Ah! A literatura gay!

homoerotica_nu_sozinhoEu estava escrevendo este post quando no dia 14 de janeiro foi publicado um artigo do escritor português e doutor em Ciência Política João Pereira Coutinho em sua coluna na “Folha de São Paulo”, que levantou uma questão há muito discutida: existe uma Literatura Gay? O artigo repercutiu nas redes sociais com militantes se posicionando contra a opinião dele – leia: Jogos olímpicos gay?

Em minha opinião a literatura gay ou homoerótica é uma expressão genérica para literatura criada por gays ou envolvendo personagens gays, temas ou narrativas no âmbito da comunidade e cultura gay. O assunto é amplo e aqui eu faço um resumo sobre o assunto.

Literatura gay não constitui um gênero diferente de literatura, mas engloba todos os grandes géneros: narrativa, poesia, teatro, ensaio, etc. Trata-se de um ramo da literatura, uma classificação de um subconjunto de obras literárias.

A literatura é, possivelmente, uma das formas artísticas mais adequadas à descrição da complexidade e sutileza da sensibilidade dos gays, tendo sido largamente utilizada ao longo da história para partilhar sentimentos, muitas vezes de forma codificada, pois de outra forma seria muito difícil, ou mesmo proibido, expressar. Através da literatura é possível entender a evolução da homossexualidade no seu contexto social.

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A literatura gay de bolso ou de cordel surgiu nos anos 1930 e atingiu o seu apogeu no inicio dos anos de 1950. Na época além de proibidos esses livros eram baratos e eram vendidos na América e Europa em estações ferroviárias, rodoviárias, em tabacarias, mercearias, drogarias e bancas de revistas, de forma a servir o mercado que na primeira metade do século XX estava habituado a comprar revistas do gênero.

Entretanto, as expressões “literatura homoerótica” ou “literatura gay” estão diretamente associadas a algo mais recente, ao movimento de emancipação política da comunidade gay que ocorreu no fim dos anos 1960. Os reflexos podem ser sentidos hoje com várias ações afirmativas que incluem a criação de  espaços de convivência cada vez mais numerosos, um mercado de produtos gay, grandes produções de filmes para o cinema, exposições de arte e coleções de livros LGBT.

A lista de escritores da literatura homoerótica ao longo da história é imensa, mas o meu predileto foi Oscar Wilde. Em outras literaturas, destacam-se os sonetos de Shakespeare, Walt Whitman, Christopher Marlowe, Virginia Woolf, Arthur Rimbaud, Marcel Proust, André Gide, Michel Foucault, Jean Genet, Roland Barthes, incluo também, Fernando Pessoa.

A partir dos anos 1970, várias obras de referência como Satiricon, Maurice, Morte em Veneza, O retrato de Dorian Gray foram adaptadas para o cinema.

Os gêneros

As obras de ficção contêm a poesia, o romance, bem como o conto e a novela, o teatro, a ficção científica, o romance fantástico e a literatura infantil e juvenil com os principais géneros abordados pela literatura gay, que, no entanto, não se inibe de incluir obras em todos os modos e gêneros literários. O mesmo acontece com as obras não ficcionais, onde se salienta o ensaio, a biografia, a autobiografia e as memórias.

Bom-Crioulo- Adolfo Caminha

A literatura gay no Brasil

No Brasil, a primeira grande obra de literatura gay é o Bom Crioulo, de Adolfo Caminha, publicado em 1865, e considerado por alguns como o primeiro romance homossexual na história de toda a literatura ocidental.

O Terceiro Travesseiro de Nelson Luiz de Carvalho, A imitação do amanhecer, de Bruno Tolentino, O Teatro dos Anjos, de Dirceu Cateck.

Há escritos homoeróticos de Raul Pompéia, Álvares de Azevedo, Olavo Bilac, Mário de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Caio Fernando Abreu, Lygia Fagundes Telles, etc. Sempre que tenho tempo livre dou uma folheada no livro Devassos no Paraíso de João Silvério Trevisan.

Não posso me esquecer do Lampião da Esquina – Um jornal gay brasileiro que circulou durante os anos de 1978 e 1981. A circulação do jornal veio por meio da criação de uma editora também chamada de Lampião. No total teve 38 edições. Inicialmente, cada edição, teve uma circulação aproximada de 10 a 15 mil exemplares em todo o Brasil.

Apesar da maioria dos escritores não se conformar com a classificação de literatura gay, pois acham que é reducionista, existe sim uma literatura gay, que tem marcas literárias e identitárias próprias. O olhar diferenciado, as experiências vividas, os lugares são explicitados na forma de escrever, que revela um desejo homo social dentro dessa literatura.

