Arquivo mensal: julho 2012

Da pederastia à homossexualidade

Um pouco de história não faz mal a ninguém – Então vamos aos fatos:

O termo pederasta remonta à Grécia antiga e eu me lembro de que no início dos anos 1970 muitas pessoas ainda usavam esse termo. Uma vez um senhor pederasta me perguntou se eu também era pederasta.

Ao longo da história observamos mudanças nas palavras e nos termos empregados que identificavam os homossexuais, bem como, o seu significado e as implicações sociais que marcaram cada etapa da evolução da sexualidade humana.

A pederastia remonta à Grécia antiga e era interpretada como rituais sexuais entre homens de idades, hierarquias e classes sociais diferentes. A pederastia clássica indicava a relação entre um homem adulto e outro adolescente. A pederastia implicava na valorização, incentivo e enaltecimento do papel da beleza.

O termo Philia também é da época da Grécia antiga e foi retirado do tratado de Ética a Nicômaco de Aristóteles, e significava a relação de amizade e amor entre dois homens, mas sem relação sexual. Nas sociedades gregas isso era entendido como a valorização da predileção por companheiros do mesmo sexo.

No início do século XIX surgiu o termo Uranismo. Nome estranho não? Nunca ouviu falar?

A origem do termo uranismo para caracterizar a homossexualidade é obscura. Platão afirmava que Urânia era a ninfa gerada por Urano, mas sem mãe. Urânia era a senhora do universo, representada com um globo terrestre em suas mãos. Ela tinha uma varinha, com a qual indicava a direção dos astros. Outra fonte da origem do nome pode vir da mitologia de Urano, o deus do cosmos, filho de Gea (terra), para outros o filho do Mar. Segundo Cícero, Urano é pai de Vênus com Hémera. Mais tarde, Urano é mutilado por Cronos e das gotas de seu sangue nascem gigantes e ninfas

O uranismo significa inversão genital. Na tradição mitológica antiga eram conhecidos dois tipos de uranismo:

a) a inversão artificial, que significava apenas um vício da relação homossexual;

b) a inversão perversão, considerada uma degeneração mental.

Dentro destes dois campos, há inclinações para a homossexualidade com rejeição ao sexo oposto e há outra forma de homossexualidade que é a indiferença ao sexo oposto. Para estes, a vida sexual normal produz um cansaço, repulsa e até impotência. A partir desta situação, instala-se um comportamento genital anômalo. O amor uranista (invertido) é uma caminhada normal, na esfera psíquica, uma vez que ele possui todas as fantasias, caprichos, bem como paixão e violência. Na prática, no entanto, se efemina nos homens e se masculiniza nas mulheres.

Nas sociedades da época o uranismo implicou nas lutas por direitos sociais pautados na base biológica desta característica.

A partir da segunda metade do século XIX surgiu o termo homossexual que significa Indivíduos biologicamente atraídos por pessoas do mesmo sexo. As implicações sociais eram pautadas em Intervenções científicas de conversão e “normalização” da prática sexual.

No começo do século XX o termo homossexualismo passou a ser usado com a conotação de doença, com a efeminação como sintoma. As sociedades ocidentais, principalmente, a médica indicava que a doença podia ser prevenida e que poderia ser “curada”. Mais de um século depois, o termo ainda é usado indevidamente por pessoas que têm uma visão negativa da homossexualidade.

A partir da segunda metade do século XX o termo homossexualidade trouxe a ideia de que ser homossexual é um modo de ser do indivíduo. A palavra dá ênfase aos aspectos psíquicos e afetivos. Coincidência ou não, o termo homossexualidade trouxe a valorização do individuo e junto com ele a defesa dos direitos dos homossexuais e a condenação da homofobia.

Chegamos ao século XXI com conceitos bem definidos sobre a orientação sexual dos cidadãos. Dai surgiu o acrônimo GLS e depois GLBT que durou pouco porque o movimento lésbico ganhou mais sensibilidade dentro dos movimentos homossexuais e hoje é LGBT . O palavra gay é uso corrente nas mídias que orientam as sociedades modernas, inclusive, a médica.

Você não acorda e pensa: eu sou pederasta ou sou homossexual, até porque a maioria dos homossexuais, não aceita a própria homossexualidade.

Também, é comum as pessoas confundirem pederasta com pedófilo – O sociólogo Massimo Introvigne escreveu o livro Sacerdotes Pederastas. Basta ler as primeiras páginas para associar os padres à pedofilia. No texto se percebe a existência de linha tênue entre a infância e a juventude.

Alguns especialistas recomendam evitar o uso do termo homossexual devido à sua história clínica e porque a palavra se refere apenas a um tipo de comportamento sexual.

Copiando René Descartes – Sou gay, logo existo.

A utilização da palavra GAY pelos próprios homossexuais, a se referirem a si mesmos, fez com que o termo se tornasse universal e não pejorativo.

A história serve para nos lembrar de que a sexualidade humana independe de rótulos ou termos que nos condicionam em caixas, como cobaias de laboratório.

