de prazer sexual fora da relação, uma vez que exerce uma distinção entre desejo sexual e afetividade e, por conseguinte, entre fidelidade sexual e fidelidade emocional, esta sim, considerada como o elemento vital para a relação.

Para que o sexo extraconjugal não se converta num foco de instabilidade e insegurança, não é permitido ao parceiro que ganhe outro significado para além do prazer físico. Acordos são firmados para que o prazer físico não entre na esfera afetiva – tem casais que vivem assim, há décadas.

Quando se fala em afetividade, o ciúme é um sentimento sempre presente. Têm gays que não querem nem ouvir falar em relação aberta, porque a esfera afetiva prevalece sobre a esfera do prazer carnal. O sentimento de posse é um paradigma nas relações de casais homossexuais.

dinamica_casais_gayÉ interessante a aspiração à vida de casado pelos gays. Eu conheço alguns solteiros e observo que o sonho de encontrar um parceiro para uma vida a dois é constante e ocorre em qualquer fase da vida. Mesmo aqui no blog sempre me deparo com leitores buscando um companheiro para uma vida conjugal.

Na dinâmica dos casais gays, os envolvidos procuram parceiros com base no estabelecimento da afetividade e preferem-se em função de figuras de compatibilidade psicológica que culmina no estreitamento de laços de intimidade. A situação de vivência em casal é procurada como um suporte às carências afetivas e um meio de suprimir uma situação de solidão – Você pode discordar, mas essa é a minha opinião.

Às vezes eu penso que a relação parece ser idealizada pelos gays como um projeto de entrega emocional estável e duradoura sem que a condição de perenidade se constitua como um fator adquirido.

Neste tipo específico de casal a consciência sobre a instabilidade do sentimento amoroso e da falta de amarras institucionais é forte, fazendo com que o relacionamento seja pensado e vivido diariamente, sendo marcado pela satisfação que proporciona aos parceiros. Assim, o único projeto de vida em comum é o desfrutar da presença e da intimidade do companheiro.

Outro fator que observo nos gays que procuram parceiros é a questão de morar juntos. Sempre analiso essa situação com atenção, pois para alguns, isso tem um significado especial. Embora eu saiba que essa coisa de “morar juntos” vai ocorrer de uma forma natural na evolução da relação, o lance de morar juntos pode ser concretizado de duas formas diferentes – regime parcial e regime total – Deu pra entender? É isso ai, você morando na sua casa e semanalmente fica uns dias na casa dele ou você sai de casa e vai morar com o parceiro ou vice-versa.

Tudo isso deriva da articulação entre as necessidades do casal e as especificidades particulares de cada parceiro. Alguns gays gostariam de viver junto, mas devido às pressões familiares e sociais acabam vivendo um regime parcial de moradia – eu mesmo tive um companheiro que devido a não aceitação da homossexualidade e das pressões familiares jamais permitiu que eu dormisse se quer uma noite na casa dele. A nossa relação durou dois anos.

Essa situação de moradia parcial na casa do parceiro pode constituir-se como um elemento transitório em que são avaliadas as possibilidades do envolvimento material e emocional do casal, conduzindo a uma situação de moradia total. Aquela coisa da individualidade, a independência e a preservação do espaço pessoal contribuem para a manutenção do modelo que poderá ser mais ou menos aceito pelo casal e serve para os gays de todas as idades.

A gestão do relacionamento é algo complexo que articula, no mesmo plano, personalidades diferentes, maturidade, aceitação da condição homossexual, regras de convivência e as particularidades que cada um vai levar para a relação.

Viver juntos é um aprendizado diário, eu que o diga. Mesmo não morando sob o mesmo teto, eu e o meu companheiro moramos no mesmo prédio, portanto, estamos próximos e diariamente nos encontramos para conversar, beijar, jantar, ver TV. etc. – Ele vem ao meu apartamento todos os dias e eu vou ao apartamento dele todos os dias. Quando um quer fazer uma coisa diferente não vai ao apartamento do outro. Isso preserva a individualidade.

Numa relação e morando juntos não basta apenas gostar e ter afinidade sexual. Existe um modelo dos papeis de cada um. Cada parceiro desempenha papeis identificados com o padrão feminino ou masculino – É uma coisa meio andrógina, porque mesmo os gays masculinizados lavam louças e fazem os serviços domésticos.