O meu correspondente e colaborador dos GRISALHOS, Paulo Azevedo Chaves é um exemplo do valor da poesia e dos contos homoeróticos brasileiros. Destaco os novos autores brasileiros, como Kiko Riaze (cadê você?), Roberto Muniz Dias, Fabrício Viana, Denílson Lopes que escreveu os ensaios: O homem que amava rapazes, Moa Sipriano com os seus livros livres e gratuitos.

Seja como for, essa vivência normalizada da homossexualidade tem dado frutos editoriais. Hoje grandes redes de livrarias e editoras comercializam a literatura gay. No Brasil destacam-se além das produções independentes, as editoras Brasiliense, Record, Edições GLS do grupo editorial Summus, a primeira editora brasileira dedicada às minorias sexuais, editora Malagueta, Aeroplano, essas dedicadas à literatura para lésbicas.

flqueer-reloadedA literatura homoerótica e em especial os contos e poesias são facilmente encontrados nos portais LGBT, sites, blogs e  redes sociais.

Enfim, eu penso que quando se fala em “literatura homoerótica”, estamos num terreno minado, em que sexualidade conjuga com tolerância, em que o discurso predispõe a uma sexualidade pacata, inofensiva, contada em prosa e verso na maioria das coleções de livros.

Aos leitores interessados, na lateral da página do blog tem uma parte dedicada à literatura gay ou homoerótica, com algumas obras em formato PDF.

Crédito das imagens:

Clube de autores

Editora Aeroplano.

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Sobre Regis

57 anos de idade, residente na cidade de São Paulo

Publicado em 17/01/2013, em Literatura e marcado como , , . Adicione o link aos favoritos. 10 Comentários.

  1. Convite para livro:

    A história do livro “Descobrindo o que é Amar” surgiu através do orkut em 2012.

    Primeiramente foi postado em forma de capítulos lançados diariamente. O projeto surgiu com a ideia de debater temas considerados tabus pela sociedade.

    Muitos jovens passam por angústias, descobrimentos, dúvidas. Eu passei na minha época por esses problemas, e ler me ajudou bastante.

    Ler abre a mente, faz você refletir. Aproveite essa linda e curiosa história que se passa em torno do personagem Daniel. Através de suas dúvidas, questionamentos e vivências ele vai descobrindo seus próprios sentimentos e o mundo ao seu redor.

    O Romance traz vários temas e uma trama impressionante. Amar, viver, sentir, sonhar! Não fique de fora.

    Caso queira conhecer uma parte da história gratuitamente, iremos em breve disponibilizar um ebook com os 15 capítulos iniciais. Atualmente também, o poste fixo da nossa página do facebook tem o link para 27 capítulos iniciais gratuitamente, confira lá!

    Seja Bem Vindo(a) a Família “Descobrindo o que é Amar”!

    https://www.facebook.com/pages/Descobrindo-o-que-%C3%A9-amar/487168958001307
    http://descobrindoqueamar.wordpress.com/

  2. Meu caro Regis, sempre que posso, acesso o blog dos grisalhos para ler as postagens que são excelentes e aprendo muito e me sinto mais consciente do mundo gay. sou bi, sou casado e tenho filhos, mas, me considero gay, porque gosto de homens, porem não tenho culpa de sentir forte atração por mulher (somente, aquela que escolhi para ser minha esposa e mãe de meus filhos). Isso não me tira a consciência de eu ser um gay.
    Gostei muito do post AH, LITERATURA GAY, um tema que me desperta atenção e curiosidade para que eu viva cada vez mais conciente e feliz comigo mesmo. Gostei, muito, também dos comentarios sobre este post. Eu gostaria de um dia, ler, um comentario sobre OS ARTISTAS EM GERAL, HOMENS, atores, cantores, escritores e artistas de todas as vertentes. Já li algo que, afirma que os artistas tem tudo haver com a homonssexualidade, segundo a ciência. Eu gostaria de ler um artigo relatando esta possibilidade dos homens artistas terem algo de gay, é só uma curiosidade. Tenho uma imprensão que quase todos estes grandes atores da televisão, cinema, jornalistas, escritores, colunistas sociais, artistas plásticos, poetas, entros outros podem ser gays, discretos ou não assumidos. Você deveria pensar em escrever um artigo neste tema. Abraços do Dico

  3. Prezado Regis,

    Obrigado pela referência ao nosso trabalho. Somos poucos que lutamos pela existência de uma literatura gay. Sou Escritor e Editor da editora Escândalo, especializada em livros com temática homoafetiva; além disso sou mestre em Literatura pela UnB, cuja pesquisa visa o editorial gay no Brasil.
    Deixo como registro o endereço de nossa editora para que seus leitores tenham conhecimento de nossos títulos e seus autores: http://www.editoraescandalo.com
    Muito obrigado!
    Roberto Muniz Dias

    • Roberto

      Fico lisonjeado por seu comentário do blog. Divulgar e referenciar trabalhos sérios e importantes é mais do que necessário, é obrigação.

