Gay idoso e o medo da morte

Todo ser humano tem pavor da morte, mas no decorrer da vida aprendemos e assimilamos a morte como um processo natural da vida.

Para os gays, principalmente, os mais velhos a morte é muito mais pavorosa.

Em minha opinião a associação do envelhecimento com a morte tem muito a ver com a repulsa à velhice.

A morte está presente em todas as faixas de idade dos gays contemporâneos. AIDS, acidentes de transito, crimes violentos, vitimam a maioria dos gays jovens.

Mais do que a morte, o envelhecimento provoca depressão e horror à decadência física. As perdas das habilidades corporais cognitivas bloqueiam a expressão das emoções – a perda, em suma, dos atributos básicos que fazem com que o gay seja reconhecido, valorizado, levado em conta em qualquer interação social.

Se você caminhar nas imediações da Rua Vieira de Carvalho no centro de São Paulo, vai perceber e identificar facilmente, os “coroas”.

Eles são figuras clássicas da cena gay paulistana e se você perguntar a cada um deles qual é o maior problema na velhice, você vai ouvir a mesma resposta: solidão.

Se você perguntar se eles têm medo da morte, vai ouvir a mesma resposta: sim.

O medo da morte também está associado à não realização dos sonhos e desejos. Esses “coroas” ainda querem encontrar um parceiro para relacionamento, senão, apenas um outro gay para conversar e assim, passar o tempo.

Quando o gay idoso tem uma vida de realizações pessoais e a sua sexualidade deixou de ser um problema, ele não terá solidão e não tendo solidão não terá medo da morte.

Solidão e morte andam de mãos dadas na velhice gay. É óbvio que existem outros fatores, mas os principais são esses.

Nessa mesma Rua Vieira de Carvalho eu encontrei um coroa gay de 74 anos que há mais de 20 anos eu não via.

Num bate papo rápido e informal ele me disse que enquanto ficava em casa, a solidão e a depressão apareciam todos os dias e o pavor da morte eram sonhos constantes. A partir do momento que ele decidiu sair para encontrar homens, conversar e passar o tempo, a vida dele mudou. Ele descobriu que lá fora tinha um mundo de possibilidades e os problemas psicológicos sumiram.

Mesmo num gueto como a Rua Vieira de Carvalho, para ele ainda era melhor do que estar trancado dentro de casa e sem ninguém para conversar e compartilhar as angústias e os medos.

O mundo está repleto de possibilidades e os “coroas” gays estão percebendo que as concepções do envelhecimento como processo melancólico e decadente não tem mais sentido.

Hoje os gays de meia idade e os idosos estão descobrindo que as últimas etapas da vida devem ser enriquecidas com possibilidades e vida. Eles estão substituindo o pensamento pessimista por um pensamento prá cima e com alto astral.

Na verdade os gays idosos estão se modernizando e tendo uma atitude em relação ao tempo e ao envelhecimento que dá ênfase às possibilidades de lutar para manter a identidade própria. Eles estão descobrindo novas fontes de poder pessoal e, assim, estão mais triunfantes e felizes.

Portanto, para aqueles gays que estão nesta nova onda de possibilidades o titulo deste artigo não faz sentido, mas para a maioria dos gays que vive em cidades pequenas, sozinhos ou que moram com suas famílias, os pensamentos negativos ainda estão presentes no seu cotidiano e neste cenário eles ainda tem muito medo da morte.

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Sobre Regis

58 anos de idade, residente na cidade de São Paulo

Publicado em 26/09/2011, em Comportamento, Qualidade de Vida, Sexualidade e marcado como , , , . Adicione o link aos favoritos. 4 Comentários.

  1. Parabéns, Regis! Você me fez chorar… Meu companheiro tem 84 anos, mergulhou num pântano escuro, ensimesmou-se e por mais que faça,não consigo tirá-lo do abismo; pois a morte se tornou presente, meteu-se entre nós feito uma intrusa, acorda, deleita-se e dorme conosco. Vivemos cercados por ansiolíticos. Ele acha tudo estranho. Seu horizonte é pouco mais que uma linha curta, estendida entre dois pontos, nada além que um muro, um imenso muro. Não vejo mais nos seus olhos o amanhã; às vezes sinto vergonha por ser mais jovem e ficaria feliz, se pudesse vê-lo novamente feliz.
    Parabéns pelo excelente artigo!!!

  2. Sou repórter do Jornal Estado de Minas, em Belo Horiozonte e gostaria de saber quem escreveu esse artigos sobre os idosos gays e a solidão e quem está na foto que achei simplesmente linda. Abçs Déa

  1. Pingback: Qualidade de vida dos gays maduros | Grisalhos

  2. Pingback: Gay idoso é a bola da vez « Grisalhos

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