Arquivo mensal: novembro 2011

Os gays nas redes sociais

A evolução das tecnologias associada aos interesses pessoais e profissionais da população LGBT tem contribuído para disseminar a cultura do mundo digital entre os gays. Mas, infelizmente, no Brasil isso não é levado a sério e os interesses dos indivíduos não vão além de contatos, para fins de amizade e sexo.

O que é uma rede social?

As redes sociais são formas de compartilhamento de informações, gostos e ideias entre usuários com os mesmas afinidades e estilos. Assim, um grupo de discussão é composto por indivíduos que possuem identidades semelhantes.

Atualmente as principais redes são: Facebook, LinkedIn, Twitter, Tumblr, Google Plus.

O Facebook é a rede social mais disseminada e acessada em todo o mundo. É a coqueluche do momento e todos os gays querem estar conectados na rede para encontrar os seus pares e afins.

Porque os gays se inscrevem no Facebook?

Para ter uma rede de amigos virtuais e possíveis contatos “reais” que no fim visam apenas um “corpo” bonitinho e adequado às suas preferências sexuais.

Para as pessoas em geral, o Facebook é uma vitrine para a exposição de EGOS. Imagine então para os gays?

Se você prestar atenção descobrirá que os gays brasileiros se escondem e não mostram a sua cara, colocam no perfil imagens e fotos que nada tem a ver com a sua verdadeira identidade. Também, criam perfis “frios”, para não expor a sua sexualidade e a real condição social.

Por que isso acontece?  Porque a finalidade dos perfis é o sexo.

É claro que existem gays que usam a rede para compartilhar ideias, fotos e notícias do seu cotidiano, com amigos ou parentes distantes.

Alguns usuários chegam ao extremo de relacionar mais de mil contatos de várias partes do mundo que possivelmente nunca terão a oportunidade de conhecer no mundo real. Também, as redes são vitrines para exposição pública de atributos físicos e dotes sexuais.

Os gays ainda vão levar muito tempo para perceber que as redes sociais se não forem utilizadas com sabedoria e inteligência poderá transformar a vida dos gays num inferno, além de coloca-los ainda mais dentro do armário, da discriminação e da segregação social.

As ONGs brasileiras em defesa dos direitos dos gays ainda não descobriram como explorar as redes sociais de uma forma objetiva, para divulgar os seus trabalhos e arregimentar seguidores, porque nas suas estruturas não existem profissionais competentes e conhecedores das tecnologias. Obviamente, seria mais interessante se esses profissionais também fossem gays.

Eu acompanho os trabalhos que ocorrem na ONG americana SAGE e ontem aconteceu um workshop para os gays maduros e idosos sobre redes sociais.

Lá a rede de mídia social é mais do que manter contatos com amigos, parentes ou pessoas. A utilidade vai desde uma simples procura por um bicho de estimação perdido na cidade até colocação profissional, doação de órgãos e trabalhos voluntários.

O foco da ONG é auxiliar os gays que estão desempregados e neste contexto a rede pode ajudar ou prejudicar a procura por emprego. O workshop de mídia social discorreu sobre o uso do LinkedIn para criar um perfil online profissional e uma ampla rede de profissionais. Através do workshop os gays aprenderam como criar um perfil, fazer upload de uma foto, definir os recursos de segurança, se conectar com outros, juntar-se e participar em grupos e criar um link personalizado que os gays podem usar em sua assinatura de e-mail. Também, foi discutido como os gays podem usar o Facebook e o Twitter em sua busca de trabalho e como evitar armadilhas comuns.

O workshop aconteceu num ambiente de treinamento informal no Cyber ​​SAGE Center. Os participantes tiveram  acesso a um computador para login com suas contas de usuário individual.

É óbvio que ninguém em terras tupiniquins ainda pensou nisso, mas este é um caminho mais do que óbvio.

Por aqui faltam pessoas interessadas no compartilhamento de informações e conhecimentos para que a população gay brasileira, principalmente, os maduros e idosos possam ter acesso às redes sociais de uma forma clara, com objetivos definidos, preservando informações confidenciais, além de tirar o melhor proveito para fins pessoais e profissionais.

Enquanto isso…

Vamos clicando,comentando, curtindo, adicionando e compartilhando: links, fotos, vídeos e pensamentos frios e coisas sem nexo – Nunca sem esquecer de manter o crescimento da nossa rede social, buscando novas amizades, adicionando possíveis conhecidos que são amigos de amigos que  nunca vimos ou ouvimos falar.

Memórias da minha juventude gay

Esta semana uma hashtag (palavra chave) no twitter me chamou a atenção: #QuandoEuEraBoy. Fui lá conferir e me diverti muito lendo as coisas que as pessoas faziam quando eram jovens.

Ai eu pensei: porque não escrever um post no  blog, sobre coisas que eu fazia quando era jovem?

Aqui estão algumas das minhas memórias:

Eu frequentava a Igreja Metodista e achava o pastor um tesão de homem – o pecado da carne já estava na minha cabeça desde os 15 anos.

No colégio tinha um professor de 50 anos que dava toda pinta de ser gay – eu fiquei atrás dele o ano inteiro e no final daquele ano, num encontro casual ele me falou: Não sou o que você está pensando…  Anos depois eu o encontrei numa boate gay aos beijos com outro homem.

Nos finais de semana eu saia do bairro para ir ao centro da cidade onde os guetos gays ferviam. Numa dessas saídas meu irmão me encontrou abraçado com outro amigo – Até hoje nunca tocamos no assunto.

