A vida dos gays nos anos 60

Vasculhe a Internet e você encontrará tudo sobre a história e os movimentos gays (gay power) na América e na Europa na década de 1960, mas não encontrará nada sobre a vida dos gays no Brasil. Os poucos relatos ou registros estão em obras do João Silvério Trevisan ou trabalhos acadêmicos de sociologia.

Ser gay no Brasil naquela época não foi diferente da década anterior, mas a classe média e alta vivia uma explosão de juventude em todos os aspectos e influenciados pelas ideias de liberdade os gays aderiram à nova ordem mundial da contracultura.

É óbvio que diferente do que rolava nos Estados Unidos e Inglaterra os jovens gays brasileiros também mudaram os seus hábitos e passaram a caminhar pelas ruas e influenciaram novas mudanças de comportamento. Ainda assim, a maioria dos gays principalmente os maduros e idosos não tinha coragem de sair dos guetos para as ruas. Esses continuaram confinados nos poucos bares das principais capitais brasileiras.

Nesse cenário, a transformação da moda iria ser radical. Era o fim da moda única, que passou a ter várias propostas e a forma de se vestir se tornava cada vez mais ligada ao comportamento. O Jeans é a marca registrada daquela época e no Brasil poucos tinham acesso às calças importadas.

Cidades como São Paulo e Rio de Janeiro passaram a atrair os gays de outras cidades e capitais brasileiras que buscavam oportunidades de estudo e trabalho, além da liberdade sexual. Dai surgiram as pensões “somente para rapazes” e que foram cenários urbanos de experimentações da homossexualidade masculina.

No decorrer dos anos 60 esse modelo se multiplicou por outras capitais brasileiras: Recife, Fortaleza, Belo Horizonte, Curitiba e Porto Alegre. Naquela época não tinha as tribos atuais de bears, daddies ou barbies e a totalidade dos gays circulava pelas ruas com “cara e jeito de homem”. Os efeminados, travestis e prostitutos já circulavam e faziam parte dos guetos urbanos de prostituição desde os anos 1930.

Um gay de 65 anos relata como ele vê aquela época:

O Rio de Janeiro e São Paulo, que na condição de grandes metrópoles, eram vistas como acolhedoras de jovens do interior cuja coragem permitia-lhes partir em busca de seus desejos naturais, desde que sem a necessidade, ao menos imediata, de montar fontes de batalha em casa. Esses gays logo passaram a vincular sua distância social baseando-se nela, isto é, expressando-se por meio de extrema libertinagem sexual. Eu mesmo vivi loucamente aquela época em São Paulo e pensava em sexo todo dia porque na minha cidade isso era impossível. Caçar homem na cidade grande era um esporte saudável e arriscado, mas valia a pena porque mesmo “enrustido” eu me sentia livre.

Nos anos 60 os gays ainda se escondiam por trás de denominações características, como: os classificados dos jornais, os famosos “banhos de piscinas” e os “bares alegres”.

Nos classificados dos jornais da época os anunciantes usavam pseudônimos e buscavam os diversos tipos de gays, desde garotos de programa, companheiros fixos até aqueles que buscavam um parceiro que o sustentasse.

Os anúncios de banhos de piscinas eram utilizados para mascarar o famoso “banheirão”. Sim, encontros eram marcados nos anúncios para não haver o perigo de ser pegos pela polícia. O anunciante publicava o local, os dias e horários que estaria no banheiro público.

Por fim, os bares alegres eram contaminados de alegria homossexual e frequentados por gays de diversas idades e origens sociais. Um espaço onde o principal tema das conversas era o terceiro sexo.

Mesmo com alguns locais nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro a vida dos gays ainda era restrita, pois temiam a descoberta de sua sexualidade perante as denúncias públicas, aos castigos corporais, prisões em delegacias e alguns casos, inclusive, de morte.

As festas gays ocorriam em chácaras e sítios nas cercanias das cidades ou em casas no litoral. O acesso era difícil e no boom automobilístico daquela década o carro era a condução discreta para vários colegas e amigos se fartarem em finais de semanas de orgias, bebidas e muito sexo.

Na década de 60 surgiram os primeiros bares gays.  O famoso bar Caneca de Prata em São Paulo existia desde 1943 como Pierrot, mas o nome famoso surgiu em 1965. A Boate La Cueva no Rio de Janeiro foi inaugurada em 1964. O Paribar foi inaugurado em 1949, mas somente nos anos 60 os clientes gays se misturaram aos intelectuais e boêmios. Ah, não posso me esquecer do famoso Gala Gay do Rio de Janeiro.

