A Homossexualidade não é doença

É preciso conhecer um pouco a história e os registros ao longo dos anos para entender porque a homossexualidade não é uma doença.

No passado os gays eram tratados como doentes e anormais. Hoje quase não se fala mais sobre as perversidades do passado e é difícil encontrar registros das atrocidades sofridas pelos gays.

Tentativas médicas de alterar a homossexualidade já incluíram tratamentos cirúrgicos como a histerectomia, castração, vasectomia e até a lobotomia. Métodos baseados em substâncias incluíram o tratamento hormonal, tratamento de choque farmacológico e tratamento com estimulantes sexuais e antidepressivos sexuais. Outros métodos incluíram a terapia de aversão, a redução da aversão à heterossexualidade,tratamento de eletrochoque e hipnose.

Eu me recordo de um fato ocorrido na minha infância e que marcou aquela fase da minha vida. Naquela  época eu tinha 10 anos e na rua onde eu morava tinha um rapaz chamado Lilico e que era efeminado. A família o internou no Hospital Psiquiátrico do Juqueri na região metropolitana de São Paulo na esperança de que ele fosse curado da homossexualidade.

Alguns anos depois ele reapareceu completamente louco e parecia um vegetal devido à medicação e tratamento de choque, além do convívio e  ao confinamento naquele local com pessoas verdadeiramente doentes, alienadas e dementes.

A partir dos anos de 1980, uma visão diferente começou a predominar nos círculos médicos e psiquiátricos, julgando esse comportamento homossexual como um indicativo de um tipo de pessoa com uma orientação sexual definida e estável.

Em 17 de maio de 1990 a Organização Mundial de Saúde retirou a homossexualidade da sua lista de doenças mentais.

Naqueles anos 80 eu já tinha mais de 30 anos e passei a acreditar que finalmente estava livre de ser indicado como um ser doente ou anormal. Em 2001 o psiquiatra Robert Spitzer publicou um estudo científico que pressupunha a conversão de gays. A partir dali surgiram as terapias reparativas.

Atualmente indivíduos e grupos religiosos conservadores têm promovido a ideia de que a homossexualidade é um sintoma de defeitos no desenvolvimento espiritual e moral e têm argumentado que tais terapias, incluindo esforços psicoterapêuticos e religiosos, podem alterar os sentimentos e comportamentos homossexuais.

Hoje eu abri o jornal O Estado de São Paulo e li a matéria sobre o psiquiatra Robert Spitzer que criou a terapia de cura gay dizendo que ela é ineficaz e pedindo desculpas aos homossexuais. Tudo isso porque ele mesmo está doente com mal de Parkinson. Que agonize até a morte.

Mas as implicações que esse ato leviano causou na vida de milhares de homossexuais são irreparáveis, sem contar as perdas de vidas decorrentes de tratamentos reparativos  idiotas e sem eficácia. Incontáveis casos culminando com suicídios.

Volto ao episódio do Lilico para lembrar que eu tive sorte porque a minha família não me colocou nas mãos de psiquiatras incompetentes e alienados daquela época. A vida me mostrou que a homossexualidade faz parte da natureza humana. Quanto ao Lilico eu não tive mais notícias, mas sempre me vem à memória a imagem daquele menino alegre e feliz que teve o curso vida alterado devido à estupidez e ignorância dos pais.

Finalizo com algumas certezas: Hoje aos 53 anos, eu sou um ser humano normal e homossexual. A minha orientação sexual e de todos os gays é de natureza biológica determinada por uma complexa interação de fatores genéticos. Às vezes chego a acreditar que a minha alma é gay.

A orientação sexual não é, portanto, uma escolha, é compatível com uma saúde mental e um ajustamento social completamente normal e saudável.

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Sobre Regis

57 anos de idade, residente na cidade de São Paulo

Publicado em 23/05/2012, em Saúde, Sexualidade e marcado como , . Adicione o link aos favoritos. 9 Comentários.

  1. Josue Martins

    Primeiro quero parabenizar o criador deste blog, toda vez que”entro” aqui fico mais feliz ainda por ser gay, aqui posso ler a minha historia de vida contada, ler comentarios de pessoas inteligentes sem preconceito, fortes, corajosas etc
    cada publicaçao me da coragem para cada dia mais me aceitar, assumir quem sou, assumir pra mim nao para os outros, sofri por ser criado em uma religiao e quando falei que era gay, procurando uma ajuda, fui totalmente abandonado
    Hoje tenho meu namorado da 50 anos e com 21.
    E posso dizer que sou, estoou muito feliz por ser gay
    infelizmente minha mae nao fala comigo, familia despreza dao ate risada de mim
    Mas, isso nao importa pq tenho paz comigo mesmo e meu coroa é maravilhoso e me faz bem !
    Um grande abraço a todos, toda a felicidade possivel pra nos ! 😀

  2. Niedja Maria Guimaraes

    Sou contra a maltratos descriminação e rejeição aos gays, pelo que já li , muitos nascem com esta opção e outros adquirem dependendo dos circulos das amizades , por lhe fazer bem e se sentirem mais felizes. Merecem nosso respeito e acolhida. Seria muito bom as pessoas olharem com olhos do coração.
    Se aparecer na minha família vou amar da mesma forma que amo os héteros.
    Além do mais, os gay que conheço, são bastante asseados e limpos. A impureza está na alma, e não na opção sexual..

