Arquivo mensal: setembro 2012

O gay idoso no Brasil

Caro leitor, prepare a cadeira porque hoje o artigo é longo

Até 2025, o Brasil será o sexto país do mundo com o maior número de pessoas idosas. Pelo menos segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS).

Essa informação serve de alerta ao governo brasileiro para a necessidade de se criar políticas sociais que preparem a sociedade para essa realidade.

Conforme senso do IBGE de 2010, mais de 20 milhões de pessoas no Brasil tem mais de 60 anos. Estima-se que são mais de um milhão e meio de gays idosos, entre homens, lésbicas e bissexuais.

As necessidades dos gays idosos são semelhantes às necessidades de qualquer idoso heterossexual, homem ou mulher, além de outras necessidades decorrentes da sua sexualidade.

A maioria dos serviços de apoio e as pessoas que trabalham nos cuidados da saúde, habitação ou trabalhos sociais não entendem quando se trata das necessidades e aspirações dos gays idosos, lésbicas e bissexuais.

Na velhice os gays querem as mesmas coisas que os idosos heterossexuais. Isto inclui permanecer em suas próprias casas o maior tempo possível e ser tratado com respeito e dignidade quando necessitam de cuidados ou dos serviços de saúde.

Eu não sou estudioso das questões sociais, mas dá para entender que mais da metade dos gays idosos que vivem nas grandes cidades brasileiras sentem que na velhice a sua orientação sexual tem ou terá um efeito negativo.

Os gays são muito mais propensos do que os heterossexuais a encarar a perspectiva de viver sozinho, com ajuda de alguns poucos amigos ou familiares e, portanto, são mais dependentes dos serviços públicos ou serviços particulares de apoio ao idoso.

O Brasil é um país continente e o gay idoso está inserido em três grandes cenários:

  1. As capitais dos estados e grandes cidades – acima de 1 milhão de habitantes
  2. As cidades médias – entre 150 mil e 1 milhão de habitantes
  3. As cidades pequenas do interior dos estados – até 150 mil habitantes

Nesses cenários há também os regionalismos e as culturas locais que influenciam na forma como o gay idoso expressa suas preocupações sobre o futuro por ter que esconder a sua orientação sexual quando há a necessidade de cuidados sociais ou quanto tem que se mudar para uma casa de repouso que é projetada para os heterossexuais e sobre a falta de oportunidade de conviver com outros gays idosos.

Como no Brasil não existem pesquisas sobre o tema, eu elaborei uma lista de situações para mostrar a nossa realidade em relação aos heterossexuais.

  • Os gays idosos e os homens bissexuais tem mais probabilidade de estar solteiros na velhice do que os heterossexuais;
  • Mais de 50% dos gays idosos, lésbicas e bissexuais vivem sozinhos se comparados aos idosos heterossexuais;
  • Gays, lésbicas e bissexuais idosos tem menos probabilidade de ter filhos ou de conviver com familiares biológicos;
  • Os gays também são mais dependentes de bebidas alcoólicas e drogas se comparados ao universo heterossexual;
  • Lésbicas e mulheres bissexuais são mais propensas do que as mulheres heterossexuais de serem diagnosticadas com quadro de ansiedade e depressão;
  • Os gays idosos têm muita desconfiança e medo quando necessitam utilizar os serviços públicos de saúde ou de apoio social;

Essas situações são apenas alguns poucos exemplos dentro do universo de situações vivenciadas diariamente por todos os gays idosos no país.

As condições atuais são melhores do que as vivenciadas por gays idosos entre a segunda metade do século XX e o início do século XXI, mas ainda estamos muito longe do ideal.  O Brasil está atrasado nas questões das leis e direitos civis da população LGBT.

O problema é real e cada um enfrenta a sua realidade de formas diferentes. A grande maioria do cidadão LGBT, em qualquer cidade do Brasil vive sem o apoio de parentes ou amigos. A minoria privilegiada que preparou a velhice com respaldo financeiro, paga por serviços particulares, mas isso não os privilegia, porque os profissionais das áreas sociais e da saúde não estão preparados para entender nossas necessidades especiais. Essas necessidades especiais não seriam necessárias se houvesse uma cultura favorável à diversidade sexual dos cidadãos brasileiros.

Falam tanto que na velhice a volta ao armário é compulsória para proteger a integridade física e moral dos gays. Falam em asilos privados direcionados à população LGBT, como um confinamento em guetos.

O segmento da iniciativa privada no país consolida produtos e serviços e explora o grande potencial de consumo dos gays, mas não existe nenhuma iniciativa para retribuir o consumo versus compensação de serviços específicos para os gays na velhice. A iniciativa privada não dá aos gays jovens, maduros ou idosos a contrapartida que o segmento GLS contribui nas arrecadações desse Mundo Mix.

