A difícil arte das relações estáveis entre gays

Há quatro anos, no dia 26 de março de 2008, eu estava terminando os meus preparativos para uma viagem à Europa e nem imaginava que naquele dia encontraria um homem para viver um relacionamento.

As relações estáveis não são nada fáceis, principalmente, porque os interesses de cada uma das partes, as diferenças de idade, culturais e sociais são complicadores para uma convivência pacífica, harmoniosa e feliz. Como diz o bordão: “A felicidade não existe, o que existe na vida são momentos felizes”.

Eu costumo dizer que uma relação estável entre gays é uma obra prima, independente, se durar um, dez ou trinta anos. Quanto maior o tempo da relação mais perfeita é a obra.

No início de um relacionamento tudo são flores, muito tesão, paixão, pele, toques e descobertas. Abrimos mão de princípios morais, religiosos e sociais para viver uma relação louca e extremamente sexual.

O tempo passa, a paixão abranda e aí começam as divergências – Um quer fazer uma coisa e o outro não cede. Os momentos compartilhados são divididos em: importantes, secundários e irrelevantes.

O que é importante para mim pode não ser importante para ele. O mesmo se repete quando uma coisa é secundária ou irrelevante.

É preciso remediar a muitas coisas para ter uma vida tranquila e sem atritos. São necessárias ações determinadas para não haver desgastes.

Uma das partes precisa tomar a dianteira na relação e blindar a convivência para não ficarem expostos às interferências externas. Sempre aparecem empecilhos que são inevitáveis, mas tudo pode ser controlado com conversas francas e sinceras.

Ao longo de quatro anos eu e o meu companheiro aprendemos um com o outro. Eu tenho cinquenta e três anos, ele tem sessenta e seis. Somos dois seres humanos maduros e sabedores do que queremos. As experiências do passado são lições para não cometer erros primários no presente.

Os sonhos da nossa juventude se foram. Hoje os sonhos são reais e com os pés nos chão. Descobrimos que não existe a perfeição, física, moral ou comportamental. Nossos planos são de curto e médio prazo. Não planejamos nada para daqui a cinco anos. Nossos planos são para hoje, esta semana ou este mês.

A maior virtude no relacionamento é a tolerância. É ela que nos faz seguir adiante e nos faz despojar das nossas convicções. Como disse Alexander Chase: “O cume da tolerância é mais rapidamente alcançado por aqueles que não andam carregados de convicções”.

A tolerância é uma virtude rara e importante. Tem os seus limites, mas estes são geralmente estabelecidos rigidamente e nos pontos errados.

Outra coisa importante é a liberdade. Todos nós temos direito de ser livres e na relação isso não é diferente. Também, o conceito de liberdade varia de pessoa para pessoa e geração para geração. Portanto, é necessário entender o conceito de liberdade que vale para o casal.

Para o filósofo Immanuel Kant, ser livre é ser autônomo, é dar a si mesmo as regras a serem seguidas racionalmente. Todos entendem, mas nenhum homem sabe explicar. As relações entre gays são carregadas de cargas emocionais e quase nada é racional. O segredo dos relacionamentos é saber equilibrar essas duas cargas.

Ao longo desses quatro anos, o meu relacionamento teve altos e baixos, mais altos do que baixos. Conquistamos muitas coisas. Não são conquistas materiais porque cada um já tem o seu patrimônio consolidado. O fator patrimônio é importante quando aparecem imprevistos e a partir de certa idade é preciso pensar na saúde.

Tanto ele quanto eu gostamos de viajar e saímos todas as semanas para o campo ou para a praia. Nas nossas viagens não temos interferências de terceiros; são viagens longas de carro e com muito tempo juntos, para conversar sobre tudo da vida. Entre nós não há segredos e um ajuda o outro no que sabe e pode.

Criamos um vínculo muito forte, de amor, amizade e confiança, mas sem perder de vista a tolerância e a liberdade. Diz o ditado: “quando um não quer dois não brigam”. É assim que vivemos a nossa relação.

Também, não existem apenas coisas boas. Existem outros fatores que comprometeram o relacionamento e o principal é, ou melhor, foi o ciúme. Os ciúmes manifestam-se em todas as relações, com mais ou menos frequência, com mais ou menos intensidade – daí é importante perceber de que tipo de ciúmes se trata: inocente ou possessivo? Saudável ou doentio? Romântico ou sexual?

Os gays são ciumentos por natureza. Talvez seja devido ao meio social que vivemos e neste caso é o ciúme romântico e sexual, mais do que o ciúme inocente ou possessivo.

Quando eu identifiquei qual ciúme estava presente nos diversos momentos da minha relação, eu aprendi a controlar esse sentimento, porque o meu companheiro não é minha propriedade. Algum dia no futuro ou eu ou ele sairá de cena, por uma separação ou por morte. Isso é inevitável!

Assim, vamos vivendo nossa relação de uma forma saudável e madura porque não faz sentido as relações conflituosas, principalmente, na maturidade.

O relacionamento é um aprendizado diário e nesses quatros anos compreendemos que o mundo gay cheio de hedonismo não serve para nós. Temos alguns poucos amigos gays e isso basta.