  3. Uma bela e profunda abordagem do tema “a homossexualidade não é doença”. Na verdade,atualmente a homossexualidade é amplamente aceita, a não ser em alguns bolsões de intolerância como os fascistas skin heads, evangélicos, Vaticano, aiatolás e regimes islamitas radicais, a exemplo do Irã e Arábia Saudita, e também em algumas ditaduras africanas.O importante, porém,é que a homossexualidade é agora amplamente aceita no mundo ocidental como uma via normal da sexualidade humanal.Para os homossexuais, o mundo é hoje mais acolhedor do que ontem e amanhã será ainda mais receptivo do que hoje.

  4. João Paulo

    Penei um pouco para me aceitar, mas em pouco tempo consegui. Acho que o preço mais alto que paguei foi ir para longe de minha familia.

    Mas não me arrependo e hoje vivo bem e feliz, sem grilos, sem problemas e sem culpar-me por ser o que sou.

    Posso dizer que adoro minha condição e aceito tranquilamente.

  5. Queridos amigos:

    Com eu sempre digo neste blog, o melhor momento é o agora, a abertura é maior assim

    como as possibilidades.Ser gay neste mun do é sem sombra de dúvida é um ato heróico

    de verdadeira bravura, isso para mim é ser macho, na íntegra da palavra, assumir para

    vc mesmo sua condição e trilhar seu caminho….

    isso sim para mim é o que eu posso chamar de liberdade. Marcelo

  6. Eu acredito que a homossexualidade, é da natureza humana, já nascemos “gays”. Como antes a homossexualidade era vista com uma doença e tinha cura; seria hipótese não prova da ciência medica pelo o fato do psiquiatra Robert Spitzer, porém a ciências é muito importante em nossas vidas, mas não para curar a homossexualidade. A doença na maioria das vezes é a estupidez de muitas famílias não aceitar a homossexualidade, no causo da família do Lilico, que transformou um rapaz de orientação sexual diferente, que tinha todo direito de viver e ser feliz, em um doente. Quando a homossexualidade não é aceita pela sua família ou por si próprio, é de fato que acaba virando uma doença seria.
    Eu quando estava entrando na adolescência eu sofria muito, sem saber o porquê eu era diferente, meus amigos andavam falando de paquerar as meninas; enquanto eu ficava desejando ficar junto daqueles homens grisalhos de barba e bigode, desejava ate meus avôs. Mas esses desejos eu não contava pra ninguém. Na adolescência eu já estava doente: de sentir diferente e não aceitar com medo de alguém descobrir, e ao mesmo tempo não satisfazer os desejes que eu tinha por homem. Quando tive a primeira experiência, que foi ate com um amigo de meu pai, na hora senti realizado, depois mas doente, de tanto medo de alguém descobrir. No decorrer do tempo como minhas experiências, fui assumindo para mim mesmo a homossexualidade tirando todas as angustias, e encardo como normal, só ainda não assumi para minha família. Mudei de cidade, hoje tenho 22 anos, vivo há 4 anos com um coroa de 64 anos, sou um homossexual muito feliz.

  7. Se eu, naquela época, tivesse esse mesmo esclarecimento seu, com certeza eu teria sido muito mais feliz. Hoje, eu já me aceito, com a certeza que não posso mesmo mudar aquilo que faz parte da minha personalidade. A duras penas, tive que me curvar perante a homossexualidade rendendo-me ao esforço de mudar o imutável.

    • Eduardo,
      Ser gay é apenas uma pequena parte de todas as variantes do ser humano. Tenha a certeza que eu sofri calado na minha adolescência e parte da vida adulta, mas nunca me curvei às tendências, métodos e tratamentos propostos por simples seres mortais como eu. Medicina e religião nunca tiveram importância na minha formação intelectual. Hoje mais do que ninguém eu acredito na medicina que prolonga a vida e traz esperança à milhões de vidas, inclusive aos gays. Quanto à religião eu acredito em fé porque é essa fé que me fez viver quatro décadas da minha vida, sempre na esperança de um futuro melhor. Portanto, hoje eu vivo a plenitude da liberdade de expressão e da minha sexualidade sem medos ou fantasmas. O Lilico é pra mim um amuleto de sorte que levarei até o fim da minha vida.
      Abraços.

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