      Agora vou conhecer melhor o seu trabalho e os autores por intermédio da Editora Escândalo.

      abraços, Regis

  4. paulo azevedo chaves

    Gostei muito da postagem, já que há muito sou aficionado da literatura gay através de minhas vivências na Europa e EUA, mas também através do contato com livros de uma editora norte-americana, cujo editor ,Winston Leyland, me mandou (autografados), alguns volumes de sua GAYSUNSHINE PRESS.Isso foi na época em que assinava uma coluna cultural no Diário de Pernambuco com o titulo de POLIEDRO. Darcy Penteado também me mandou alguns livros autografados.Na postagem apreciei muito o texto lúcido, veraz e muito bem escrito (e pensado) de Kiko Riaze. Vou ver se o localizo no FACEBOOK, onde tenho postado varios textos e imagens de conotação gay Meus livros recentes, inclusive minha autobiografia, estão como link lá. Mais gays do que esses livros é impossível. Um deles inclusive se intitula POEMAS HOMOEROTICOS ESCOLHIDOS. Quer mais?

    • Caro Paulo
      Os seus comentários sempre positivos e suas experiências pessoais agregam muito valor aos escritos do blog, bem como, à minha vida pessoal. Ninguém nasceu sabendo e eu sou um eterno aprendiz.
      Obrigado por tudo
      Regis

  5. Kiko Riaze

    Oi queridão, tô aqui!
    Sou igual ao Superman, só chamar que eu apareço 😉

    Na verdade, eu estou sempre lendo suas postagens, pois sou assinante do seu blog e recebo tudo por e-mail. Sua página como sempre está de parabéns.

    Esse seu post de hoje está excelente, principalmente pra quem gosta e vive disso.
    É realmente uma discussão antiga…

    Afinal, o que é essa tal Literatura Gay?

    Seria a obra escrita por um autor gay?
    Seria a obra escrita por um autor não-gay, mas que toma a liberdade literária de falar sobre o tema?
    Ou teria algo a ver com a estética do texto em si?

    Conforme o artigo, até hoje não há um consenso sobre isso, nem mesmo entre os eruditos. Entretanto, quando se lê livros de temática gay (essa cacofonia é terrível…rs) percebe-se que há um lugar comum, há uma abordagem e uma linguagem muito similares entre eles, que tem muito a ver com a própria identidade de gênero e vivência do autor.

    Por mais que alguns autores não queiram se identificar como autores de “literatura gay”, na prática, eles estão difundindo, sim, um movimento na literatura que se tornou muito forte após Stonewall. É quando ocorre o divisor de águas entre a homossexualidade como uma mera prática sexual e a identidade gay, que é assumir-se como tal e reconhecer-se como parte de um grupo (LGBT).

    Aqui no Brasil ainda estamos engatinhando, mas nos EUA já existem prêmios literários para livros de literatura gay desde os anos 70! Olha que coisa!
    Faço votos que um dia chegaremos lá.

    Mas para isso é preciso que os autores escrevam mais literatura gay e os leitores comprem mais livros LGBT, senão o mercado não sobrevive, né?
    Fica a campanha 😉

    Adorei o artigo e já estou compartilhando no facebook.

    Grande abraço queridão!

    Kiko Riaze

    • Kiko

      Que alegria!
      Quietinho eu também acompanho o seu trabalho via blog.
      O último que li foi referente à palestra sobre o mercado literário gay lá em Piracicaba/SP. Fico feliz por você estar envolvido nesses projetos.
      Tenho certeza que na minha velhice(de fato), eu terei muitas memórias agradáveis de pessoas como você para embelezar os meus dias. Beijão.
      Regis

  6. Que post maravilhoso. A literatura é uma das artes que mais me apetece conjuntamente com todas as outras.
    Um livro muito bom sobre tal contextualização o qual não o vi citado no artigo é Confissões de uma Máscara do japonês Yukio MIshima. Quem tiver oportunidade de ler, não se arrependerá. Outro livro muito bom, apesar de ser um viés BEM agressivo é Círculo dos Libertinos do Marquês de Sade, em que muito do que aborda o livro pode ser visualizado no filme, italiano, Saló 120 dias de Sodoma de Pasolini.

    Em relação ao cinema, indico este filme: http://www.imdb.com/title/tt0110889/ (Padre, 1994) que aborda a questão de um padre homossexual. Excelente filme no mote proposto.

    Excelente post. Adoro este blog; eu, jovem de 27 anos, admirador de Coroas fico contente em encontrar blog’s, como este, que não ficam apenas no conteúdo sexual da coisa, mas, sim, abordando inúmeros assuntos que concernem não só ao mundo gay como também ao ser humano.

    Abraço.

    • Obrigado pelo comentário e a lembrança de Confissões de uma máscara. Eu li esse livro nos anos 1970 e posteriormente assisti o filme no cinema.
      Abraços
      Regis

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