Velhos amigos gays no armário

velhos_amigos_gaysNeste domingo eu tive uma grata surpresa de encontrar um velho conhecido gay. Eduardo tem 69 anos e há mais de vinte anos mora com o seu companheiro numa chácara no interior de São Paulo. O seu parceiro é cinco anos mais novo.

Perguntado se ele já havia saído do armário, ele me respondeu: Mas que armário?

Bem, isso parece cômico, mas o Eduardo realmente não sabe o que significa “sair do armário”, pois vive longe de tudo, não tem acesso à Internet, não está inserido na cena gay paulistana e está afastado da metrópole desde 1992.

Depois do encontro fui para casa e refleti sobre a homossexualidade vivida por homens que hoje tem mais de 65 anos. A primeira impressão que tenho é que os gays idosos ainda lutam para exercer a sexualidade, para reinventá-la, sem que sejam ridicularizados pela sociedade, inclusive, no meio gay.

Os idosos vivem conflitos da estética do corpo e isso inviabiliza o velho e nega a velhice.

Num dos diálogos, ele brincou: Querido, eu não quero nem saber da cidade ou dos guetos. Fui flor do campo, agora que sou tiririca do brejo, vão ficar rindo para mim, porque agora que já não estou mais com os meus vinte anos olham para minha cara e dão risadas.

Ele é um homem de sorte, porque vive uma relação estável há mais de vinte anos. Isso não garante nada, mas ele é da geração que os amores homossexuais clandestinos frente à norma heterossexual formaram a marca da sua geração.

Para o Eduardo, a velhice não trouxe a desistência de projetos e parece guardar para si o tempo perdido por não ter se assumido como gay há mais tempo e gozar da possibilidade de amar outros homens sem que fosse preciso se esconder. Escolheu viver numa chácara porque o seu companheiro também não gosta de exposição pública. A vida tranquila do campo lhes proporciona qualidade de vida para uma velhice digna e com saúde, mas ao mesmo tempo, longe dos grandes centros, a sexualidade é mais reprimida.

Eduardo foi taxativo ao afirmar que se pudesse voltar no tempo botaria a boca no trombone, ia assumir-se, viver os desejos mais abertamente, reforçando a percepção de que o segredo e a invisibilidade da experiência homossexual impõem maneiras de expressar a opressão sentida por sua geração; hoje, percebe-se a sociedade mais aberta às possibilidades de aceitação do estilo de vida gay.

Caro leitor, mas o que traz de tão importante essa necessidade de revelar-se, essa recusa em resistir ao confinamento sexual, esse sufocamento pela ocultação quase permanente do desejo homossexual por parte dos gays da geração do Eduardo?

Eu penso que de fato, essa geração tornou complexo esse paradigma do “sair do armário”. Para esses indivíduos, nem havia esse sentido de “dentro do armário” como metáfora para esconder a homossexualidade, pois, como lembra o meu companheiro “naquela época não se usava isso de se assumir, mas eu não sou tão ingênuo de imaginar que as pessoas não soubessem”.

Através desse desejo de revelar a homossexualidade publicamente, pode-se perceber o caráter contraditório das mudanças ocorridas ao longo das gerações, em que as experiências sexuais passaram a ser um ícone para se pensar a diferença entre a norma e o desvio.

Hoje vivemos tempos menos repressores, mas a geração do Eduardo não vai mudar por causa dessa suposta liberdade de expressão da sexualidade.

Ele finalizou a conversa com o seguinte diálogo: No final da década de 60, quando fui trabalhar em São Paulo a sexualidade era algo proibido, morei com parentes na cidade e depois fui morar sozinho. Foi a minha libertação, me senti dono da minha vida. Quando voltei para o interior fui morar com a família de novo, e não deu mais certo. Então, fui morar sozinho, comprei uma chácara, a partir daí, conheci o Luiz, atual companheiro e voltei a me aproximar da minha família, porque me tornei visita.

Ontem à noite pensei bastante nessa última frase, porque é justamente como eu me sinto em relação à minha família. Um estranho, uma visita, um forasteiro.

E assim, a vida continua…

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Sobre Regis

58 anos de idade, residente na cidade de São Paulo

Publicado em 03/12/2012, em Sexualidade e marcado como , , , . Adicione o link aos favoritos. 5 Comentários.

  1. isso é o triste de tudo…ter familiares e sentir-se como visita ou forasteiro…tudo isso me incomoda de uma certa forma e ainda mais quando penso que nao mudaria nada!

  2. Cada ser humano é singular e vive de modo que melhor lhe convier. O eduardo em questao
    teve uma oportunidade de encontrar alguém e preferiu uma vida mais calma no campo.ok.
    Mas vejam o outro lado da moeda: o envelhecimento é fato com o passar dos anos.A força
    da gravidade grita….eu vou envelhecer sim….. mas eu não preciso ficar parado na linha do
    tempo no meu caso anos 80( cassino do chacrinha, cazuza, Antonio marcos…etc…
    …ai que saudade da minha aurora querida..nos meus tempos de vida………..
    …OI PÁRA NÉ… POR AMOR A JESUS.
    ´ninguém precisa encalhar no tempo, só se quiser.Esses dias atrás vi um depoimento do
    antonio fagundes desde a época do dancin-days até o juvenal antena.(macho gostoso,e
    tesuso) mas caiu no meu conceito ele afirma ser ANALFABYTE. como pode?mas,
    tenho ke respeitar….fazer o kê.
    Com relação á família é isso mesmo, somos visitas eternas pois não correspondemos ás expe-
    ctativas do ke sonharam para nós então vinculos foram perdidos, fellings sentimentos
    existem sim, permanecem. O gostar é de longe.
    Perdemos por um lado,mas ao mesmo tempo fizemos outros elos: mais fortes,mais inde-
    pendentes… e aí vai.
    E vc aí…
    vai ficar no tempo da cantora kátia: …já faz qto tempo ke eu deixei….de ser importante
    pra vc……..
    ou vai curtir uma maria gadú….ou martinália???
    vc decide.

  3. Ao meu entender, podemos ver que debaixo desse Céu, há relacionamento estável, dos gays idosos de diversas formas. Muitas pessoas perguntam. Onde anda os gays maduros? Eu acho que a realidade do Eduardo, é a de muitos gays idosos. Mesmo afastado dos grandes centros urbanos a repressão é maior, porém, muitos dos gays quando chega à maturidade apita por viver igual o Eduardo. Agora relacionado familiares. Será que todos os gays, depois de viver distante de seus familiares, quando fica junto, têm uma relação estranha, forasteiro?.. Por que, eu sinto o mesmo, uma visita já é o suficiente.

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