As homossexualidades populares

O diagrama deste artigo demonstra a chamada hierarquia popular da rotulação, estigmatização e marginalização da sexualidade masculina no mercado do sexo.

Eu trouxe este artigo para o blog com a finalidade de mostrar que mesmo depois de tantas mudanças sociais e comportamentais das últimas décadas, as pessoas ainda rotulam e marginalizam os gays. O submundo do mercado do sexo sempre existiu e sempre vai existir.

A homossexualidade popular é uma hierarquia de gênero articulada ao papel esperado no ato sexual; ou é ativo ou passivo. É óbvio que existe o papel duplo do “gilete” ou “versátil”, mas isso não é demonstrado nessas hierarquias.

Os clientes procuram as travestis para dar vasão à sua sexualidade e uma parcela de clientes gosta de fazer o papel do passivo – muitos travestis são bem dotados e isso desperta o desejo. Por outro lado os michês se submetem à passividade por questões financeiras e em menor escala por paixões repentinas.

No mercado do sexo não existem diferenças de classe social nos papeis desempenhados e a homossexualidade popular cria uma “hierarquia” de estigma e reprovação social de que são alvo as bichas e travestis, marcando-os com rótulos: Bicha burra, atrasada e sem consciência. Um rótulo comum no próprio meio é a “bicha pobre”.

As travestis são profissionais do sexo com características do sexo feminino e assim como os michês são figuras do cotidiano popular e no caso desse último imagina-se como homens viris. Michês e travestis representam respectivamente o homem e a mulher.

O cotidiano das travestis e michês é povoado de fantasias, medos, perigos e violência, mas também de paixões repentinas e efeminamento do prostituto. São comuns as histórias de garotos de programa que se apaixonam pelos clientes e acabam se submetendo às sevicias dos seus amantes e passam a fazer o papel do passivo. Nessa situação a virilidade fica no passado e para se chegar ao papel da travesti é um passo. Isso não é uma verdade absoluta, mas é um caminho trilhado com frequência por esses personagens.

Assim, a transação entre garotos de programa e clientes tende a conectar, de um lado, rapazes jovens, de desempenho de gênero masculino, ativos, mais pobre e tendencialmente mais escuros, e, de outro, homens mais velhos, passivos, mais ricos e tendencialmente mais brancos.

Do lado dos clientes, rola o desejo e fascínio por parceiros de classe baixa, jovens e rudes, que representam a masculinidade inculta e autêntica, o “homem de verdade”. Do lado dos michês existe o desejo e fascínio para desfrutar de uma série de coisas materiais: dinheiro, carro, apartamento, etc., assim como das possibilidades de novos relacionamentos sociais e do acesso à informação e cultura – a falsa “ascensão social”.

Nos encontros das travestis, michês e clientes a perversão esta sempre presente.  Os personagens reais deste cenário muitas vezes têm desvios de comportamento e taras incontroláveis. Os pervertidos, sadomasoquistas, sádicos, anormais de todas as formas físicas e sexuais circulam livremente nos territórios e bairros do mercado do sexo e tudo acontece com uma normalidade singular. As travestis e michês vivem na corda bamba, turbinados por bebidas e drogas, além de sinais evidentes de delinquência. Michês e travestis sempre portam armas brancas e uma minoria usa armas de fogo.

No mundo do sexo o dinheiro é o motor central da prostituição. Também, desejo e dinheiro anulam qualquer diferença de classe social entre os homens envolvidos.

Os garotos de programa vivem aventuras circunstanciais e tem horror às possíveis formas de apego sentimental. O bordão corrente entre os garotos é “Michê que gosta de cliente é bicha, michê não pode gostar”.

O mundo das homossexualidades populares exerce fascínio e proporciona um cenário de aventura erótica, chega a ser um fascínio ingênuo pela marginalidade. Dinheiro e desejo caminham juntos com a paixão e a violência, de corpos de clientes e prostitutos, homossexuais marginalizados ou adolescentes desvirginados e pobres.

