Memórias da minha juventude gay

Esta semana uma hashtag (palavra chave) no twitter me chamou a atenção: #QuandoEuEraBoy. Fui lá conferir e me diverti muito lendo as coisas que as pessoas faziam quando eram jovens.

Ai eu pensei: porque não escrever um post no  blog, sobre coisas que eu fazia quando era jovem?

Aqui estão algumas das minhas memórias:

Eu frequentava a Igreja Metodista e achava o pastor um tesão de homem – o pecado da carne já estava na minha cabeça desde os 15 anos.

No colégio tinha um professor de 50 anos que dava toda pinta de ser gay – eu fiquei atrás dele o ano inteiro e no final daquele ano, num encontro casual ele me falou: Não sou o que você está pensando…  Anos depois eu o encontrei numa boate gay aos beijos com outro homem.

Nos finais de semana eu saia do bairro para ir ao centro da cidade onde os guetos gays ferviam. Numa dessas saídas meu irmão me encontrou abraçado com outro amigo – Até hoje nunca tocamos no assunto.

O engraçado é que eu gostava de me produzir para sair. Invariavelmente, calça jeans ou de tergal, camisa de manga curta listrada e sapato esporte, sempre em cores discretas. Nunca usei nada que me denunciasse como gay. Quanta bobagem de adolescente e ainda achava que aqueles trajes eram o máximo – A última vez que vi um homem usando calça de tergal foi o John Travolta no filme: Os embalos de Sábado à Noite.

A primeira vez que entrei numa sauna eu tive a certeza que ser gay não era anormal – Aquela exposição de homens semi-nus era mais do que um convite para a sedução. – Deixei-me seduzir e nunca mais tive problemas com a minha sexualidade.

Quando eu era jovem todos os gays maduros corriam atrás de mim – Hoje sou maduro e todos eles sumiram – É a eterna busca da beleza e juventude.

Quando fui convocado para o exército eu pensei que o mundo fosse desabar sobre mim. Desabou nada e ainda por cima fiz sexo com um sargento, além da loucura que eu tinha por um tenente gostosão.

Durante muito tempo  eu sonhei  encontrar um homem para viver um grande amor. Hoje eu sei que todos os homens que se deitaram na cama comigo foram os grandes amores da minha vida.

Eu adorava passear pelos bares gays da cidade. Foram nesses bares que além dos porres, eu tive verdadeiros aprendizados de vida.

Naquela época a repressão estava em todos os locais. Eu tinha a impressão que sempre estava sendo observado ou perseguido. Estranho, não?

E você que tem a minha idade. Quantas “amizades coloridas” você teve?

Cronologia:

A minha primeira paixão gay foi o Prof. Robinson do seriado Perdidos no Espaço – Qualquer dia eu conto essa história – Demorou mais de dois anos, mas finalmente eu escrevi essa históriaLeia Aqui

Quando eu vi o Ney Matogrosso nos Secos e Molhados no Fantástico em 1973, eu tive a certeza que ser gay não era ruim e tudo ia mudar, para melhor!

Em 1975 a Editora Abril lançou a Revista Homem – Dois anos depois a revista passou a se chamar Playboy. Raras vezes eu vi a revista, mas eu sonhava que um dia lançassem uma Playgay. Isso nunca aconteceu, mas hoje temos a G Magazine.

Ainda em 1975 eu fiquei alucinado com o Show Falso Brilhante da Elis Regina no Teatro Brigadeiro – No ano seguinte no mesmo teatro foi a vez do Ney Matogrosso em carreira solo escandalizar o Brasil com o show Bandido.

Em 1976 eu corri pro cinema para assistir Dona Flor e seus Dois Maridos – Não foi para ver a Sônia Braga, mas para me deliciar com o Mauro Mendonça (tesão de homem).

Em 1977 começou a febre das discotecas e eu fiquei apaixonado pela Donna Summer. Nos dois anos seguintes eu frequentei todas as discotecas famosas de São Paulo: Banana Power, Papagaio Disco Club, Hypopotamus, entre outras.

Em 1978 foi a fundação do Somos, primeiro grupo em defesa dos direitos LGBT do Brasil, mas eu não queria nem saber, porque fiquei revoltado por ter sido convocado para o Exército, mas meses depois a revolta passou e eu aproveitei a vida de militar.

Na fase do serviço militar eu fui o centro das atenções dos gays. Cheguei a transar com três gringos dentro de um banheiro no Bouvelard da Avenida São Luís. Hoje eu entendo o fetiche dos gays por militares, principalmente, fardados.

Em 1979, eu descobri as boates: Homo Sapiens, onde hoje é o ABC Bailão, Nostro Mondo e  Medieval na Rua Augusta.

