Arquivo mensal: dezembro 2012

Natal gay – A fé no que virá

mundo_gay_natal4Caro leitor, o Natal está aí e todos nós já vivemos o clima festivo. Lembro-me do Natal especial em 1976, por coincidência no mesmo ano do lançamento do álbum do Gonzaguinha “Começaria tudo outra vez” e que se eternizou na voz de Maria Bethânia.

“Começaria tudo outra vez, se preciso fosse meu amor. A chama no meu peito, ainda queima, nada foi em vão…“.

“A fé no que virá, e a alegria de poder olhar pra trás e ver que voltaria com você, de novo viver neste imenso salão…”

É isso ai. Acreditar num amanhã mais justo e humano, olhar para o passado e ter a certeza que faria tudo de novo.

Neste ano a minha vida iniciou um novo ciclo – A convivência com doenças próprias da idade, mas nada que me tire atenção de quem sou, o que eu quero e para onde vou.

Neste ano eu quero ver se o espirito do Natal já está nas casas das pessoas, especialmente na casa dos gays de todo o Brasil.

Não quero ver a árvore iluminada na sala, nem quero saber quanto você gastou em presentes, quero sentir no ambiente um sentimento de otimismo e amor!

Você é aquele gay que passa o Natal em família? Se afirmativo, toda a família está reunida? O perdão já eliminou aquelas desavenças que ocorreram no calor das nossas vidas?

Senão, não quero ver a sua despensa cheia, quero saber se você conseguiu doar alguma coisa do que sobrou, para quem tem tão pouco ou quase nada.

Eu não quero ver os gays exibindo os presentes. Eu quero ver dentro de você a preocupação com aqueles que esperam tão pouco, uma visita, um telefonema, um SMS, uma carta, um e-mail…

mundo_gay_natal5Eu quero ver o espírito do Natal entre pais que descobriram a homossexualidade dos seus filhos. Eu quero ver tolerância aos gays em todos os segmentos sociais brasileiros.

Eu quero ver o espirito do Natal entre os gays jovens, na gentileza de quem oferece o banco para um idoso, na paciência com os doentes, na mão que apoia o deficiente visual na travessia das ruas, no ombro amigo que se oferece para quem anda meio triste, perdido.

Eu quero ver o espirito de Natal invadindo os bares e boates gays de todo o Brasil. O respeito e a fraternidade para com todas as idades, gêneros e formas de expressão da sexualidade.

Eu tenho fé no que virá em 2013 porque acredito ser possível excluir as diferenças, pois assim nos tornamos iguais.

Por fim, eu quero ver o espirito do Natal através do abraço fraterno, do prazer de viver sem drogas e bebidas, do riso franco, do desejo sincero de ser feliz e de tão feliz, não resistir ao desejo de fazer outras pessoas, também felizes.

A você caro leitor, os meus sinceros votos de um FELIZ NATAL!

Natal gay – Doação livre a amorosa

mundo_gay_natal2Doar espontaneamente e com amor são atitudes raras no mundo gay. Atrás de cada atitude de doação existem interesses, financeiros, materiais ou sexuais. Mas eu vejo os gays como seres humanos prontos para doar, apesar de individualistas, frágeis, solitários e carentes.

As carências são oriundas da falta de amor e compreensão de familiares e pessoas acerca da orientação sexual. Não dá para exigir amor e compreensão, porque a doação deve ser livre e amorosa.

Os gays de todas as classes sociais sofrem discriminação de todas as naturezas. Essa gama de acontecimentos deixa marcas profundas. Uma parcela de indivíduos gays prefere não tocar no assunto, porque é doloroso lembrar-se dos traumas vividos durante a vida. As humilhações são como cruzes fixadas num painel imaginário e acompanha cada indivíduo na sua jornada até o fim da vida.

Cada um tem uma história e sempre são histórias tristes e doloridas e isso conflita com doação e amor. Doar tem vários significados e amar é algo muito além do jardim das adversidades do mundo gay.

No decorrer da nossa existência aprendemos que tudo o que acontece conosco é consequência de nossos atos e atitudes. Minha mãe sempre dizia: colhemos o que plantamos – Eu aprendi às duras penas o valor do amor e a partir dai a doação passou a ser um ato espontâneo.

Muitos leitores me perguntam como eu consigo manter o pique depois de quatro anos e dedicar tanto tempo ao blog dos Grisalhos. Eu respondo que eu faço isso como uma doação e com uma parcela de amor. Eu gosto de escrever, então porque não tratar de temas inerentes à homossexualidade masculina na maturidade e terceira idade?

Você pode doar dinheiro, alimento, roupas, mas a doação mais importante não tem valor material. A doação mais significante é poder ajudar algum semelhante em algo que não estamos acostumados a dar, carinho, afeto e amor. Não precisa ser homossexual para receber a sua ajuda, pode ser uma criança, uma família carente ou pessoas doentes.

O espírito natalino existe dentro de cada um a fim de proporcionar um natal mais alegre e justo ao seu semelhante.

sunday on pot with george

Um homem fraterno e amoroso

Alcides vivia sozinho, sem família, parentes, sem ninguém. Toda semana ele colocava a melhor roupa e ia para os locais de frequência de gays idosos nas imediações da Praça da República. Um dia eu encontrei o Alcides na rua e perguntei onde ele estava morando. A resposta foi rápida: Moro numa pensão lá pelas bandas da Praça da Sé em São Paulo. Alcides era aposentado e tinha boa saúde, mas com idade avançada os gays não se interessavam por ele, pois ele não tinha nada a oferecer. Nem dinheiro, boa comida, roupas, viagens, etc..

No ano seguinte encontrei novamente com ele na véspera de Natal e pra minha surpresa ele estava acompanhado de um gay maduro. Ele me apresentou o seu companheiro e disse que estava vivendo um período de muita doação.

Aquele foi o último encontro. O Alcides faleceu dois anos depois. Ficou na minha memória as lembranças do homem dócil e gentil, de fala mansa e pausada. Alguém que viveu a maior parte da vida sem ninguém e mesmo assim, não perdeu o que ele tinha de melhor, a fraternidade e o amor pelas pessoas.

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