Curiosidade: No Brasil, ainda existe no Código Penal Militar o chamado “crime de pederastia” e se refere a atos libidinosos, sejam homossexuais ou heterossexuais, praticados exclusivamente por militares e no âmbito das Forças Armadas – ai que delícia! e pensar que o Batalhão Sagrado de Tebas era composto por guerreiros homossexuais e ferozes que se mantinham unidos por laços amorosos.

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O bom humor dos velhos gays

Quem disse que velhice gay é sinônimo de solidão, depressão e rabugice? Que nada, o mundo mudou e com ele o comportamento e a vida dos gays maduros e idosos.

É certo que o lado ocidental do mundo tem na juventude o ideal da beleza e vitalidade, provocando nas suas sociedades o esforço permanente da busca da felicidade de ser eternamente jovem. Ou de o ser até certa altura, para depois usufruir o tempo de vida passado com lembranças, experiências e outras coisas bonitas que só existiriam lá, na juventude.

Muitos gays maduros e idosos são dinâmicos, alegres, criativos e de bem com a vida e até usam artimanhas para driblar a velhice de forma humorada e até com sarcasmo. São verdadeiros artistas!

Frequentemente eu recebo e-mail com muitas histórias, da vida real, elas são tão tristes quanto divertidas. Separei alguns relatos com pitadas de humor. Numa delas um gay aposentado me escreveu exatamente assim:

Eu corro atrás do que eu tenho vontade, mesmo que eu tenha que pagar por isso – Pago michês todas as semanas e quando chega o fim do mês a grana dos garotos acaba e ai eu lanço mão de outras estratégias para não ficar sem sexo. Em alguns casos eu pago os garotos em suaves parcelas mensais e sem juros.

Noutro e-mail de um senhor de 66 anos, a história pode parecer sacana, mas também tem humor.

Eu e o meu parceiro moramos juntos num apartamento em Copacabana no Rio de Janeiro. Eu tenho paixão por ele e mantenho uma fidelidade sem igual há quase dez anos, mas a fidelidade dura o exato momento que o meu garoto sai para ao trabalho. Basta ele fechar a porta para eu me aprontar e sair nas caminhadas matinais no calçadão. Todos os dias eu encontro os meus parceiros e sempre rola muito sexo. Não sei por que, mas eu tenho a certeza que isso não é traição, é apenas uma forma de prazer fora da relação. Ademais, meu companheiro é o único herdeiro dos meus bens, ele só não vai herdar os meus amantes.

Um terceiro idoso escreveu:

Eu não sou coitado enclausurado, distante do mundo, que precisa pedir licença para buscar meus prazeres. Quando estou com vontade de gozar, eu ligo o computador, entro na sala de bate papo, me identifico como um fazendeiro rico e aparece um monte de homens querendo me ver no Webcam. Depois do gozo eu mando todos eles se foderem e sigo a minha rotina diária que invariavelmente, inclui passeios na companhia de um amigo, aliás, uma biba velha, bem maricona que está esclerosada e acha que ainda vai encontrar o príncipe encantando, coitada!

Eu sempre defendo a ideia de que os gays na maturidade não podem viver reclusos e isolados. O presente está apenas a um passo da morte.

Na primeira história é o caso clássico de pagar michê. Combinar sexo com o garoto e pagar em suaves prestações é uma inovação.

A segunda história é comum entre os gays. Relações estáveis e duradouras envolvendo gays idosos pressupõe laços de amizade, mais do que o sexo e a traição faz parte do cotidiano dos casais. O parceiro herdar os bens materiais, mas não os amantes é uma narrativa inusitada e original.

O terceiro relato é sobre o mundo digital, de acesso à Internet, redes sociais e salas de bate papo. Os gays são facilmente enganados com a falsa identidade de um fazendeiro. Qual homossexual não gostaria de encontrar um na sua vida? É um fetiche comum e breve postarei um artigo sobre isso. O gay idoso dessa história é quem engana os seus pretendentes, quando na maioria das situações ocorre justamente o contrário.

Eu conheço gays idosos que vivem a vida com bom humor. O Mário é um grisalho sempre bem humorado, de bem com a vida, sem parceiro há mais de vinte anos e católico praticante. Vai às missas duas vezes por semana, é devoto de Nossa Senhora do Pilar, mas não acredita em milagres, principalmente, se a situação envolve sexo e homens.

O Carlinhos é daquelas bichas afetadas e que tem a língua venenosa. Outro dia numa conversa sobre um falecido ela disparou: “Eu espero que aquele safado esteja queimando no inferno”. A forma como cuspiu a frase foi cômica e hilária porque conheço o Carlinhos há quase trinta anos e sei que no seu coração não tem maldade, apenas a sua língua é venenosa e aquilo foi uma forma de expressar a sua comoção e tristeza com a perda do amigo inseparável.

Caro leitor, as histórias relatadas neste post demonstram existir um contingente de gays envelhecentes ávidos pela VIDA. Leia novamente o segundo parágrafo e você perceberá que esses gays estão usufruindo as lembranças e as coisas bonitas da juventude.

Eles são gays da geração pós Stonewall e não importa a forma ou maneira como eles vivem ou se expressam porque o mais importante é estar VIVO e o humor é o melhor remédio para driblar o preconceito.

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