Gay idoso é a bola da vez

Quando se fala em “bola da vez” lembramos do jogo de sinuca e também de coisas boas ou ruins, neste caso, as coisas não são nada boas, mas também, não são tão ruins.

O declínio da crença de que uma velhice bem-sucedida associa-se a eventos sobrenaturais, à sorte, ou ao coroamento de uma vida virtuosa coincide com a ampliação da crença na ciência como a fonte mais confiável de compreensão dos fatos naturais.

Assim, o ser humano passou a conviver com cada vez mais informações sobre fatores que conduzem a uma velhice bem ou malsucedida. É dado científico que a velhice caracteriza-se pelo declínio das funções biológicas, da resiliência e da plasticidade. Ainda que ocorram de forma diferenciada entre pessoas, as perdas que caracterizam a velhice provocam o aumento da dependência dos indivíduos em relação aos elementos da cultura e da sociedade – No Brasil  isso é mais evidente para os gays, porque trilhamos a estrada da vida, solitários, confinados no armário da homossexualidade, numa sociedade hipócrita e machista.

Por outro lado, e ao contrário do que se pensa, é possível a preservação e ganhos evolutivos em determinados domínios do funcionamento, como o intelectual e o afetivo, sendo este último capaz de atuar de maneira compensatória sobre as limitações cognitivas.

A velhice por si só já é um drama e sendo gay a coisa é ainda pior, mas sempre existe esperança enquanto existe vida.

Eu conheço um idoso de 78 anos, gay e sozinho, entenda, sem companheiro para relacionamento afetivo ou sexual, que sempre usufruiu o que a vida lhe deu de melhor, até que definitivamente a velhice bateu à sua porta.

Os primeiros sintomas foram o cansado, as dores nas juntas e nos membros, e a perda de alguns sentidos – a vida ficou mais lenta, tudo passa mais devagar, inclusive as dores musculares. Sendo um gay idoso ele se viu sozinho e a maioria dos parentes e amigos já partiu desta vida.

Numa conversa ele me confidenciou que mesmo que se tenha bom astral, o incomodo do corpo enferrujado faz mal à cabeça e é preferível ficar em casa a se aventurar em eventos externos, fato que eu contestei por acreditar que na velhice podemos acrescentar à nossa vida alguns fatores intelectuais e afetivos.

É o momento de descobrir a leitura diária, participar de eventos sociais de artes e espetáculos e se arriscar em relacionamentos afetivos e não sexuais, seja com companheiro ou algum amigo.

Ser a bola da vez não quer dizer que é o fim, mas significa que chegou a sua vez.

A velhice dos gays é vista como algo negativo desde a juventude, pois a maioria dos jovens gays cresce vendo os gays idosos serem tratados pelos estereótipos de “bicha velha”, “improdutivos”, “rabugentos”, o que determina a construção de uma imagem negativa do envelhecimento dos gays.

Certa vez eu ouvi a seguinte frase numa roda de gays: “velho gay só serve para financiar a boa vida dos jovens e michês ou pagar momentos de diversão para ocupar o tempo e a mente” – Aqui está mais uma visão negativa da velhice dos homossexuais.

Ser a bola da vez no século XXI é ter acesso à informação, inclusive, informações sobre envelhecimento, corpo e mente. Hoje é comum os gays idosos deitarem no divã do analista e abrir o jogo sobre a sexualidade e seus problemas emocionais e psicológicos. Também, existe um contingente de gays que curte os gays idosos para sexo e amizade – 

E para finalizar, uma triste constatação: Os gays idosos simplesmente desaparecem dos espaços públicos e privilegiam os espaços privados por questão de visibilidade da vida dupla de ser homossexual e também, ainda estamos distantes da plenitude da velhice gay – da Bola da Vez de Fato!

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Sobre Regis

57 anos de idade, residente na cidade de São Paulo

Publicado em 12/09/2012, em Saúde, Sexualidade e marcado como , . Adicione o link aos favoritos. 8 Comentários.

