Fantasmas do passado

O luto é uma resposta natural a qualquer ser humano na vida. Superar o sofrimento da morte de um companheiro de longos anos não é tarefa fácil.

Existem relações entre parceiros que duram muitos anos. Na linha do tempo da relação, o tempo passa, os parceiros envelhecem e a assimilação da convivência é um processo imperceptível. Aí uma fatalidade muda os rumos da vida do parceiro remanescente.

O gay na terceira idade tem muitas dificuldades para superar os traumas da perda; muitos não conseguem recuperar os principais pontos de equilíbrio da vida e do cotidiano.

Neste cenário de perdas, a solidão é um fator sempre presente. Além do isolamento social existe a dificuldade de encarar a nova vida e a possibilidade de encontrar novos parceiros.

Eu conheço um gay idoso que perdeu o companheiro depois de décadas de relacionamento. Hoje ele tem 64 anos e depois de dois anos desde a  viuvez não consegue viver livre dos fantasmas do passado.

No apartamento onde ele mora, a decoração ainda é a mesma dos tempos de outrora. Móveis, livros, fotos e até roupas ainda estão presentes. Ele não conseguiu se desvencilhar das coisas materiais do parceiro. Nas conversas com os poucos amigos as memórias do passado e dos dias felizes estão sempre presentes.

Nesse redemoinho de lembranças e cercado por objetos, ele criou um mundo à parte. Ele vive o presente preso ao passado e assim não consegue ir adiante, não acredita em mais nada e tem a certeza que não encontrará um substituto à altura do parceiro falecido. Isso é óbvio, porque ninguém substitui ninguém.

Com muitas dificuldades ele vai vivendo e tenta se distrair, também, se acha suficientemente maduro para não procurar ajuda de psicólogos.

Numa conversa informal eu lhe disse que isso é decorrente do materialismo enraizado na sua vida. A mudança comportamental depende da mudança de si mesmo. É necessário rever todos os seus valores e tentar equilibrar a balança do material X espiritual. Tem pessoas que não sabem lidar com isso.

No universo gay as relações estáveis são minoria e situações como essa são frequentes. Pesa ainda o fator do envelhecimento, o vinculo e a dependência afetiva e os valores que cada um cultivou durante a vida.

Não existe formula mágica que livre os gays dessa situação. A única certeza na vida de qualquer ser humano é a morte.

Nota: A exato, um ano, eu publiquei um post com o título Mentes abertas, corações abertos e nele eu fiz referências ao filme A Single Man (direito de amar) que retrata a situação da perda do parceiro e os fantasmas do passado.

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Sobre Regis

57 anos de idade, residente na cidade de São Paulo

Publicado em 28/02/2012, em Comportamento, Relacionamento e marcado como . Adicione o link aos favoritos. 3 Comentários.

  1. Realmente, isto é fato: existem fantasmas no passado em nossas vidas, fantasmas que se
    foram e fantasmas que ainda continuam vivos, ou seja, paixões que não foram resolvidas,
    falo por mim.Mas na vida tudo tem seu tempo de duração é assim…Então como vcs mesmo
    dizem ainda bem que sempre existirá um novo dia e outros também….novos amores…..
    Acredito muito nesta palavra RESILIÊNCIA, fazer de um limão uma limonada,reinventar-se
    sempre.
    MENOR QUE MEUS SONHOS EU NÃO POSSO SER.
    MARCELO

  2. Paulo Azevedo Chaves

    Admiro muito as pessoas que num relacionamento amam verdadeiramente e ainda mais quando esse amor, tão raro no universo da homossexualidade, ultrapassa a fronteira da morte do amado e continua vivo na memória de quem amou. Quanto a mim, só tive relacionamentos breves, de no máximo um ano. Fogueiras que brilhavam forte, durante um certo tempo, e depois iam se extinguindo até que delas só restassem cinzas.Infelizmente… Como na canção de Juliette Greco, musa do existencialismo e do escritor Jean-Paul Sartre (O Muro, Entre Quatro Paredes), “Eu sou como sou e não posso mudar”.

    • Paulo
      As perdas são irreparáveis e penso que cada um deve preservar a memória do seus entes queridos. A vida continua e as memórias do passado são uma coleção de momentos únicos, compartilhados e vividos com amor. Cada coleção é pessoal e intransferível. Também, penso na possibilidade de não nos apegarmos às coisas materiais. A preservação da memória pode acontecer no âmbito da mente e dos sentimentos.
      e assim, a vida continua…

      abraços
      Regis

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