Estamos plugados no mundo, na informação e nos acontecimentos, para aperfeiçoar nossa maneira de viver e saber como nos situamos no mundo. Não temos intenção de usufruir dos direitos dos gays que tratam sobre pensão e herança. Para nós é importante cada um consolidar o patrimônio para não haver dependência do outro e por incrível que pareça isso evita conflitos e gera equilíbrio e harmonia.

Apesar de o momento presente ser favorável às relações abertas, a relação estável entre parceiros do mesmo sexo é uma realidade e se você quer entrar neste seleto clube dos casados tem que aprender e estar preparado para mudanças profundas na sua vida. Se você já está casado ou tem um parceiro pode enriquecer este artigo com sua opinião e suas experiências de vida.

Leia: Gays maduros – a difícil arte dos encontros

Créditos da Imagem: Charge  de Roque Sponholz

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Sobre Regis

58 anos de idade, residente na cidade de São Paulo

Publicado em 21/03/2012, em Relacionamento e marcado como . Adicione o link aos favoritos. 10 Comentários.

  1. (Não sei quem é o Marcelo, do comentário postada em 24 de março 16:39h do ano 2012. Contudo me impulsiono a apresentar um ‘ode aos MARCELOS de todo o cosmo. Pois UM em especial despertou-me como PESSOA. E assim diante do foco “a difícil arte das relações estáveis entre gays” senti-me envolvido por completo! E deste jeito “MARHER”(nome emblemático que nos chamávamos_ um jeito cativante de ser)!!!
    Acredito piamente que a maturidade não é uma semente de um fruto que brotaria na terra fecunda! Posso dizer que maturidade é um fruto que está germinado e está agarrado ao galho da árvore. E esta árvore está com as raízes ‘entranhadas’ na terra/no solo. E então, o pulsar cardíaco da árvore instiga ao fruto reagir durante todo o processo do amadurecimento.
    E então aquele fruto está sujeito a todas as intempéries. Entretanto ele é alimentado essencialmente pela seiva. É nela que dá-se a firmeza…enfim, os sentimentos na interação humana podem nos causar a ‘empatia’. Senão, os letreiros luminosos poderiam nos arrebatar ao ‘glamour’ e mas que isto, provocar-nos-ia por outro lado a convicção de quem realmente somos. E assim a nossa personalidade firma-se por valores morais arraigados pela postura ética.
    É mediante o balanço dos ventos que o ‘bambu’ mostra-se mais propenso a captar mais fibras em seu caráter. E não somos tão diferentes assim.
    Porque nos problemas realmente somos alvos de nosso comprometimento na relação. E daí agirmos racionalmente confrontando os laços mais ternos ou quem sabe, os tenros e pequenos vínculos que no UNE. A união saudável e sólida entre os enamorados possibilita suportar pacificamente aos percalços…que seja um ciúme, uma traição desenfreada, uma mágoa, uma enfermidade, uma perda e quiçá a luta por nossos ideais encimados no amor duradouro e intransponível!!!
    Entendam nestas modestas metáforas acimas a simbologia maior_NAMASTÊ

  2. O que eu percebo, na minha opinião, é que os gays, apesar de sermos promíscuos por natureza, exigem demais os atributos físicos e comportamentais do pretendente, não há como ter fidelidade assim, somos movidos aos desejos sexuais e só nos desapegamos deles quando estamos no momento de euforia no início da relação. Depois que passa, com o tempo, vem o desgaste.

  3. Nos comentários há tanta ideia pre-concebida e cinismo! Nossa! Desejo muitas felicidades para você e seu parceiro, companheiro, amigo, amor… E muita cabeça aberta pra ambos que somada a vontade de fazer dar certo pode realmente funcionar. Beijos.

  4. É… eu já me simpatizei com o texto logo de início pela data: 26 de março, dia do aniversário
    do meu primeiro amor e que para sempre será … sabe o por que? a somatória 2+6=8 e o
    oito deitado é o simbolo do amor infinito…legal né….
    um relacionamento muda completamente a vida da gente,cada um seguiu o seu rumo, mas
    quando nos encontramos o que é muito difícil, o olhar, a alegria, a magia é a mesma depois
    de 25 atrás.Das duas partes( disso eu tenho certeza). Com o tempo eu percebi que o maior
    erro do ser humano é tentar tirar da cabeça o que está no coração, não que eu espere a volta,de modo algum, não. Mas uma coisa eu digo: do maior pecado nasce o amor maior.
    Felicidade a todos. marcelo

  5. Paulo Azevedo Chaves

    Entre o ideal e a realidade, há uma longa distância. Entre os homossexuais do sexo masculino o que prepondera é a promiscuidade. Em sexo somos quase todos como aquela música de Raul Seixas: Uma “Metamorfose ambulante”, por outro lado, “relacionamentos estáveis” entre gays, sem traições de parte a parte, consentidas ou não, com o tempo viram amizade e o sexo entre os parceiros, uma obrigação, uma chatice. E é sempre bom lembrar que, como diz outra música, “amor sem sexo é amizade”.

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