O bom humor dos velhos gays

Quem disse que velhice gay é sinônimo de solidão, depressão e rabugice? Que nada, o mundo mudou e com ele o comportamento e a vida dos gays maduros e idosos.

É certo que o lado ocidental do mundo tem na juventude o ideal da beleza e vitalidade, provocando nas suas sociedades o esforço permanente da busca da felicidade de ser eternamente jovem. Ou de o ser até certa altura, para depois usufruir o tempo de vida passado com lembranças, experiências e outras coisas bonitas que só existiriam lá, na juventude.

Muitos gays maduros e idosos são dinâmicos, alegres, criativos e de bem com a vida e até usam artimanhas para driblar a velhice de forma humorada e até com sarcasmo. São verdadeiros artistas!

Frequentemente eu recebo e-mail com muitas histórias, da vida real, elas são tão tristes quanto divertidas. Separei alguns relatos com pitadas de humor. Numa delas um gay aposentado me escreveu exatamente assim:

Eu corro atrás do que eu tenho vontade, mesmo que eu tenha que pagar por isso – Pago michês todas as semanas e quando chega o fim do mês a grana dos garotos acaba e ai eu lanço mão de outras estratégias para não ficar sem sexo. Em alguns casos eu pago os garotos em suaves parcelas mensais e sem juros.

Noutro e-mail de um senhor de 66 anos, a história pode parecer sacana, mas também tem humor.

Eu e o meu parceiro moramos juntos num apartamento em Copacabana no Rio de Janeiro. Eu tenho paixão por ele e mantenho uma fidelidade sem igual há quase dez anos, mas a fidelidade dura o exato momento que o meu garoto sai para ao trabalho. Basta ele fechar a porta para eu me aprontar e sair nas caminhadas matinais no calçadão. Todos os dias eu encontro os meus parceiros e sempre rola muito sexo. Não sei por que, mas eu tenho a certeza que isso não é traição, é apenas uma forma de prazer fora da relação. Ademais, meu companheiro é o único herdeiro dos meus bens, ele só não vai herdar os meus amantes.

Um terceiro idoso escreveu:

Eu não sou coitado enclausurado, distante do mundo, que precisa pedir licença para buscar meus prazeres. Quando estou com vontade de gozar, eu ligo o computador, entro na sala de bate papo, me identifico como um fazendeiro rico e aparece um monte de homens querendo me ver no Webcam. Depois do gozo eu mando todos eles se foderem e sigo a minha rotina diária que invariavelmente, inclui passeios na companhia de um amigo, aliás, uma biba velha, bem maricona que está esclerosada e acha que ainda vai encontrar o príncipe encantando, coitada!

Eu sempre defendo a ideia de que os gays na maturidade não podem viver reclusos e isolados. O presente está apenas a um passo da morte.

Na primeira história é o caso clássico de pagar michê. Combinar sexo com o garoto e pagar em suaves prestações é uma inovação.

A segunda história é comum entre os gays. Relações estáveis e duradouras envolvendo gays idosos pressupõe laços de amizade, mais do que o sexo e a traição faz parte do cotidiano dos casais. O parceiro herdar os bens materiais, mas não os amantes é uma narrativa inusitada e original.

O terceiro relato é sobre o mundo digital, de acesso à Internet, redes sociais e salas de bate papo. Os gays são facilmente enganados com a falsa identidade de um fazendeiro. Qual homossexual não gostaria de encontrar um na sua vida? É um fetiche comum e breve postarei um artigo sobre isso. O gay idoso dessa história é quem engana os seus pretendentes, quando na maioria das situações ocorre justamente o contrário.

Eu conheço gays idosos que vivem a vida com bom humor. O Mário é um grisalho sempre bem humorado, de bem com a vida, sem parceiro há mais de vinte anos e católico praticante. Vai às missas duas vezes por semana, é devoto de Nossa Senhora do Pilar, mas não acredita em milagres, principalmente, se a situação envolve sexo e homens.

O Carlinhos é daquelas bichas afetadas e que tem a língua venenosa. Outro dia numa conversa sobre um falecido ela disparou: “Eu espero que aquele safado esteja queimando no inferno”. A forma como cuspiu a frase foi cômica e hilária porque conheço o Carlinhos há quase trinta anos e sei que no seu coração não tem maldade, apenas a sua língua é venenosa e aquilo foi uma forma de expressar a sua comoção e tristeza com a perda do amigo inseparável.

Caro leitor, as histórias relatadas neste post demonstram existir um contingente de gays envelhecentes ávidos pela VIDA. Leia novamente o segundo parágrafo e você perceberá que esses gays estão usufruindo as lembranças e as coisas bonitas da juventude.

Eles são gays da geração pós Stonewall e não importa a forma ou maneira como eles vivem ou se expressam porque o mais importante é estar VIVO e o humor é o melhor remédio para driblar o preconceito.

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Sobre Regis

57 anos de idade, residente na cidade de São Paulo

Publicado em 16/07/2012, em Comportamento, Humor e marcado como . Adicione o link aos favoritos. 7 Comentários.

  1. Homem idoso,cabeça branca e gordinho, é muito lindo e eu adoro .

  2. O blog tava precisando de um depoimentos deles, bom humor, alto astral, dao um upgrade para amizades e relacionamentos, espero envelhecer com alegria……

  3. paulo azevedo chaves

    Adorei a história do gay aposentado que, quando a grana está escassa, paga os michês em suaves prestações mensais sem juros. Fantástico!
    Sociofobia, melancolia e vida em isolamento não têm necessariamente a ver com a idade. A prova disso é que quando eu era criança minha mãe costumava comentar com amigos e parentes que eu era “bicho do mato”.
    Era e continuo a ser, mãezinha querida.

  4. O humor é uma bela arte para os gays idosos, acabar com a tristeza. Acho que todos nós temos a tendência de um bom humor. Na sociedade gay existem vários código de conduta, isso já é um humor natural de nossa personalidade. Eu amo muito meu parceiro, um idoso de bom humor, que completará 64 anos no dia 25 de julho, e 4 anos no dia 16 de agosto que estamos juntos. Na noite passada com este frio de São Paulo, meu parceiro falou que ia molhar a cama, pois cama molhada esquenta como roupa molhada no corpo e seca rápido. No cotidiano ele é sempre jovial. Quando ele esta na fila do caixa do supermercado ou do banco, sempre inicia conversas com os outros idosos, falando que a fila preferencial é dos garotos de 18 anos, e tem que ter muito cuidado como esses garotos. E quando estamos juntos, eu falo pra ele que não precisa sair por ai falando que é um garoto, todos estão vendo que ele é um velho; e ele me diz que já viveu para ser velho e eu estou vivendo para ser velho… Amo muito o meu coroa!

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