No início dos anos 80 eu adorava circular nos guetos gays com o meu Walkman a tiracolo – Além de tocador de música era um acessório da moda.

Junto com as novas tecnologias daquela década chegou a AIDS – Eu tinha 22 anos em 1981 e foi uma época negra. Todos tinham pavor de contato sexual. A rejeição era tanta que durante muito tempo eu não vi mais homens se beijando. Também, perdi muitos conhecidos e amigos. Definitivamente, a AIDS mudou o mundo e as pessoas.

Em 1984, eu não participei do movimento pelas diretas já, porque estava envolvido num relacionamento neurótico e complicado com um homem de 56 anos de idade que viria a morrer um ano depois num acidente automobilístico na avenida 23 de Maio, próximo ao Parque do Ibirapuera.

Eu me recordo do anuncio da morte do Tancredo Neves, num domingo à noite de 1985 – Eu estava dentro de um hotel transando com um gay maduro chileno.

Em janeiro de 1986 a minha vida mudou radicalmente com o falecimento da minha mãe. Naquele dia 25 de janeiro a minha juventude acabou e junto com ela os melhores anos da minha VIDA.

E assim, se passaram mais de 25 anos de vida e cheguei aos 52 anos com uma certeza:

Tudo o que vivi foi maravilhoso, inesquecível e não me arrependo de nada. A vida é assim: Um dia chove e noutro faz sol. Alegrias e tristezas caminham lado a lado todos os anos da minha vida.

Se eu tivesse que fazer tudo de novo eu não hesitaria um segundo. Ser gay é muito mais do que simplesmente uma preferencia sexual.

Ser gay é viver cada momento de uma época presente que breve se tornará passado.

É sonhar com um futuro improvável que breve se tornará presente.

E você? tem alguma memória da sua juventude relacionada com a sua vida gay? deixe os seus comentários.

Nota: artigo atualizado em fev/2014

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Sobre Regis

58 anos de idade, residente na cidade de São Paulo

Publicado em 25/11/2011, em Contos da cidade, Memória e marcado como , , , . Adicione o link aos favoritos. 18 Comentários.

  1. Belo post…. um abraço…

  2. Olha, o Mauro Mendonça foi bem citado!!! Tinha um tesão nele…

    Tenho 32 anos; recordo que minha primeira fixação em homem foi no Nicolas Cage! Era obcecado por ele… logo depois me apaixonei por um 40tão, cara era punk total, das antigas, sempre bebendo e frequentando uma estaçao antiga, bem barra pesada e eu com 18 anos ja estava naquela vibe perigosa, excitante e louco por esse cara que usava cocaina o dia todo e eu estudante/esportista, ia todo santo dia na estação só pra ve-lo!!! Varias vezes ele saída acompanhado por homens e me dava um abraço e dizia “te mais neném”… rsss

    Depois, me envolvi com muitos homens, todos maduros, até que me apaixonei por um que tinha 3 anos a menos que eu na época, isso eu tinha 26 anos, e foi uma merda… era um rapaz bacana, mas muito mauricinho!!! Tinhamos valores diferenciados, pontos vistas conflitantes e nem amizade restou, foi um rompimento estranho! ahahahahaha

    Bom, meu lance mesmo é Coroa, não sinto atraçao por juventude, por caras depilados ou moderninhos… curto um maduro ‘a moda antiga!!!

    teu blog é mil, beijos

  3. ……estou pensando sobre mim e todos os semelhantes…
    Eu me sinto muito confortável quando leio histórias de pessoas que viveram ou vivem uma vida como a minha… Tenho ainda muita dor comigo, e penso que nunca terei coragem de me admitir que sou, gay. Estou sempre apoiando e tentando ajudar pessoas como eu que sofrem reprimidos de seu modo de viver em suas próprias circunstancias. Em todos sites que visito, onde tem um jovem como eu, que não quer ser o que carregamos dentro de nossas mentes e também do corpo, mais uma vez sei que não estou sozinho… Diversas vezes leio frases que são as mesmas que poderia digitar… Então, eu simplesmente respondo o quão eu quero ser feliz do jeito certo, e que se precisarem de mim estarei pronto para ajudar do nosso jeito de ser…! 😉
    Ahh,, tenho 17 anos… rsrsrsrs

    • Quando comentei sobre a dificuldade de ser homossexual no passado, não quis dizer que isto tenha mudado muito. Um amigo tentou se bissexual, bonito tinha muitas mulheres. Seus pais insistiam para que casasse, tivesse filhos, mas eu assumiu que só gostava de homem. Ou que gostava tanto que não queria mais mulheres. Só bem mais velho é que, quando os pais aceitaram que ele era homossexual é que ele conseguiu normalizar sua vida.