  1. Certa vez indo para meu curso, em uma tarde em Belo Horizonte, encontrei uma senhara na rua.. eu estava com RS 5 em moedas na mão, sem ela pedir nada , dei na mão dela,
    A sensação de ver seu rosto abrir sorriso foi indescritível
    Sabe aquele arrepio, quando os cabelos do braço se ouriçam foi lá na alma.
    Independentemente de ser homem, gay, mulher , etc… não podemos esquecer que nos faz humano são nossos atos…

  2. Não cheguei a ler todos os comentários, mas o texto eu li.

    Concordo em alguns termos sobre bola da vez..:

    Claro que existem muitos gigolôs (miches), mas ainda sim tem pessoas mais novas como eu que se sente fascinada por alguem bem mais velho que eu,.
    O prazer de estar com alguem mais velhos , a experiência de vida( conhecimentos) característica física, para mim é algo que me da mais prazer que uma relação sexual, pode sentar conversar, ou passar tempos juntos, isto é gratificante.

    O problema hj é que as pessoas vê o próximo como um step.

    As pessoas estão pendedendo aquilo que nos torna humano.

  3. Eu discordo plenamente quando falam que jovens são interesseiros, eu gosto somente de homens acima de 50 anos, já cansei de relações casuais, agora, da mesma forma que os homens maduros que gostam de jovens querem um corpo bonito e novo ( isso não é ser interesseiro também????),sou seletivo e não curto homens com qualquer traço feminino, percebo que homens maduros realmente interessantes, discretos e que procuram relacionamento, preferem os homens da mesma idade.
    Não sou a favor na questão de maduros bancar jovens em tudo, agora um homem com 50 anos ou mais que não tem estabilidade financeira e o minimo de conhecimento cultural? ninguém merece!!!

  4. Eu acho mesmo é que os jovens querem ficar com o INSS dos coroas, se para termos divertimento, nada mais justo, uma vez que os familiares sempre criticam.
    Tipo: Meu tio é bicha, porem quando sobre uma grana estão de olhos arregalados para usufruir, mesmo sendo grana de gay.
    No meu prédio já ocorreu de jogarem todo o acervo do coroa. Fitas, fotos, livros foram para o lixo e venderam o apartamento para racharem o patrimônio.
    Amigos aproveitem o que puderem, deem grana para os meninos te satisfazerem, pois eles repetirão a mesma situação no futuro.

  5. paulo azevedo chaves

    Os idosos — gays e não gays — estão cada vez mais participativos na vida social,vão às academias de ginástica, viajam sós ou em excursões especiais para sua faixa etária, se mantêm sexualmente ativos. Os anos dourados passam, mas é preciso manter o otimismo e olhar para frente com esperança de que dias melhores virão..É assim que eu vejo a vida lá fora. Mas quanto a mim, por uma questão de índole (e não de faixa etária), continuo avesso ao convívio social, “bicho do mato” — como dizia de mim minha mãe quando eu era menino. A gente é como é e não adianta querer mudar.

  6. Parabéns pelo artigo!
    Como entender nossa cultura? Já mais os gays idosos, será inserido na sociedade pelo o que ela oferece: participar de eventos sociais de artes e espetáculos e se arriscar em relacionamentos afetivos e não sexuais, seja com companheiro ou algum amigo (…) (Gay idoso é a bola da vez).
    A culpa de tudo isso esta pautada na cultura, o olhar da sociedade que ver os idosos como um objeto inútil. Não só para os gays, para os héteros também, tornado com o todo.
    No meio LGBT, há também muitos gays jovens e idosos que procura pelos os gays idosos, pelo o fator cultural os gays idosos tendam desaparece vivendo uma vida solitária e também deixando os que lhe procura solitário, criando a solidão para todos: jovens e idosos. Porém, para os jovens a solidão é diferente, por que os jovens ocupam a vida com outros afazeres. Assim a vida passa, e muitos dos gays chegarem à terceira idade na solidão e continuar na solidão. “O triste fim da vida de um gay: um paradigma a ser desvendada na sociedade – a solidão”.

  7. Reportagem inteligente. Esta condição, mais dia-menos dia, acaba atingindo a todos nós. Ingênuos aqueles que, no auge de sua vitalidade, acreditam que a vida demora a passar e que tem o tempo a seu lado, certos de que o uso indiscriminado do mesmo não apresentará sua conta algum dia…viver a experiência de ser gay já é, por si só, algo complicado, ser gay com uma idade avançada, isso sim, representa uma prova difícil de ser vencida…

  1. Pingback: Qualidade de vida dos gays maduros | Grisalhos

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