O italiano bom de sexo e de coração

Há cerca de duas semanas eu estava em casa e um amigo me telefonou para dizer que um antigo parceiro havia falecido.

Amedeo era um típico cidadão italiano, nascido em Padova em 1919, desembarcou no Brasil em 1945, após o fim da segunda guerra mundial. Por aqui trabalhou e se tornou um bem sucedido empresário do ramo de serralheria, ofício que aprendeu do pai.

Eu conheci Amedeo no carnaval de 1977, numa pegação no cordão de isolamento do desfile das escolas de samba de São Paulo. Nosso relacionamento durou até o dia primeiro de maio de 1980. Naquela época ele tinha 61 anos e eu era apenas um rapaz recém-chegado à maturidade dos meus 21 anos.

Os seus hábitos sexuais não eram diferentes de qualquer gay do passado ou da atualidade. Ele gostava de ter um “boy” como relacionamento fixo, mas adorava passar as tardes de sábado enfiado numa sauna praticando sexo com diversos parceiros. Mesmo depois do surgimento da AIDS ele marcava o ponto, mas sempre com muita precaução.

Após o fim do nosso relacionamento ele se envolveu com outro rapaz e manteve uma relação estável por mais de quinze anos.  Essa relação era aberta porque o outro também gostava de paquerar e sair com outros homens maduros.

A última vez que eu tive contato pessoal com Amedeo foi em 2005, justamente  no velório desse caso, que também ficou meu amigo.

Ele viveu intensamente a sua juventude, a maturidade e a velhice. Amedeo era conhecido no circuito gay de Sampa e todos sabiam quem ele era e como se comportava nas suas buscas por parceiros. Ele era alegre e fazia questão de deixar a solidão trancada no armário de casa. Todas as semanas ele ia aos bares para beber e ver pessoas. Mantinha uma rede social intensa e a sua casa vivia sempre cheia de gays que gostavam de jogar buraco. Uma das suas frases: “Meu bem, solidão somente no meu túmulo no cemitério”.

A sua vida foi plena e ele nunca reclamava de nada. Vivia um dia de cada vez e fazia o melhor para tirar o melhor da vida. Sempre afirmava que gostava de homens viris, bonitos e jovens porque a juventude é a melhor fase da vida.

Nos poucos anos da nossa convivência eu curtia bastante o seu sotaque ou dialeto italiano. Ele sempre me dizia: “Amore mio, sono una putana”.

Pagou michês, foi roubado várias vezes, mas nunca perdeu a esportiva. Era ambicioso e valorizava o dinheiro ao extremo, mas tinha um coração de ouro e sempre ajudava as pessoas, fossem elas gays ou não. Era brincalhão e tinha um sorriso debochado e sincero.

Viveu além das expectativas normais de vida para qualquer homem nesta terra e aproveitou tudo o que a vida lhe deu nos seus noventa e três anos de existência.

Requiem aeternam dona eis

Descanse em PAZ

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Sobre Regis

57 anos de idade, residente na cidade de São Paulo

Publicado em 09/04/2012, em Contos da cidade, Memória e marcado como , . Adicione o link aos favoritos. 6 Comentários.

  1. João Batista

    Achei fantástico a história deste homem Italiano. Pelo que pude observar, realmente, ele era uma pessoa incrível, humana, genial e espirituoso. Viveu a vida intensamente, com alegria e prazer. Pena que muita gente não conseguem entender as qualidades de um homem gay que viveu a vida plenamente.

  2. Paulo Azevedo Chaves

    Todos parecem admirar esse bon vivant (boa vida) italiano rico e bem relacionado que construiu uma vida voltada para seu próprio prazer.Criaturas assim, de uma futilidade e egotismo gigantes, merecem desprezo e piedade.Afinal, o que este Amedeo deixou de legado além de suas estrepolias sexuais? Prefiro um outro Amedeo, Amedeo Modigiiani, famoso pela boêmia mas também por ter sido criador de pinturas memoráveis que enriquecem acervos de museus, galerias de arte e coleções particulares em todo o mundo.

  3. Então meus amigos, o tempo passa mas determinados tipos de comportamentos são os
    mesmos de antigamente porém com uma nova roupagem,são praticamente reinventados.
    O caso deste italiano nos dias de hj daria o nome de poliamor, um fenômeno muito atual
    em que as pessoas se envolvem e podem até amar duas ou mais pessoas ao mesmo tempo,
    geralmente as partes envolvidas é como se fosse uma mão dupla todos se interligam de modo consensual, as regras são ditadas pelas proprias pessoas e não são baseadas em valores morais, religiosos e outros.Nisso há uma infinidade de hipóteses casais hetero em que cada um leva sua vida particular, ou homo em que existe um terceiro elemento na jogada os modo vivendi são os mais variados possíveis,alguns moram juntos outros separados, e assim vai.
    Esse italiano é um caso bem típico, pois o coração dele é muito grande: cabe muitas
    pessoas..rsrsrs……

  4. Caramba… que história!!! Incrível!

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