      No caso do Igor, parece que ele é como este meu amigo. É difícil mesmo. Na vida diária, profissional e familiar, a aceitação é aparente. Então ele prefere ser sempre discreto.

      Cada um vai descobrir seu “jeito de ser”. Alguns serão “gays”, com trejeitos e voz afeminada. Outros não “dão na pinta”. Alguns manterão a vida homossexual em segredo, parcial é claro. E alguns gostam também de mulheres, serão “bi”.

      Parece-me que o mais importante é,no entanto, aceitar-se, admitir que são viados.

  4. Caiu a ficha de que eu era “viado”, eu não aceitava ser “viado”; e ainda chorava e lamentava por ser “viado”. Caramba, vivi muito isto.

    Comecei a fazer sexo cedo demais, uns meninos mais velhos me pegaram. Não achei nada demais e nem entendia o que estava acontecendo, Gostei. E descobri que fazer “aquilo” era ser viado. E desde, sei lá, os seis anos, “sabia” que ser viado era a coisa mais horrorosa do mundo.

    Continuei com atividades quase sexuais por toda a infância. Digo quase porque com meninos pequenos a penetração é mínima…

    Na adolescência é que me afastei e fiquei por muitos e muitos anos pensando em mulheres, as tendo. Pensamentos homossexuais eu os tinha. Mas os temia. Vivia preocupado que descobrissem que me comportava como viado com os outros meninos. E eles, acho, tinha a mesma fobia.

    Isto foi nas décadas de 1950 e 1960. Me parece que hoje é, um pouco, mas leve.

    Não reclamo. Sofri muito psicologicamente por não me aceitar com viado. Só consegui já estava perto dos 50. Não reclamo, ter vivido a vida dupla, mulheres e homens, foi sempre muito bom. Parece que se fosse jovem hoje teria continuado a experiência de ser viado junto com a de ser “hetero”, quer dizer, ter uma vida bi. E isto é o que perdi…

    • Pelos relatos, creio que cada um de nós passou por um sofrimento momentâneo ou duradouro, isso ‘graças’ a educação e cultura da época.
      Hoje em dia, por mais discriminação que se apresenta, ainda sim é infinitamente melhor que antes.

  5. Tenho 24 anos, hahaha
    Adorei seu blog, embora a juventude ainda não seja passado pra mim vou falar sobre algo do meu passado…
    Com 19 (2009) anos nunca tinha transado…
    Já me percebia gay há alguns anos…
    Num sábado fui para uma cidade em outro estado, mas próxima (uns 150km), fui a uma boate gay e fiquei com um cara 20 anos mais velho…
    Ele era lindo, bco, bco, bco… peludo… uma delícia, meti nele umas 12 vezes no intervalo de +/- 16horas… hahaha, nunca mais tive tanto tesão e tanto pau duro, tantas vezes num msm dia…rs
    Depois vim embora, foi triste, ouvindo meu mp3, o sol do domingo se pondo… lembro cmo se fosse final d semana passado… trocamos e-mail, msn e orkut na época, mas depois nunca mais!
    Mas lembro dele com muito carinho, cada detalhe do corpo dele está muito vivo na minha memória…

    2003 – não sabia o q era sexo, aprendi na escola como o homem coloca o pênis na vagina, ahh e isso era sexo! hehehe

    2004 – me masturbava com fotos do Alexandre Frota de sunga em uma revista veja guardada como relíquia…

    2007 – chorava, pedia pra deus pra não ser viado…

    2008 – maioridade, angústia com a minha homossexualidade, auto-repressão sexual, conflito, reclusão e tentativa de suicídio…

    2009 – aceitei-me gay e comecei a pensar em como contar para minha família e todos, era inadmissível me imaginar levando uma vida escondida (no armário)… Não tinha nascido pra isso!

    2010 – conheci meu atual companheiro, estava pra me formar em história e buscava agora construir minha identidade homossexual, um sentimento cada vez mais forte de auto-afirmação e orgulho de ser quem sou.

    2011 – contei para meus pais, familiares e amigos q era gay… meus pais reagiram com mais naturalidade do q imaginei… não aceitaram, mas tb não se opuseram… eu tinha certeza de que este era um conflito que deveria ser problema deles, o meu conflito eu já tinha superado… neste mesmo ano fui morar com o meu companheiro atual…

    Hoje me sinto feliz e realizado, tenho problemas de relacionamento como todo casal…
    Tenho boa convivência com os meus pais e irmão, só minha irmã q rompeu comigo e estamos estranhamente afastados desde q assumi minha homossexualidade, já me sinto, em relação a ela, um estranho desconhecido…

    Sou professor do Ensino Básico, e sempre q vem a tona a minha homossexualidade em sala de aula, percebo-me como exemplo para meus alunos com tendências homossexuais… fico feliz, pois n queria vê-los, tal como eu, passando por anos de escuridão, recolhimento e depressão ou tentativas de suicídio… Espero q eu possa ser exemplo d como se pode alcançar a felicidade – ou pelo menos ter o direito de buscá-la – vivendo plenamente a homossexualidade…

    Parabéns pelo seu blog!