Hoje todo mundo conhece a palavra BIBA por conta do personagem Clô daquela novela Fina Estampa, mas quase ninguém sabe que o termo foi roubado dos anos 60, alguns dizem que foi o Clóvis Bornay – Biba foi uma butique da moda daquela década, frequentada por personalidades da época.

É importante mencionar os gays anônimos que foram mortos nos porões da ditadura militar, principalmente, entre 1964  e após o AI5 de 13 de dezembro de 1968. Os gays de todas as partes do país que chegaram às cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, estudantes que buscavam educação e a sua liberdade de expressão, inclusive, a sexual.

Caro leitor, se você tem memórias sobre a vida gay dos anos 1960, registre em comentários. Infelizmente, ou felizmente eu era criança e minhas memórias tem referências a partir de 1974.

obrigado

Regis – blogueiro dos grisalhos

Leia também:

** A vida dos gays nos anos 50

Anúncios

Sobre Regis

58 anos de idade, residente na cidade de São Paulo

Publicado em 21/11/2012, em Comportamento, História, Memória, Sociedade e marcado como , . Adicione o link aos favoritos. 5 Comentários.

  1. Só agora notei este “post”. Lembro que adolescente tentava fugir das experiências homossexuais da infância e só procurava mulheres. Não porque fugisse do homossexualismo, mas porque gostava mesmo.

    Na década de 1950 um grupo de meninos do qual eu fazia parte, costumávamos fazer “meia”, o troca troca. Dizíamos uns ao outros que se dávamos e comíamos, não eramos viados.

    Viados era seres distantes. Na vizinhança tinha um menino afeminado, que nunca convidamos para fazer meia, nós não éramos viados… E ele um dia apontou um senhor já idoso e disse que ele era um viado que tinha um apartamento só para dar a bunda. Não sei como ele soube.

    Um dos meninos do grupo, já adolescente nos anos 60, começou a sair com ele. O senhor pagava aos jovens para ter sexo. Este amigo passou a frequentar o círculo secreto deste senhor fazendo muitos programas pagos.

    Vi várias coisas assim, os rapazes não se consideravam homossexuais, viados eram os outros…

    Minha imagem dos homossexuais era de pessoas mais velhas que pagavam por sexo. Como o sexo era mais difícil, nós nos iniciamos pagando prostitutas até que as namoradas começaram a fazer sexo conosco. Mas a imagem dos homossexuais para mim continuava. Acho que isto me afastou por muito tempo de aceitar minha bissexualidade.

    Que bom que o mesmo movimento na sociedade que liberou as meninas para transar conosco, também liberou-nos…

  2. elvis justino stronger

    gente amei esse blog parabens gostaria de conhecer alguns de vcs pessoalmente pra conversarmos sobre essa epoca

  3. Eu vivi (ou sobrevivi a) essa época. O jeans + cobiçado era a calça Lee “desbotável”. Existiam também a Cone e Levis, todas importadas, que eram oferecidas nas ruas de S. Paulo e vendidas em locais escondidos.
    Quanto ao movimento homossexual, sempre esteve nas sombras, por isso mesmo os banheiros públicos, que eram em maior número, ferviam. Conheci vários homens que contraíram AIDS lá mesmo, e logo morreram, pois não havia tratamento.
    Uma vez a polícia entrou no banheiro do Anhangabaú. Eu vi, tentei disfarçar e sair pelo outro lado. Um policial percebeu, deu a volta, sacou a arma, apontou para minha cabeça dizendo: QUANDO É QUE VOCÊ VAI PARAR COM ESSA PORRA?
    Apesar disso sou fã incondicional da PM.

  4. paulo azevedo chaves

    Eu vivi no início da década de 60 no Rio, onde estudava Direito na PUC.A vida gay era intensa, sobretudo na Galeria Alasca (Copacabana) e no bar-restaurante La Gondola, frequentado por intelectuais e escritores gays, e que ficava na rua transversal ao hotel Miramar. A praia de Copacabana, em toda sua extensão,mas sobretudo em frente ao Copacabana Palace, também era ponto de encontro e de pegação para os gays de todas as classes sociais.A liberdade e a descontração eram a tônica nesses points, pois o Golpe Militar só aconteceu em 1964, quando eu estava na França, no gozo de uma Bolsa de Estudos do Governo Francês. Felizmente.

    • Paulo Azevedo, nessa época você viveu num espaço privilegiado… Na década de 60, não sendo fácil para os gays, mas, existiam bons lugares para freqüentar discretamente. Não posso comentar nada; não sou dessa época, só quem viveu sabe. Mas, pelo o escrito do artigo, no meu ponto de vista existiam algumas coisas boas. Os gays são aventureiros, muitos gostam das coisas no armário, não por repressão social, da sua personalidade mesmo; ou será herança cultural?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: