Reflexões de um gay maduro sobre a aposentadoria

gay_pensativoEu sou um homossexual bem resolvido e de bem com a vida e com as pessoas. Há alguns anos estou me preparando para a aposentadoria e saber que faltam menos de dois anos me deixa apreensivo, ou melhor, ansioso.

Tudo passa tão rápido. Eu não imaginei que chegaria até aqui.

Entrei no mercado de trabalho com quinze anos e hoje tenho cinquenta e três. Sou um gay equilibrado e não tenho neuroses. Todas as questões da minha sexualidade já foram resolvidas, também eu me relaciono com outros gays mais velhos e isso é um aprendizado diário. As experiências dos mais velhos são como portas e janelas para novas possibilidades de viver bem.

Ontem me questionei: E aí, como vai ser a sua vida após a aposentadoria do trabalho?

Simplesmente, ainda não sei. É uma incógnita. Fiz planejamento financeiro, consolidei meu patrimônio, fiz plano de saúde, estou num relacionamento estável há cinco anos, mas tudo ainda é incerto. Há apenas uma certeza: Eu não continuarei trabalhando até os sessenta ou setenta anos.

Nós trabalhamos a vida inteira em busca de sucesso, conforto e uma vida melhor e quando conseguimos tudo o que desejamos chegam as incertezas que para uns pode ser complicado ou para outros, algo tão sonhado.

Eu converso com homossexuais de várias faixas etárias e a maioria deles acredita ser o final da vida e para alguns poucos apenas o começo de uma nova etapa. É claro que estes são os mais otimistas, pois acreditam no viver e que a vida foi feita para ser vivida, seja antes ou depois da aposentadoria.

Os gays não são otimistas devido às repressões sofridas ao longo da vida, mas deve-se buscar o otimismo, até para melhorar o sistema imunológico – Leia artigo.

Ultimamente eu estou refletindo sobre o tempo que resta de trabalho. As motivações, as vitórias, derrotas, os erros e os aprendizados. Não serei mais um gay isolado em casa vendo TV ou sentado na frente do computador, há muitas coisas para fazer, novas emoções e sentimentos.

Os riscos do isolamento social também são fantasmas que rondam meus pensamentos porque a longa permanência em ambientes corporativos preenche o vazio e ocupa o dia-a-dia. Quando você se dá conta, o dia acabou, o mês fechou e o ano findou.

Essa fase da aposentadoria significa entre outras consequências, menor rede de relacionamento e apoio de qualidade de vida, debilitando sentimentos de solidão e depressão, e no seu pior, uma vida distante, onde a saúde física e mental se deteriora – Aqui dinheiro não resolve o problema.

O combate ao isolamento pode ser através da ampliação da rede social de colegas e amigos gays para apoio no cotidiano. A minha família está distante e não tenho intenções de aproximações.

gay_maduro_aposentadoriaA vida de aposentado pode ser a melhor fase, basta eu querer fazer diferente. Aproveitar o tempo livre para fazer as coisas que mais gosto na vida, mas não tive oportunidade por falta de tempo que o trabalho ocupou ao longo de trinta e cinco anos – É um recomeçar.

Quero fazer coisas novas como observar a natureza, apreciar a chuva e o vento, plantar flores e arbustos na chácara, cultivar plantas, trabalhar com a terra. Isso me dá uma gostosa sensação de liberdade.

Também, não me preocupo se estarei ou não com um companheiro. Eu percebo que isso é muito importante para os gays na velhice e após a aposentadoria. Sexo é importante e existem outras formas de satisfazer os meus desejos. Deve haver equilíbrio entre a saúde física e mental e enquanto eu tiver forças físicas para correr o mundo não ficarei à mercê do acomodamento comum dessa fase da vida.

Eu acompanho o trabalho da ONG SAGEUSA e vejo ações simples com resultados surpreendentes. Isso me faz refletir sobre a possibilidade de abrir um espaço de convivência para gays aposentados, maduros e idosos em São Paulo. Um espaço social, um local de convívio diário com exibição de filmes temáticos, literatura LGBT, debates, visitação a museus, exposições e porque não, viagens?

Enfim, essas reflexões chegam num momento da minha vida onde a encruzilhada está à minha frente e terei que decidir sobre como viverei fora do mercado de trabalho. Hoje eu tenho apenas uma certeza: Vai ser muito bom! Será ótimo!

Leia também:

>> Gays maduros planejando a aposentadoria

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Sobre Regis

57 anos de idade, residente na cidade de São Paulo

Publicado em 14/01/2013, em Comportamento, Mercado de trabalho e marcado como . Adicione o link aos favoritos. 8 Comentários.

  1. Eu entendo que os questionamentos íntimos com relação à aposentadoria são comuns à todas as pessoas, sejam essas homossexuais ou heterossexuais. É realmente difícil aceitarmos a idéia porque estamos perfeitamente adaptados como parte da engrenagem da máquina capitalista.Mas não podemos esquecer que, salvo raras exceções, principalmente para os que realmente labutam no que gostam, somos todos escravos do sistema, vendendo nossa energia desde o começo da nossa juventude, até a exaustão dos 35, 40 anos de trabalho.Pergunto-me então porque será que temos tanta dificuldade em aceitar o rompimento dos grilhões e encarar a liberdade de viver plenamente?

  2. José Mário

    Gostei muito do seu posicionamento nesta fase da sua vida. Tenho 61 anos e também me vejo na situação que devo me posicionar perante a vida, para dar continuidade a minha existência pessoal e profissional.
    Sou profissional liberal e tenho flexibilidade de horário de trabalho. Devo continuar trabalhando, para manter um padrão financeiro mas também para me sentir útil e produtivo.
    Sexualmente estou bem resolvido, mas evito propagar minha sexualidade. Tenho um companheiro de 75 anos e estamos juntos à 36 anos.
    Mas o que mais me chamou a atenção, foi a sua ideia de um local de convivência para gays aposentados, maduros e idosos é algo que estive pensando recentemente.
    Quem sabe, mais pessoas se interessem por essa ideia, e esse local possa se transformar em uma realidade.

  3. aproveite, seu tempo livre com seu amor. como diz o Eduardo. o que vier é lucro.
    seja feliz .

  4. Acredito que nesta vida tudo tem o seu devido tempo e prazo de validade.
    Esse post eu respondo, fazendo uma citação de fernando pessoa a este
    questionamento:
    HÁ UM TEMPO EM QUE É PRECISO ABANDONAR AS ROUPAS USADAS, QUE JÁ
    TEM A FORMA DO NOSSO CORPO, E ESQUECER OS NOSSOS CAMINHOS QUE
    NOS LEVAM SEMPRE AOS MESMOS LUGARES. É O TEMPO DA TRAVESSIA E
    SE NÃO OUSARMOS FAZE-LA,TEREMOS FICADO PARA SEMPRE, A MARGEM
    DE NÓS MESMOS.

  5. Com certeza será melhor do que vc pensa. Não adianta estar numa empresa, cercada de pessoas, com o tempo voando… e se estar vazio, e só do mesmo jeito. As companhias não passam de ilusões. Temos que aprender que cada um por si só, se basta. E o que vier será lucro. Viva o agora, porque esse agora passa rápido.

  1. Pingback: Gay idoso – Vida de aposentado | Grisalhos

  2. Pingback: O INFERNO SÃO OS OUTROS. « . . . E.V.S.

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