    • Pedro

      Parabéns pelo relato. Sim, seu depoimento é exemplo entre milhares de outros, ocultos, marginalizados…
      A juventude atual tem informações que podem auxiliar na condução das questões da sexualidade.
      abraço
      Regis

  6. Eu me lembro muito bem da minha juventude: Eu sentia o maior tesão por homens. Esse tesão era infinitamente presente em todos os minutos da minha vida. Me recordo muito bem de todos os anos, da forma que eu era:
    1975 – eu sentia o maior tesão pelo meu professor de história.
    1976 – eu sentia tesão e paixão pelo Prof Robson, do filme Perdidos no Espaço.
    1977 – Caiu a ficha de que eu era “viado”, eu não aceitava ser “viado”;
    1978 – ainda chorava e lamentava por ser “viado”.
    1979 – escondia de todos de mim mesmo que eu era “viado”,
    1988 – ainda tentava do exercicio de ser hétero, mas ainda chorava escondido por ser gay;
    1989 – Notei que só hetero me atraia. Nem passava por minha cabeça em transar com gay assumido e com trejeitos.
    1999 – … seguia virgem por não ter tido a coragem de transar com homem.
    2003 – já comecei a aceitar que eu era gay, e que isso não era tao ruim assim, afinal estava indo a um psicólogo;
    2004 – Iniciei um relacionamento com um militar casado e continuo com ele até hoje, no anonimato.
    2005 – Ja me aceitava Gay, pois sabia que não podia mudar isso;
    2006 – Contei que eu sou gay a 3 pessoas da minha familia (me disseram: Eu já sabia, mas isso é tão normal…¨*)!&$%#%$%¨%*&
    2012 – espero ainda poder mudar essa história e quem sabe encontrar e viver com toda intensidade uma relação homossexual e assim, achar a minha “metade”.

    • Você deve ter sofrido muito vivendo sua homossexualidade não assumida perante a sociedade e a família até 2003. Para mim as coisas foram mais fáceis pois desde muito jovem fui estudar em São Paulo, no ínicio da década de 50, e na Pauliceia Desvairada pude transar com quem queria e com quem me queria — sempre rapazes na mesma faixa de idade que eu. Quanto a achar sua “metade” , isso acontece quando menos se espera.Mas enquanto não acontece, viva sem culpa suas aventuras sexuais pois a vida é curta e merece ser bem vivida.

  7. Quem conviveu (e convive) com o querido PAC – Paulo Azevedo Chaves – sabe que seu livro de memórias seria um frisson quando publicado. Ficamos no aguardo, então. 🙂

  8. Vc já transou com jovens ou vc é jovem???

  9. Adoraria ler um livro sobre sua vida! Abraço

  10. Paulo Azevedo Chaves

    Uma das lembranças mais marcantes de minha juventude foi a de ter tido um caso com o noivo de minha irmã. Eu também tinha namorada e ela era amiga de minha irmã. O resultado final foi que as duas desconfiaram de nossa relação proibida: minha irmã acabou o noivado e minha namorada rompeu comigo. Quanto a G. , eu e ele continuamos a nos encontrar até que finalmente ele optou por um casamento hétero e não quis mais me ver. Minha vida se tornou um inferno e só depois que fui estudar em São Paulo e tive outros casos consegui esquecê-lo. Ah, o amor! Como é gostoso! E se proibido, ainda mais delicioso…

  11. Eu tbém servi ao EB na PE em 78 Abilio Soares.
    Será que não nos conhecemos? 🙂

  12. José Francisco Luchesi de Frias

    Não foi fácil para mim assumir a minha homossexualidade. Eu tive muitos problemas, mas hoje, aos 54 anos não tenho problemas não. Eu trabalho como controlador de Acesso, tenho a minha vida absolutamente normal, e tem certas horas que eu nem penso que sou gay. Ainda sonho em ter um companheiro, mas está muito dificil nos dias de hoje encontrar um ser humano de verdade, que queira assumir um relacionamento sério com alguém. Enquanto isso não acontece, vou levando a minha vida da melhor maneira possível, sem me deixar abater e sem entrar em depressão, o que não é nada bom para nós.

    Um grande abraço a todos.

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