O engraçado é que eu gostava de me produzir para sair. Invariavelmente, calça jeans ou de tergal, camisa de manga curta listrada e sapato esporte, sempre em cores discretas. Nunca usei nada que me denunciasse como gay. Quanta bobagem de adolescente e ainda achava que aqueles trajes eram o máximo – A última vez que vi um homem usando calça de tergal foi o John Travolta no filme: Os embalos de Sábado à Noite.

A primeira vez que entrei numa sauna eu tive a certeza que ser gay não era anormal – Aquela exposição de homens semi-nus era mais do que um convite para a sedução. – Deixei-me seduzir e nunca mais tive problemas com a minha sexualidade.

Quando eu era jovem todos os gays maduros corriam atrás de mim – Hoje sou maduro e todos eles sumiram – É a eterna busca da beleza e juventude.

Quando fui convocado para o exército eu pensei que o mundo fosse desabar sobre mim. Desabou nada e ainda por cima fiz sexo com um sargento, além da loucura que eu tinha por um tenente gostosão.

Durante muito tempo  eu sonhei  encontrar um homem para viver um grande amor. Hoje eu sei que todos os homens que se deitaram na cama comigo foram os grandes amores da minha vida.

Eu adorava passear pelos bares gays da cidade. Foram nesses bares que além dos porres, eu tive verdadeiros aprendizados de vida.

Naquela época a repressão estava em todos os locais. Eu tinha a impressão que sempre estava sendo observado ou perseguido. Estranho, não?

E você que tem a minha idade. Quantas “amizades coloridas” você teve?

Cronologia:

A minha primeira paixão gay foi o Prof. Robinson do seriado Perdidos no Espaço – Qualquer dia eu conto essa história – Demorou mais de dois anos, mas finalmente eu escrevi essa históriaLeia Aqui

Quando eu vi o Ney Matogrosso nos Secos e Molhados no Fantástico em 1973, eu tive a certeza que ser gay não era ruim e tudo ia mudar, para melhor!

Em 1975 a Editora Abril lançou a Revista Homem – Dois anos depois a revista passou a se chamar Playboy. Raras vezes eu vi a revista, mas eu sonhava que um dia lançassem uma Playgay. Isso nunca aconteceu, mas hoje temos a G Magazine.

Ainda em 1975 eu fiquei alucinado com o Show Falso Brilhante da Elis Regina no Teatro Brigadeiro – No ano seguinte no mesmo teatro foi a vez do Ney Matogrosso em carreira solo escandalizar o Brasil com o show Bandido.

Em 1976 eu corri pro cinema para assistir Dona Flor e seus Dois Maridos – Não foi para ver a Sônia Braga, mas para me deliciar com o Mauro Mendonça (tesão de homem).

Em 1977 começou a febre das discotecas e eu fiquei apaixonado pela Donna Summer. Nos dois anos seguintes eu frequentei todas as discotecas famosas de São Paulo: Banana Power, Papagaio Disco Club, Hypopotamus, entre outras.

Em 1978 foi a fundação do Somos, primeiro grupo em defesa dos direitos LGBT do Brasil, mas eu não queria nem saber, porque fiquei revoltado por ter sido convocado para o Exército, mas meses depois a revolta passou e eu aproveitei a vida de militar.

Na fase do serviço militar eu fui o centro das atenções dos gays. Cheguei a transar com três gringos dentro de um banheiro no Bouvelard da Avenida São Luís. Hoje eu entendo o fetiche dos gays por militares, principalmente, fardados.

Em 1979, eu descobri as boates: Homo Sapiens, onde hoje é o ABC Bailão, Nostro Mondo e  Medieval na Rua Augusta.

No início dos anos 80 eu adorava circular nos guetos gays com o meu Walkman a tiracolo – Além de tocador de música era um acessório da moda.

Junto com as novas tecnologias daquela década chegou a AIDS – Eu tinha 22 anos em 1981 e foi uma época negra. Todos tinham pavor de contato sexual. A rejeição era tanta que durante muito tempo eu não vi mais homens se beijando. Também, perdi muitos conhecidos e amigos. Definitivamente, a AIDS mudou o mundo e as pessoas.

Em 1984, eu não participei do movimento pelas diretas já, porque estava envolvido num relacionamento neurótico e complicado com um homem de 56 anos de idade que viria a morrer um ano depois num acidente automobilístico na avenida 23 de Maio, próximo ao Parque do Ibirapuera.

Eu me recordo do anuncio da morte do Tancredo Neves, num domingo à noite de 1985 – Eu estava dentro de um hotel transando com um gay maduro chileno.

Em janeiro de 1986 a minha vida mudou radicalmente com o falecimento da minha mãe. Naquele dia 25 de janeiro a minha juventude acabou e junto com ela os melhores anos da minha VIDA.

E assim, se passaram mais de 25 anos de vida e cheguei aos 52 anos com uma certeza:

Tudo o que vivi foi maravilhoso, inesquecível e não me arrependo de nada. A vida é assim: Um dia chove e noutro faz sol. Alegrias e tristezas caminham lado a lado todos os anos da minha vida.

Se eu tivesse que fazer tudo de novo eu não hesitaria um segundo. Ser gay é muito mais do que simplesmente uma preferencia sexual.

Ser gay é viver cada momento de uma época presente que breve se tornará passado.

É sonhar com um futuro improvável que breve se tornará presente.

E você? tem alguma memória da sua juventude relacionada com a sua vida gay? deixe os seus comentários.

Nota: artigo atualizado em fev/2014

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