Os acadêmicos dão a isso o nome de “região moral”, que designa um território residual para o qual convergem interesses, gostos e temperamentos ligados à boêmia, ao desejo não convencional, o lugar onde as paixões indisciplinadas, reprimidas, sublimadas encontram vazão.

Eu também considero que as carências e a falta de afeto levam à prostituição e escancaram as desigualdades sociais. O sexo é o subproduto desse processo e a sexualidade é apenas o pano de fundo de todos os dramas humanos.

Créditos: Referências aos textos de Julio de Assis Simões sobre homossexualidades populares – Julio Simões é doutor em ciências sociais e professor de antropologia da USP – Universidade de São Paulo.

Leia também: Gays maduros e os garotos de programa

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Sobre Regis

58 anos de idade, residente na cidade de São Paulo

Publicado em 01/05/2012, em Sexo e marcado como . Adicione o link aos favoritos. 3 Comentários.

  1. Há algo que sempre me intrigou, a persistência da prostituição. A feminina tem algo a ver com o que, certa vez, um famoso ator de cinema respondeu ao ser perguntado como um homem que podia comer (quase) todas as mulheres que quisesse, procurava prostitutas. Disse ele “é que elas vão embora”.

    E a prostituição masculina. Não sei. Tenho visto nos últimos quarenta anos um aumento muito grande de travestis se prostituindo. Se ´há tanto é porque tem procura. Me disse um deles que uns 60% a 70% por cento são ativos. Uma parte faz felação no travesti, mas depois é ativo. O restante é passivo. A maioria esmagadora dos travestis aceita ser ativo. E alguns só querem este papel. ´É comum ao serem abordados irem logo dizendo seu “dote”.

    Uma outra observação é que a maioria esmagadora dos clientes levam vida hetero e são casados com mulher. Arriscaria uma hipótese. Eles nem querem aceitar-se como homo ou bissexuais. São “machos”. Na cultura brasileira ser ativo não é ser homossexual. Como diziam os meninos da minha adolescencia “pois eu comia ela a ainda sai correndo de pau duro atrás de você”. E todos riam da afirmação de masculinidade da frase. Então a hipótese é que os fregueses, em boa parte, se sentem “machos”. Tanto que nem viados comem. Eles gostam de coito anal e procuram a “mulher” que deve gostar, o travesti. E, assim, não se sentem nem um pouco próximos da homossexualidade. E com uma vantagem a “mulher” que lhes dá bunda, também vão embora depois.

  2. Analisando aquela circunferência,num giro de 360 graus., mostra que a homossexualidade
    popular é muito imprevisível e pode tomar muitos rumos.Dependendo do olhar da perspectiva, analisem comigo:
    As pessoas envolvidas:ativos,miches,bichas…. não necessitam estar nesta ordem ou POSIÇÂO ,geralmente isso que se espera, e ke normalmente acontece
    A ponta da flecha pode ser um pênis e a cauda vamos dizer….”bunda”, mas ela pode também rodar no sentido anti-horário onde há inversões de papéis que nem quem
    esta dentro da roda entende, imaginem alguém vendo isto de fora( “heteros” )
    Para essa engrenagem funcionar ela precisa de 2 combustíveis apesar de ser flex:
    -gasolina: dinheiro
    -alcool: sexo.
    talvez essas possibilidades fazem da homossexualidade, algo tão fascinante e inexplicável…

  3. Estamos inseridos numa cultura de consumo, numa sociedade, como grandes diferenças de classes sociais. Esses fatores contribuem com a prostituição: “As homossexualidades populares: Eu também considero que as carências e a falta de afeto levam à prostituição e escancaram as desigualdades sociais” (P 15º).
    Vivemos influenciados pelas idéias “utópicas,” essas pessoas (garotos de programas) tem que aprender lidar como essas “idéias” e progredir na vida. O tempo passa a idade chega.

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