Os gays e a noite

Ah! Noites de lua cheia, dos poetas e dos amantes.

A noite fascina os seres humanos desde os primórdios da civilização.

E onde os gays entram nessa história?

Os gays viveram confinados no armário durante todos os séculos da história devido à forte discriminação política, religiosa e social de todas as culturas e povos. No início do século XX, principalmente, na América ainda não era possível encontrar gays nos espaços públicos e à luz do dia.

O cidadão gay tinha a sensação de que ele era o único homossexual do universo. Isso valia tanto para quem vivia nas pequenas ou nas grandes cidades. Não existia mídia gay ou grupos organizados, portanto, era um mundo de incertezas e medos, onde 100% dos gays eram enrustidos. Há registros de homossexuais que passaram pela vida sem nunca ter tido uma única relação sexual com outro homem e poucos experimentaram o sexo com apenas um parceiro durante a vida.

Além de estar no grupo das minorias o gay também pertencia a um grupo marginalizado socialmente (ainda é) e isso fez com que os homossexuais saíssem à procura de espaços alternativos para afirmar a sua sexualidade e passaram a viver na clandestinidade em bordeis, bares, becos e casas de espetáculo, principalmente, musicais – Muitos gays viviam da arte do teatro e da música –  A figura do homossexual faz parte do cenário da boemia.

Os ambientes noturnos sempre foram povoados de personagens ambíguos. Donos ou gerentes de bar, cafetão ou cafetina de bordel, homens da segurança dos locais privativos, os bêbados e drogados das ruas e becos e até os policiais militares que faziam a ronda conheciam a rotina e os personagens que passeavam na penumbra ou à meia luz, numa busca frenética de outros corpos para saciar o prazer carnal.

Os policias abusavam do poder contra os homossexuais, além de extorqui-los pois sabiam que eles tinham pavor de tornar pública a sua sexualidade. Se isso acontecesse, invariavelmente, perdiam o emprego, eram expulsos de casa e eram submetidos às sanções penais e humilhações públicas.

A partir da revolta dos gays contra a polícia no Bar Stonewall Inn na cidade de Nova York em 1969, o cenário da repressão noturna se transformou e os gays começaram a escrever uma nova página na história.

Ainda hoje a maioria dos gays preza pela privacidade que é uma questão fundamental. As experiências de preconceito e violência ratificam que a conquista do espaço público é uma realidade ainda distante.

Hoje cada ‘tribo’ tem seu ‘point’, como se fossem ‘guetos’ formados por pessoas iguais e com os mesmos objetivos. Sendo assim, os guetos homossexuais têm grande importância para o grupo, por serem espaços de afirmação. Acredito que esta seja a razão pela qual os gays saem do armário à noite: porque têm a possibilidade de serem vistos e desejados, livres de preconceitos.

Eu costumo dizer: Se de dia prevalecem as relações profissionais, a noite é o momento das relações subjetivas.

Há elementos banais, mas significativos, sobre a importância da noite para os gays. O ambiente escuro, por exemplo, preserva o anonimato e estimula a imaginação e o desejo.

Hoje fugindo do preconceito do espaço público, o gay frequenta ambientes essencialmente protegidos. Os shoppings centers, espaços atemporais e privados, são palcos de encontros. A Internet, além de atemporal, é democrática, na medida em que quase não há censura a qualquer tipo de expressão e, por isso, tornou-se rapidamente um meio muito popular entre o público gay. Sem rostos, nomes ou família, o público gay de todas as idades lota as salas de bate-papo durante toda a madrugada, marcando encontros, praticando sexo virtual ou trocando fotos e dados pessoais.

A noite é a companheira inseparável dos gays porque lhes permite encontros e prazeres. Durante o dia todos se misturam e não se sabe quem é quem. Na noite quem é gay vai para a sauna, a boate ou bar  e pode assumir a sua homossexualidade, sem represálias.

Hoje as Drag Queens fervem e são estrelas na noite de qualquer grande cidade brasileira. Todas as noites os gays novatos são inseridos nos ambientes de socialização e aprendizado, enquanto para os gays maduros a noite é um sonho distante dos áureos tempos da juventude e para os idosos a noite é um fantasma que traz a sensação de que pode não haver outra noite.

Quando enfim chegar a noite, os gays ficarão tesudos por corpos, bundas e rolas.
Cacetes adormecidos se erguerão entre os arranha-céus da cidade.
Na calada da noite o mauricinho se transformará no viadinho do pedaço.
O pai de família arregaçara o rabo para o travesti sedento e safado.
O seu vizinho enrustido será enrabado sem medo de ser feliz.
Os sons da noite sufocarão os gemidos de prazer do jovem, do mauricinho, do pai de família e do seu vizinho e quando a madrugada chegar eles adormecerão numa cama quente e macia à espera de outro dia, outra noite.

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Sobre Regis

57 anos de idade, residente na cidade de São Paulo

Publicado em 01/08/2012, em Comportamento, Sociedade e marcado como . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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