Outro ponto que sempre gera discussão é o poder, quem manda mais? – Aqui não cabe o ativo/passivo ou o mais forte fisicamente. As bases do poder entre um casal apresentam elementos como: renda individual, educação, cultura, idade, etc. Aparentemente isso se constitui como uma variável catalisadora da igualdade e do direito de cada um dos parceiros.

Regra geral, os dois parceiros desenvolvem uma profissão ou carreira que lhes confere autonomia econômica e, por conseguinte, poder pessoal que proporciona uma maior igualdade relacional no casal. O cotidiano é organizado, em igual medida, em função das determinantes particulares da vida profissional dos parceiros, às quais é atribuído o mesmo grau de importância – características que se verificam usualmente em sujeitos pertencentes à classe média ou média alta escolarizada, grupo em que se enquadra a maioria dos gays que eu conheço. Geralmente, os gays de classe sociais mais baixas submetem-se ao poder do mais endinheirado – Aqui estou eu gerando polêmicas.

Morar junto não é um mar-de-rosas. A invasão do espaço pessoal é uma importante fonte de conflitos, na medida em que os parceiros não reagem bem à submissão da sua identidade e liberdade individual.

A idade, o rendimento e nível educacional são elementos que podem ser invocados como indutores de uma diferença de estatuto entre os gays presentes na relação. Esta diferença de estatuto pode legitimar o posicionamento do elemento mais velho como ‘chefe de casal’, sendo este o detentor da palavra final no que respeita as decisões a serem tomadas e executadas.

Também, sem diálogo e tolerância não tem relação que resista. As insatisfações pessoais sempre culminam em situações de conflito.

Embora possa existir uma referência por parte dos indivíduos que desejam viver uma relação homossexual à semelhança de gênero como um elemento que favorece a existência de cumplicidades e compreensão entre os parceiros, esta não é garantia de uma relação mais igualitária ou livre de tensões e conflitos. Os casais continuam a experimentar situações de atrito.

A maioria dos casais opta por manter as finanças em separado, gerindo cada um os seus rendimentos como melhor lhe convém. As despesas comuns são divididas entre os dois parceiros e os gastos pessoais são custeados pelo próprio, segundo o modo que entender. A inexistência de uma fusão de rendimentos constitui-se como uma estratégia de eliminar um potencial foco de conflito que a gestão conjunta do dinheiro e diferentes visões quanto aos padrões de consumo podem fomentar.

Nos conflitos o casal compreende o fato de não haver acordo e na sua impossibilidade a disputa é esquecida. Retomando um ou outro, o curso normal da relação. Outros casais optam dialogar sobre o problema chegando a uma situação de compromisso. A iniciativa para o diálogo é proveniente do parceiro que iniciou a briga ou pelo parceiro que usa a razão nos argumentos do outro.

Um fato comum entre os casais é o reconhecimento do parceiro como aberto à reconciliação quando o conflito acontece. Neste sentido, as situações de conflito não se convertem como fatores de rupturas brutais – são as briguinhas normais que todo casal tem.

As relações começam e terminam todos os dias; a dinâmica dos relacionamentos é complexa, A nossa vida é contada através do tempo, ele é o senhor que rege as relações. Você pode passar trinta anos com o seu companheiro e ainda assim, você não o conhecerá por completo.

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Sobre Regis

58 anos de idade, residente na cidade de São Paulo

Publicado em 05/02/2013, em Relacionamento e marcado como . Adicione o link aos favoritos. 6 Comentários.

  1. Eu me sinto incomodado com essa tal de “relação aberta”. Me doi na alma imaginar o parceiro, que tanto amo, sentindo prazer com outro corpo. Vai que ele gosta….rsssss

  2. marco antonio silva

    Exelente artigo e muito verdadeiro! Muito bom mesmo…Existem casais que estão juntos há anos e nao vejo diferença do comportamento dos heteros. São casais e pronto! Quanto a relação aberta eu sou a favor, pois apimenta a relaçao. Amor é uma coisa e sexo outra. Parabéns

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