O gueto gay em constante transformação

A nova onda de investimentos do Mundo Mix está no segmento de hotéis.

O primeiro da categoria foi inaugurado esta semana em Nova York. O The Out NYC, é para o público gay e friendly. O hotel prima por conforto e atendimento, mas para se hospedar é preciso desembolsar muitos dólares porque as diárias não são nada convencionais.

Nos próximos meses deverá ser inaugurado em São Paulo o Hotel Chilli Pepper, mais precisamente, no Largo do Arouche, conhecido reduto gay da cidade. Também, será um hotel elegante, contemporâneo e plugado com o mundo das artes.

Eu li uma matéria no jornal que os custos estão próximos de três milhões de reais.

Enquanto escrevia este post eu fiz um backup nas minhas memórias, para constatar as transformações do mundo e dos redutos gays e parei, justamente, no Largo do Arouche.

Largo do Arouche em 1957Lá pelos idos dos anos 1970, o Largo do Arouche tinha um banheiro público no centro da praça que durante a noite era uma verdadeira Sodoma. Homens masculinizados colocavam à mostra os seus membros avantajados para o deleite de outros homens barbudos e com cara de mau. O sexo acontecia ali mesmo, no corredor central do banheiro ou na fila de espera aos olhos dos curiosos e voyers de plantão.

Não existem registros históricos, mas o gueto se institucionalizou naquele local a partir dos anos 1950, quando surgiu o restaurante O Gato Que Ri em 1951, o Mercado das Flores em 1953 e o bistrô francês Le Casserole em 1954.

Também, nas redondezas havia os prostíbulos onde homossexuais com medo de serem identificados se misturavam às prostitutas dos bordéis.

O largo do Arouche abrigou os boêmios e artistas. Na onda cultural os gays encontraram um ponto de referência para papos, bebidas, paqueras e encontros. Dai surgiu em 1962, o famoso bar Caneca de Prata na Rua Vieira de Carvalho.

Com o surgimento da AIDS no início dos anos 1980, o reduto gay esvaziou e praticamente desapareceu. Os boêmios e artistas sumiram e junto com eles os gays da classe média. Durante uma década o local ficou largado à degradação, com alguns botecos que resistiram ao tempo e estão lá até hoje – É o caso do Bar Trabuco.

Desde os anos 1970, na extensão do corredor da Vieira de Carvalho surgiram bares noturnos de frequência heterossexual, mas que com o passar das décadas foram tomados por gays. As tardes de domingos são concorridas e os bares ficam lotados. Muitos chamam aquele espaço de Praia do Arouche onde a pegação e ferveção rola solta. O bar mais antigo do pedaço é o Pingão.

Nos aos 1990, o Largo do Arouche passou por uma revitalização  e aos poucos os gays foram se instalando novamente.

A ex-prefeita Marta Suplicy apresentou um projeto de modernização do mercado das flores, mas ele foi refutado pelos comerciantes do local.

Nas décadas seguintes o comércio GLS voltou forte demarcando espaços e reconstituindo o cenário gay:  a sauna Champion, a Boate Freedom do falecido Jorge Lafont e a Boate Cantho Club.

Hoje a praça está degradada  devido à frequência dos moradores de rua, viciados e uma população de gays jovens que invadem o espaço nos finais de semana. Os encontros das chamadas bichinhas quá-quá regados a fumo, bebidas baratas e muita erva servem para turbinar a cabeça e marcar o ponto antes da matine na boate.

As gestões municipais não conseguiram revitalizar o local, mesmo com a instalação de um posto policial móvel, palco de eventos da virada cultural da cidade e o ponto de encontro de homossexuais após a parada gay. A Associação Viva o Centro mantêm programas na região com as ações locais, mas os resultados são de médio e longo prazo.

Com o fim da cracolândia, os viciados migraram para lá e se juntaram aos moradores de rua que juntos fazem da praça uma latrina a céu aberto e um lixão público.

Hoje o Largo do Arouche é um local de todas as tribos e tendências. Se você passear por lá nos finais de semana e feriados observará a diversidade dos gays. Casais jovens passeando de mãos dadas, lésbicas se beijando em qualquer esquina, tipos exóticos, piercings e tatto à mostra. Alguns poucos gays maduros e idosos, ou residentes nas imediações transitam passivamente por suas calçadas e esquinas.

O Largo do Arouche é um espaço público que está em constante transformação. É referência para os gays que chegam de outras cidades, de outros estados e até do exterior. No Largo do Arouche você ainda encontra todos os restaurantes, Academia Paulista de Letras, Hotel San Raphael, além de contar com famosas esculturas em bronze como a “Depois do banho”, de Victor Brecheret.

Saber que breve, o Hotel Chilli Pepper abrirá as suas portas no largo é motivo de alegria, mas não deixa de ser utópico.  Obviamente, o seu proprietário fez pesquisa de mercado e encontrou naquele local uma referência bem consolidada para construir o seu empreendimento, afinal, o Largo do Arouche é o local que mantém a maior frequência de gays na cidade de São Paulo

Após a abertura do hotel, quando tempo resistirá? Como será o contraste da praça degradada com o espaço privado e luxuoso? Eu soube pelos noticiários que o hotel será um misto de espaço cultural, sauna, bar e mais de 100 aposentos e com um nome sugestivo de Hotel para solteiros.

Os engenheiros e urbanistas não previram, mas breve o Largo do Arouche e suas imediações se transformarão e alcançarão o status de primeiro bairro gay do Brasil.

Nota do blogueiro: Enquanto as Ciências Sociais fazem uso corrente do termo “gueto” de maneira descritiva, elas paradoxalmente não produziram uma definição analítica para o mesmo. Hoje os gays e lésbicas ocupam todos os espaços públicos. Os “points” e  “redutos” são locais de socialização e encontros, bem como de assimilação da população LGBT.

Leia também: 

@@ Do Gueto ao GLS

@@@ Gueto Homossexual

@@@@ O fim dos guetos gays


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Sobre Regis

57 anos de idade, residente na cidade de São Paulo

Publicado em 14/03/2012, em Consumo, Sociedade e marcado como , . Adicione o link aos favoritos. 2 Comentários.

  1. Paulo Azevedo Chaves

    O post é um delicioso roteiro sentimental e amoroso da gay são paulo através do tempo, até a contemporaneidade.Um guia semelhante,porém mais detalhado, deveria se distribuído nos hotéis aos gringos que visitarem a “Paulicéia desvairada” durante a Copa do Mundo. Aqui fica a sugestão.

  1. Pingback: Do Gueto ao Bairro Gay | Grisalhos

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