Eu acompanho trabalhos acadêmicos que tem como foco o idoso homossexual, mas eu não vejo nada de concreto que me permita ter uma perspectiva positiva ou otimista para a velhice dos gays para os próximos vinte ou trinta anos.

O estado é omisso nas questões LGBT, portanto, o que podemos esperar para o futuro? Enquanto os evangélicos e radicais atacam todas as propostas de direitos civis dos gays em prol da tradicional família, o tempo passa…

Há um êxodo rural dos gays que migram para os grandes centros urbanos fugindo da homofobia e isso se transforma noutro problema que são os gays de rua, moradores de cortiços e grandes bolsões de pobreza, com pouca ou sem nenhuma qualificação profissional. Isso tudo direciona para a marginalidade e o mercado das drogas e do sexo e cria um submundo de cidadãos com baixa remuneração e os mantêm até a velhice numa faixa de baixa renda e dependentes de uma aposentaria oficial inadequada, se comparada às melhores do mundo. Sim, porque o Brasil já é a sexta economia do mundo.

Hoje existem ONGs por todo o país que defendem os direitos dos gays e é possível contar nos dedos as poucas que dedicam espaço para tratar das questões dos gays idosos. A essa minoria os meus parabéns! Isso não é crítica à militância, mas a constatação de que existem outras prioridades de direitos.

Os gays idosos de todas as classes sociais são invisíveis, inclusive, dentro das comunidades LGBT e isso é um indicador que o processo de mudança será mais lento pela não aceitação da velhice como um processo natural e você pode até morrer antes mesmo de ter acesso ao convívio pacífico entre os gays mais jovens e melhores serviços sociais e de saúde.

Os gays idosos mais carentes estão no extrato social que incluem travestis, gays moradores de rua ou de albergues públicos, dependentes de drogas e desempregados. Esses são os excluídos dos excluídos e não pense você porque pertence à classe média ou da classe A que pode se dar ao luxo de pensar que a sua velhice está garantida, porque na hora da necessidade você tem o recurso financeiro para pagar o melhor serviço particular de saúde e social, mas a sua situação é igual à de todos os demais níveis abaixo do seu, porque o que nos iguala é a nossa homossexualidade.

Atualmente os gays idosos sofrem um novo tipo de preconceito. É a homofobia nos asilos. O assunto é pouquíssimo comentado no Brasil, aliás, no mundo inteiro. Na velhice o seu dinheiro pode não garantir um lugar num asilo, porque há asilos, por exemplo, que nem aceitam homossexuais.

Um tipo de ocorrência muito frequente é a homofobia de médicos, plantonistas e enfermeiros e enfermeiras dos hospitais públicos e particulares. Os gays, principalmente os idosos que carecem de cuidados especiais são maltratados nas filas de espera dos plantões, no atendimento emergencial e em exames de rotinas.

Outro fator preocupante é o aumento dos índices de violência. Com mais visibilidade na sociedade os gays são vitimas de homicídios e latrocínios, principalmente nos grandes centros urbanos do país. A violência contra o gay idoso é ainda mais acentuada, face à sua vulnerabilidade física. Não vou entrar nos detalhes da ineficiência dos nossos serviços de segurança pública.

Nas capitais brasileiras estão surgindo as igrejas inclusivas, mas se você fizer uma visita não vai encontrar nenhum gay idoso por lá. Essas igrejas fazem parte de um movimento que visa dar ao gay a possibilidade de externar a sua fé e criar vínculos de amizades. Não se sabe o que acontecerá quando esses gays envelhecerem.

Outro dia um amigo me falou: Se você quer ganhar dinheiro no Mundo Mix comece a pensar em algum serviço privado de amparo ao gay idoso que vive na metrópole e que tem condições financeiras de pagar por serviços qualificados.

Isso ficou na minha cabeça por um mês e após pensar bastante sobre o assunto eu dei a ele os créditos por essa visão tão óbvia. O futuro dos gays idosos no Brasil está nas mãos da iniciativa privada e não do estado porque não existe no Brasil nenhuma política de proteção ao gay idoso e não há perspectivas de que tão cedo tenhamos uma luz no fim do túnel para as questões dos gays, lésbicas, bissexuais e transexuais.

Notas:

  • Caro leitor, esse texto é uma coleção de ideias que fui juntando durante o último inverno brasileiro.
  • Fique à vontade para comentar, copiar, criticar e se quiser compartilhe o texto na sua rede social, blog ou twitter.
  • Eu não sou nenhum sociólogo ou jornalista. Eu sou apenas um cidadão comum, homossexual de cinquenta e três anos e que compartilha ideias comuns aos gays maduros e idosos.

Abraços, Regis

Mais sobre relações estáveis entre gays

Uma vez eu li os resultados de uma pesquisa feita por uma ONG do Rio de Janeiro sobre o comportamento dos homossexuais acima de 60 anos. A pesquisa indicou quase 80% dos gays idosos que declararam viver relações estáveis. Talvez seja esse o motivo de você procurar e quase sempre não encontrar gays idosos disponíveis para relacionamento.

