Um conto gay de natal

Regis tinha 17 anos e passou o ano agonizando entre o medo da homossexualidade e o cotidiano de um rapaz, inteligente, educado, estudioso e sociável.

Nos dias que antecederam o Natal ele ficou desesperado, porque pretendia fugir de casa para viver a sua vida sem mentiras.

Na véspera do Natal saiu do bairro pobre onde morava e foi para o gueto gay da sua cidade. Lá bebeu e conversou com pederastas idosos que espreitavam por um corpo jovem e viril.

Na falta de opções saiu e caminhou por ruas e alamedas praticamente desertas. As horas avançaram rapidamente e ali parado numa esquina ele se viu só.

Pela primeira vez ele percebeu o isolamento social de um jovem gay. A sensação foi de abandono em meio a milhões de pessoas que viviam naquela cidade. Regis tinha sonhos e não sabia o que o futuro lhe reservava ou como seriam os anos vindouros.

Mas o Natal é tempo de surpresas!  Na contramão do fluxo de veículos que seguiam rumo às festas ele foi abordado por um travesti que lhe convidou para ir ao seu apartamento ali perto.

Na dúvida e na incerteza do que estaria por vir, ele aceitou o convite e juntos seguiram para aquele local insólito.

Dentro do apê sentiu-se acuado e amedrontado com a cena, mas ao mesmo tempo sentiu-se bem porque aquele ambiente era novo, diferente. Um local muito bem decorado, com dois quartos e uma sala ampla. No centro uma mesa de Natal com uma ceia à espera dos convidados.

Regis se esquivou de algumas investidas do travesti, preferiu ficar sentado no sofá e longe da mesa.

Ao longo da noite houve pouca conversa e nenhuma ação para o sexo. Ao fundo ouvia-se uma música antiga, talvez, Edith Piaf. Sim era Piaf em seu melhor momento …La vie en Rose.

Enfim, deitado sob o tapete persa da sala, ele adormeceu.

Aos primeiros raios da manhã do dia de Natal Regis foi acordado com um toque de mão no seu ombro.

Assustado levantou-se e pediu para ir ao banheiro. Ao voltar para a sala o travesti estava sentado à mesa observando os pratos decorados: peru, tender, frutas natalinas, castiçais e fitas. Tudo muito bem arrumado.

Regis finalmente se acalmou e se permitiu conversar.

O travesti  aparentando uns 40 anos estava feliz e radiante. Com poucos movimentos do corpo se serviu de uma fatia de peru, algumas frutas tropicais e uma taça de vinho branco.

Ao final do café da manhã Regis ouviu atentamente a história de vida daquele homem. Era um ser humano frágil e carente que preparou uma ceia de natal para compartilhar com um estranho caçado nas ruas do gueto.

Lá pelas 10h, Regis pediu para ir embora. Ao abrir a porta ele ouviu do anfitrião algumas palavras:

Garoto, nunca se esqueça. Ser viado é muito difícil, mas não se deixe abater. Seja forte, lute por seus sonhos, não se permita à discriminação e nunca desista de viver. Lute, trabalhe e conquiste o mundo. Ele está ai para ser descoberto e conquistado.

Você foi o meu presente neste natal. Uma oportunidade de compartilhar com um jovem uma ceia de natal farta e rica.

Sabe por que eu fiz isso garoto? Para retribuir todas as minhas conquistas neste ano.

Ah, outra coisa: Na sua vida nunca se esqueça de compartilhar as suas conquistas com as pessoas menos favorecidas. Você perceberá que quanto mais você compartilhar, mais você terá. Eu escolhi você, um jovem gay e tenho certeza que não errei na escolha.

Agora vai e seja feliz!

Esta é uma história verdadeira e aconteceu comigo há 35 anos. Depois de todos esses anos essa lembrança sempre está comigo na época de Natal.

Eu nem me lembro do seu nome, mas tenho uma certeza – Ele foi um Anjo da Guarda que apareceu no meu caminho no natal de 1976.

C’est la vie...

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Sobre Regis

57 anos de idade, residente na cidade de São Paulo

Publicado em 23/12/2011, em Contos da cidade, História, Memória e marcado como , , . Adicione o link aos favoritos. 11 Comentários.

  1. angelo gabriel

    Regis, quero te agradecer pois este relato me ajudou muito. Continue sempre assim. Mais uma vez obrigado!

  2. marcos adriano

    gostei muito……

  3. Que historia Linda, amei.

  4. sou mulher mas curto muito vcs meus amigos gay. rezo pela discriminaçao do ser humano seja ele: negro, pobre, lesb,gay.
    bjs.

  5. me identifiquei, também pratico esta premissa “compartilhar c/os gays menos favoreacidos”. que Deus ouça as nossas preces e nos torne mais humanos;

  6. Joao Paulo

    Regis, gostei de sua história. Um grande abraço para você.

  7. Paulo Azevedo Chaves

    Uma história muito tocante e triste e que emociona sobretudo por relatar um episódio realmente acontecido.Ainda bem que a história de “Regis” tem um final feliz.A equidade, auto-afirmação, coragem,determinação do narrador são um belo exemplo para outros jovens homossexuais que enfrentam situação semelhante no convívio familiar e social. Parabéns, “Regis”!

    • Paulo.
      Obrigado por seu comentário muito pertinente ao conto. Eu também acredito que lições de vida tem que ser compartilhadas com os gays de todas as idades, principalmente, os jovens, porque o futuro está nas mãos deles.
      O meu papel como blogueiro é transmitir experiências e compartilhar conhecimentos.
      Abraços
      Regis

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