Tula, o Anjo gay caído

A juventude é a melhor fase da vida do ser humano e uma fase de muitas descobertas, inclusive, da sexualidade. Durante alguns anos desvendamos por curiosidade ou ingenuidade um novo mundo, assustador e desconhecido.

A ingenuidade juvenil é acompanhada por uma força estranha que  empurra o jovem para buscas de experimentações, é algo incontrolável, porque a curiosidade proporciona ao jovem gay  experimentações de relações sexuais. De certa forma, tudo isso ameniza a sensação de medo por descobrir-se diferente e cria-se uma falsa sensação de conforto, algo temporário e que aos poucos revela as verdades muitas vezes cruéis de ser homossexual. As descobertas das vulnerabilidades, da condenação social, da violência física e moral deixam traumas profundos e levam alguns jovens gays para um mundo paralelo –  O Mundo dos Espelhos.

Fato Verídico

José Fidélis era um adolescente que aos dezessete anos era “Tula”, uma bichinha residente na periferia de São Paulo, efeminado, afetado e completamente assimilado ao submundo da boca do lixo e dos guetos gay da cidade. Tula vivia os seus dias entre os desocupados, cafetões, marginais e drogados. Quando não estava batendo sapato ela descansava o seu corpo sobre o balcão de um boteco qualquer, sempre acompanhada de copos de cerveja ou cachaça.

O sexo barato era moeda de troca para os cigarros, pequenas porções de maconha e o vício das “bolinhas”, combustíveis necessários para suportar mais de dezesseis horas diárias de caça aos clientes e também para fugir da realidade cruel daquela vida.

Todos os dias desde muito cedo lá estava ela nas ruelas do gueto oferecendo o seu corpo para alguns poucos pederastas que usavam dos seus serviços e abusavam do seu corpo jovem e imberbe. Tula turbinava a cabeça para suportar a batalha diária e sempre gastava  alguns trocados na farmácia onde se abastecia de Optalidon, droga barata, uma bolinha cor-de-rosa e mágica quando ingerida com bebida alcoólica.

As transformações físicas e psicológicas ocorreram durante os dois anos de assimilação nos guetos gay, mas a degradação humana cobra o seu preço e quando não há esperanças de recuperar o rumo da vida é porque o gueto te consumiu. Tula teve várias passagens pela polícia, mas não ficava presa porque era menor de idade.

A vida do jovem José Fidélis findou ao raiar o dia de uma segunda-feira fria, quando o seu sangue escorreu na sarjeta do beco sujo e fétido.

Meses depois….

Por acaso, eu descobri que Tula morava num bairro próximo da minha casa e após algumas investidas curiosas eu soube mais do que eu imaginava.  Eu fiquei sabendo que o José Fidélis foi abusado sexualmente pelo padrasto. A sua homossexualidade já era evidente desde a infância e o homem cruel se aproveitou daquela condição e fez daquele jovem, um refém, o seu amante e a sua mulherzinha – Situações como aquela eram e são comuns na sociedade familiar brasileira.

Tula foi currada pelo padrasto entre os doze e quinze anos de idade e na primeira oportunidade ela cortou o bucho do velho com uma navalha, mas o infeliz não morreu e a vingança veio dois anos depois numa viela do gueto, pois o pedófilo conhecia os seus hábitos e os lugares por onde circulava.

O encontro

Eu conheci Tula numa saída do cine Ipiranga na região central da cidade. Naquela época eu tinha quinze anos e estava desempregado. Ela era louca para transar comigo, mas a minha preferência por homens mais velhos foi um obstáculo contra as suas investidas. Durante dois meses eu frequentei o gueto nas tardes de segunda a sexta-feira e à noite eu ia para o colégio.

O mundo dos espelhos

O mundo gay é semelhante ao mundo de espelhos, planos, côncavos e convexos. O gueto gay e o submundo do mercado do sexo circundam os horizontes longínquos.

São paisagens surreais que aprisionam os gays destinados às tragédias. Nesse mundo os homossexuais estão fadados a uma vida sem esperanças e raras são as vezes que algum deles consegue escapar.

Trinta e sete anos depois, eu ainda lembro daquela fase da minha vida e esteja eu onde estiver sempre vou me recordar da Tula como um anjo gay caído, um anjo que caiu do paraíso e foi sepultado para sempre no Mundo dos Espelhos.

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Sobre Regis

58 anos de idade, residente na cidade de São Paulo

Publicado em 06/06/2012, em Contos da cidade e marcado como , . Adicione o link aos favoritos. 3 Comentários.

  1. Uma história trágica que mostra a influência da estrutura familiar como determinante para a formação da personalidade dos indivíduos.Que filme maravilhoso não daria a história desse menino e adolescente empurrado para a prostituição e marginalidade por seu padastro pedófilo! Atenção, cineastas ou dramaturgos brasileiros: eis aí o enredo pronto e acabado de uma potencial obra prima do cinema ou teatro nacional, com aproveitamento inclusive do título do post. É esperar para ver.

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