Um gay maduro colecionando histórias

Eu sempre gostei de cinema, aliás, quem não gosta?

Vivi a minha adolescência e parte da minha vida adulta numa época de muita repressão no Brasil, especificamente, contra os gays.

As histórias mostradas no cinema eram para mim fugas do mundo real, onde eu me transportava para as telas (igualzinho ao filme do Woody Allen, A Rosa Púrpura do Cairo) e vivia os personagens de histórias dramáticas. Depois de algum tempo, já na fase adulta, eu percebi que aquilo era uma maneira de esconder das pessoas e de mim mesmo, a minha homossexualidade.

Naquelas fugas eu entrei no mundo dos filmes com histórias gay. O primeiro foi Morte em Veneza de Luchino Visconti, então me encontrei e a minha sexualidade passou a ser tão normal quanto às centenas de filmes que assisti – Desde, Um Dia de Cão de 1973, com Al Pacino, até o mais recente Tomboy que ainda está em exibição nos cinemas de São Paulo.

É claro que eu também assisto outros filmes. Ontem eu pude me deliciar com o filme Iraniano A Separação, mas as histórias da homossexualidade me fascinam e não perco um filme por nenhum outro programa.

Não me importo se o filme é um clássico, como Filadélpia, O Segredo de Brokeback Mountain ou MILK, eu também tenho interesse em histórias desconhecidas no circuito comercial, como Rainhas, Filhote ou Plata Queimada. Não faço distinção se o tema é gay masculino ou feminino, a homossexualidade desperta em mim a curiosidade e o “tesão”, não pelo sexo, mas pelas pessoas.

Durante a febre das locadoras de filmes dos anos 90 eu me tornei um maluco por filmes. Dai, comecei a colecionar os filmes com temática gay em formato VHS e DVD. Tudo isso facilitado por uma locadora que tinha um excelente acervo de filmes temáticos.

Colecionar filmes gays é a mesma coisa do que colecionar histórias de pessoas iguais a mim. Histórias tristes, dramas humanos, alegrias efêmeras, amores impossíveis e o desejo à flor da pele.

O cinema GLS sempre foi tratado como marginal e underground, mesmo os Estados Unidos pós-guerra do Vietnã.

Um dos precursores da sétima arte (gay) foi o diretor John Waters que fez da Drag Queen DIVINE a musa da comédia e a rainha do underground. John Waters surgiu na mesma época que Andy Wahrol  e seus filmes trash, cult e transgressivos lhe trouxeram destaque e sucesso. É dele a direção do filme Hairspray que lhe rendeu muitos milhões de dólares em 1988.

Já o cinema nacional pouco mostrou sobre a homossexualidade. Tenho lá na minha estante alguns poucos filmes e o meus preferidos são: Amarelo Manga, Madame Satã e Anjos da Noite. Amarelo Manga é tão bom que foi lançado em DVD nos Estados Unidos.

O cast de Anjos da Noite tem: Marco Nanini, Marilia Pera, Antônio Fagundes, Zezé Mota e grande elenco no único filme de Wilson Barros.

O filme é de 1979 e mostra um painel cruel e realista da noite paulistana com seus personagens mais característicos, como artistas, bandidos, travestis, prostitutas e toda sorte de michês que estão á procura de amor e aventura.

Muitas cenas foram filmadas em locais conhecidos da cidade, como a Avenida São Luís e o vão do MASP – Museu de Arte de São Paulo, além da cena final que foi rodada na extinta e conhecida boate Corintho no Ibirapuera.

Quem viveu os anos loucos na Pauliceia Desvairada de Mario de Andrade, nas noites de orgia e diversão das boates Medieval, Homo Sapiens,Val improviso e Nostro Mondo, vai se deliciar com este filme.

Se você coleciona filmes, pode adquirir um exemplar em DVD no site da Livraria Cultura.

E assim se passaram os anos e as histórias colecionadas ao longo de mais de 20 anos estão todas lá, na estante de casa esperando o momento para despertar e voltar ao tempo presente, se mostrar novamente, em cores vivas, ao seu colecionador apaixonado.

Aproveite e assista ao making off do filme Anjos da Noite:

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Sobre Regis

57 anos de idade, residente na cidade de São Paulo

Publicado em 27/01/2012, em Cinema, Contos da cidade e marcado como , , , , . Adicione o link aos favoritos. 4 Comentários.

  1. Thiago Próximas

    Um filme de 1970 que poucos conhecem e viram é ESTRANHO TRIÂNGULO, de Pedro Camargo, uma produção de Roberto Faria, com José Wilker, Lúcia Alves e Carlo Mossy. Mossy foi galã das pornochanchadas. O título revela o argumento do filme e tudo é abordado de forma velada, em função da Censura Federal que, na época, era devastadora. Outro filme, com história semelhante, é A INTRUSA, do grande diretor argentino, radicado no Brasil, Carlos Hugo Christensen. No elenco, um cara muito lindo, Arlindo Barreto. Além dele, Zé de Abreu e Maria Zilda, naquele tempo sem o Bethlem. A história se passa na fronteira da Argentina com o Brasil. Rodado em Uruguaiana(RS), mostra o machismo daquela região em contradição com uma homossexualidade latente, mas camuflada, que envolve os dois protagonistas. Vale a pena conferir os dois títulos até para que se veja como avançamos no trato da homossexualidade, superando muita coisa, inclusive no cinema.

  2. Falando em cinema nacional, um filme lançado no ano passado COMO ESQUECER,com
    Ana Paula arósio,Murilo Rosa, natalia lage…. achei muito interessante a situação vivida pelos
    personagens gays assim como a interpretação. Esse filme a meus olhos deveria ter tido ma-
    ior repercussão, e indicação a alguma premiação. Assistam que pena a pena ver, fica ae a dika.

  1. Pingback: 50 anos de cinema gay « Grisalhos

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