A vida dos gays nos anos 50

Até o fim dos anos 50, não existiam bares dirigidos exclusivamente ao público gay.

 “Naquela época eu não imaginava que meio século depois tudo isso mudaria, porque a repressão era muito forte e toda a sociedade condenava a pederastia”.

Palavras de um velho conhecimento que hoje tem 78 anos.

A maioria dos gays procurava os seus parceiros em locais públicos em parques, praças, cinemas, e banheiros. A paquera era muito discreta e com poucos indícios que denunciasse o homossexual.

Uma minoria dos gays, principalmente os maduros e afortunados se encontrava em restaurantes, cafés, ou partes de praias.

A maioria dos homens solteiros morava com suas famílias até o casamento, encontros sexuais muitas vezes ocorriam em quartos alugados, ou em casas de amigos. Pequenas festas, shows de travestis realizados em casas particulares, e fins de- semana no campo ou na praia oferecia um espaço livre de controle social.

 “Eu me sentia muito reprimido por não ter espaço para paquerar. As poucas vezes que tive a oportunidade de me sentir livre foi no sitio de um amigo no interior de São Paulo. Lá tudo acontecia com muito sigilo. Bebíamos a noite inteira e nos lambuzávamos de sexo homossexual e quando raiava o dia todos iam embora”.

Quem lê esse depoimento não faz ideia como as coisas eram difíceis. Os encontros eram raros e sempre sob os olhares atentos e críticos de estranhos. Os gays usavam o código do olhar porque qualquer gesto ou atitude era percebido e imediatamente reprimido.

Os gays tinham que manter um comportamento heterossexual para não serem acusados ou indicados anonimamente à polícia.

Nos grandes centros urbanos as festas gays aconteciam em apartamentos e também sob os olhares repressores de porteiros e zeladores, além de vizinhos ultra conservadores e dispostos a acabar com a alegria dos convidados. Muitos não tinham pudor em ligar descaradamente para a polícia informando que “um grupo de pederastas” estava perturbando o silêncio do local.

Denunciar atos e atitudes homossexuais era quase que um dever do cidadão comum. Era uma obrigação e um prazer encontrar gays e denunciá-los aos órgãos de controle. Para os cidadãos ser homossexual era uma doença e um mal à sociedade.

O amor entre os gay nos anos 50 era mais romântico e talvez, por conta de todas as restrições e controles sociais as relações entre os casais eram mais estáveis.

Também, é importante destacar que muitos gays sofreram violência física e moral, além da violência psicológica que castrou milhares de seres humanos.

Não há registros, mas os casos de suicídio eram comuns.

Enfim, isso já passou, mas fica o registro de como era o cotidiano dos gays naquela época e as lembranças de tempos que não queremos que volte nunca mais.

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Sobre Regis

57 anos de idade, residente na cidade de São Paulo

Publicado em 22/08/2011, em Comportamento, História, Memória, Sociedade e marcado como . Adicione o link aos favoritos. 6 Comentários.

  1. Por isso que eu luto tanto contra a homofobia, pra que isso nao se propague novamente. Eu queria muito confortar os homossexuais daquela época pois sinto o quanto era sofredor viver no meio de uma sociedade totalmente machista, conservadora e homofobica. Se nao existissem as lutas dos LGBT hoje em dia. A opressao á nós ainda existiria. E ainda existem pessoas infelizes que chamam isso de “mimimi”

  2. Nos anos 50 eu era criança, mas me lembro de um vizinho que fazia calças para um alfaiate, e morava com a mãe. Diziam que ele colocava um enchimento de papel na bunda. Era efeminado mas sério. Talvez por isso ninguém levasse a mal quando ele ficava com um menino no colo, por exemplo. Na verdade as pessoas levavam na brincadeira. Ele tinha um amigo que era bem bicha, usava maquiagem, laquê, andava pela rua cantando “me chamaram de escandalosa ai ai”. Uma vez escutei ele dizendo ao seu amigo: vou fazer um escândalo “daqueles” com o meu namorado. Muito, muito engraçado.

  3. Hoje, eu ainda reclamo da nossa “pouca liberdade” de expressão de amor, ainda mais quando essa bancada evangélica cisma em jogar a biblia na nossa cara. Mas pelo que li, naquela época era muito mais dificil mesmo. Vou, a partir de agora, me contentar com o pouco de muito do que temos. Valeu pela publicação.

    • Se contentar com o pouco não é solução. É necessário continuar lutando para conquistar novos espaços. Senão, tudo retorna onde estava. Existem muitos lutando contra.

  4. muito legal estas lembranças, mas apesar de tudo não tinha aids e nem crack. Quem usava maconha era considerado bandido, ai que loucura! mas tenho muita saudades, eu achava que so eu era gay (bicha) o nome da epoca. Quando conheci outros doi um alivio porque todo mundo dizia que era doença, mas valeu a reportagem, eu me identifiquei muito.

  1. Pingback: A vida dos gays nos anos 60 « Grisalhos

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