As relações estáveis possuem algumas características bem definidas. Desde a convivência diária onde se cria um vinculo social, também, bem definido até convivências eventuais que perduram por longos anos. Há que se considerar também a homofobia internalizada em cada um de nós porque isso vai direcionar alguns aspectos dessas relações.

Há aqueles que se declaram a favor das relações abertas porque ninguém é dono de ninguém, mas na raiz dessa opção está a incessante busca por um parceiro. As relações abertas pressupõem a liberdade individual de cada uma das partes.

Existem casais que após longos anos de relacionamento acabam partindo para relações abertas devido à acomodação ou à falta de interesse sexual. Daí, um dos parceiros, ou ambos, saem na busca de novos parceiros  e companheiros para sexo.

Enquanto uma das partes não se apresenta com outro parceiro, tudo bem, mas quando aparece um novo pretendente, a situação se complica e aí aquilo que era consenso se transforma numa guerra pessoal, com perdas para ambas as partes, inclusive, com o fim de amizades de longas décadas.

Sentimentos como posse, ciúmes, propriedade de direito à amizade afloram instantaneamente. Talvez isso seja uma defesa natural ou porque os gays são mais passionais do que racionais.

Um dos motivos para “pular a cerca” é não dar conhecimento ao parceiro sobre as relações sexuais fora do relacionamento. Mentir ou omitir é um verbo corrente nas relações. Vale o provérbio popular: “O que os olhos não veem o coração não sente“.

Nas relações estáveis entre os gays, além do sexo, do afeto ou da amizade cria-se um mundo particular e incluir neste mundo uma terceira pessoa é inadmissível. É o que eu chamo de concorrente porque concorre para ocupar o lugar do parceiro, substitui-lo em todas as situações, inclusive, sociais. Para a maioria dos gays é fácil se adaptar a essas situações, mas na velhice é mais difícil.

Essas situações são dolorosas e para minimizar os sofrimentos é melhor romper definitivamente a relação. O tempo se encarrega de cicatrizar todas as feridas.

Toda relação pressupõe um início, um meio e um fim.

Um amigo me falou: Eu posso perder o meu caso para outro homem, mas jamais vou permitir perder a amizade e cortar os vínculos afetivos. Será que isso é possível? Quando uma relação termina, inicia-se um novo ciclo. Aos poucos o ex-companheiro vai se afastando naturalmente. Aqui o tempo também se encarrega de fazer a sua parte.

A partir do momento que outro homem entra na sua vida, ele vai tomando conta de tudo: do sexo ao coração, do cotidiano ao convívio social e até familiar. Muitos preferem iniciar um novo ciclo de amizades, com a exclusão do ex-companheiro para evitar conflitos.

Os gays idosos se apegam aos parceiros e se tornam dependentes deles. Eu posso estar errado, mas a dependência é decorrente do isolamento social, insegurança emocional e solidão presente na velhice dos gays.

Eu conheço alguns gays idosos em relações estáveis que fazem “contratos de convivência” para não perder o parceiro. Alguns chegam ao extremo de transferir aos companheiros parte ou a totalidade dos seus bens patrimoniais como uma forma de compensação. Sim, isso existe e é cada vez mais frequente.

Um casal de São Paulo e que estão juntos há 28 anos é um bom exemplo: O mais velho tem 79 anos e o mais novo 53 anos. O mais velho transferiu todos os seus bens para o parceiro, com a condição de ser cuidado até a morte. O mais velho tem diabetes e outros problemas de saúde e o contrato das obrigações está registrado em cartório. Já as concessões da relação aberta para sexo foram negociadas verbalmente.

Não existe uma fórmula para combater a solidão, mas o aprendizado de cada cidadão gay traz experiências únicas – O que vale pra mim não vale pra você.

Dizem que a solidão é um estado de espírito, mas preparar o espírito é fácil, porque o difícil é aceitar isso no dia-a-dia, pois envolve aprendizado e aceitação das limitações físicas, bem como, amor próprio.

Quando ocorre uma ruptura, os envolvidos sempre perdem, mas um perde mais do que o outro e esse é o mais frágil, o mais dependente, o mais emocional.

Enfim, falar das relações estáveis entre gays não é fácil, mas é possível passar uma mensagem e mostrar que essas situações existem no mundo real.

Veja ai embaixo os posts que estão relacionados com este artigo:

  1. Relação estável entre gays, até quando acreditar?
  2. A difícil arte das relações estáveis entre gays
  3. Porque os gays maduros são assim?
  4. Liberdade e ciúmes dos gays maduros
  5. Gays maduros lidando com separações
  6. Gays maduros descomplicando as relações
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