Ensaio sobre a cegueira homossexual

Pequei emprestado o titulo do romance do escritor português José Saramago, para apresentar as minhas considerações sobre os conflitos de gerações e a cultura gay da atualidade.

O vasto circuito de bares, boates e outros espaços e nas mídias GLS não é nem de longe comparado às cenas homossexuais do passado.

Talvez o saudosismo das memórias me envolva com paetês soltos de algum vestido longo das travestis dos anos 70 e 80.

As marcas do passado, no entanto, não parecem produzir nas gerações mais novas um sentimento de coragem para enfrentar o envelhecimento. Para as novas gerações os gays mais velhos são apenas figuras do passado, do imaginário popular homossexual. Nas grandes cidades e metrópoles somos “lenda urbana”.

Outro dia passeando na noite paulistana eu vi e ouvi duas bichas  pintosas fazendo chacota de dois gays idosos que estavam naquele bar. Eis um trecho do diálogo:

Essas bichas velhas são corajosas. Não sei o que estão fazendo aqui e como ousam ocupar os nossos espaços. Será que elas não têm consciência que isso não lhes pertence mais? Essas tias são abusadas e teimosas.

Eu chamo isso de cegueira, porque os gays jovens pensam que não vão envelhecer. Veem como uma decadência, impensável, um homossexual monstruoso e destinado à margem da própria margem.

Fica a impressão que existe uma espécie de pânico produzido pela imagem da velhice, talvez porque aponta para uma ideia de fabricação de um corpo LGBT.

Eu penso que isso seja decorrente das lutas institucionalizadas pelos direitos dos gays, inflamadas nas paradas do “orgulho” espalhadas pelo Brasil, com pedagogias de gênero e sexualidade.

O corpo dos gays jovens apesar de bonitos e de padrões desejáveis  revela fragilidade e uma constatação: Talvez não resista às agruras do tempo porque rechaçam o estranho, no caso, os gays mais velhos.

Aos maduros e idosos resta negociar e se adaptar as transformações culturais contemporâneas.

Ah, os bons tempos da minha juventude!  Como são bons os sentimentos nostálgicos de glamour e fechações. Eu tinha paixão de ver as bichas velhas fervendo nos points de pegação. Todas eram tratadas com respeito, mesmo as mais pintosas e atrevidas e os espaços eram compartilhados sem conflitos ou segregação.

É desta forma que tento compreender como se dá o confronto e as experimentações de pessoas que viveram os processos de amadurecimento envolvendo o gênero e a sexualidade presentes deste os idos anos 1950 e, ou que no limite viveram suas juventudes nos anos 1980. Como será que vivem estes gays: Idosos, Velhos, as Bichas Velhas, as Velhas Bonecas?

Todos os gays e principalmente os jovens precisam ler  “as quatro irmãs”, texto de Caio Fernando Abreu para entender as próprias diferenças e perceber que o mundo gay do presente, do passado ou do futuro está repleto de Jaciras, Telmas, Irmas e Irenes e que todas elas envelhecem.

A partir deste artigo eu disponibilizei na parte de literatura deste blog o texto completo de as quatro irmãs.

Leia também:

@@ Caio Fernando Abreu

@@@ O pintor do cotidiano dos gays

Créditos da Imagem: Raphael Perez artista homoerótico israelense

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Sobre Regis

57 anos de idade, residente na cidade de São Paulo

Publicado em 08/05/2012, em Comportamento e marcado como , . Adicione o link aos favoritos. 7 Comentários.

  1. É triste de ver realidades como essa. Infelizmente isso existe! Embora toda regra tenha sua excessão, é trágico ver como gays desmoralizam gays. Sou jovem e repudio esse tipo de comentários. Fico pensando o que esses gays fazem e querem da vida.
    Seria uma tragédia se não fosse verdade. Pasmo!

    Tolero tudo, menos preconceito, seja qual for.

    Bjs

  2. Em Portugal, o fenómeno é contrário: passam dias na malhação, para depois serem comidas pelo vovô barrigudo 🙂

  3. ACHO TUDO ISSO UM SACO!

    ………VOCÊ É UMA BICHA VELHA E ESTÁ OCUPANDO NOSSO ESPAÇO!!!!!…..

    ………E VOCÊ, BICHINHA JOVEM E FÚTIL, QUE NÃO GOSTA DE LER?!

    VAMOS VIVER GENTE!….. O MUNDO ESTÁ AÍ.

  4. elizeu leal

    eu jamais tive coragem e tesao por pessoas jovem tenho 54 anos de idade e nunca confiei nos gays jovens nao me inspiram confiança felizmente foco os meus relacionamnetos com pessoas acima dos 60 anos sao amaveis carinhosos experientes e seguros nao entendo por que este preconceito com as bibas idosas eu reprovo este tipo de comportamento sera que estas bichas novas que sao preconceituosas vao inventar pilulas para nunca chegar a velhice? nós estamos passando alguns anos, meses, dias, horas e segundos nesta vida para que tantos preconceitos gente cada qual tem que viver a sua vida e deixar os outros viver nada como um dia após o outro.

  5. É através da leitura que se aprende a conviver harmonicamente com as diferenças, inclusive as cronológicas. Sem leitura, o aprendizado dos gays jovens se restringe ao meio pleno de futilidades em que circulam.É no passado que encontramos as melhores lições para o presente e futuro.Depender da mocidade para ser feliz é receita certa para a frustação e depressão quando o jovem de hoje logo logo se tornar o maduro ou idoso de manhã.É sempre bom lembrar a todos que a mocidade é breve e a velhice está logo ali, ao dobrar a esquina.

  6. jairo candido

    Faz tempo que manisfestações como a Parada LGBT de sp deixou de ser algo político (virou uma grande orgia a céu aberto: gente pelada, pegação geral e bebedeira e lobby para as coorporações que querem o dinheiro das “bichas” como já ouvi dizer), é uma grande falácia. Nós gays não merecemos o discurso das minorias ao qual os questionamentos são sempre sobre preconceito e discriminação, nós somos tanto ou mais que as demais pessoas, disseminamos conceitos ao assistir programas como Mulheres Ricas ( gays sonhadores foram os que mais deram ibope ao péssimo programa) ao dissimuladamente concordarem com a discriminação a pobres e pessoas com nível cultural mas desprestigiado, discriminam pessoas acima do peso, discriminam os gays mais efeminados, os de 20 anos já julgam os que estão acima dos 30 anos como velhos e pior estão vivenciando sua sexualidade com irresponsabilidade ( Direito individual) estão se contaminando com HIV logo no início da vivência sexual demonstrando o qual a questão do envelhecer é mal resolvida. Se é saudocismo esses seus questionamentos, lamento mas sou saudoso ao 37 anos, afinal acho que o nível cultural dos gays decaiu muito, desaprendemos a nos relacionar como sujeitos sociais que somos.

  7. Vivemos num mundo individualista, os gays jovens acham que só eles têm valor pelos direitos que estão sendo conquistados no meio GLS. Os gays jovens que fazem chacota dos gays idosos, a eles “falta cultura”.
    A cultura que temos hoje é a cultura de massa, que está inserida para os gays jovens. É obvio que as culturas de massa não incluem as “bichas velhas”. Por causa disso é muito comum os jovens ignorarem os idosos; será que esses gays jovens, pensam que sua juventude vai permanecer para sempre?. Tem-se a “bicha velha” e porque tem a “bicha nova”, que vai ser a “bicha velha” do amanhã.

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