Um gay maduro no consultório psiquiátrico

Augusto tem 60 anos e depois de tanto remediar e por recomendação de um amigo procurou ajuda de um profissional. Ele foi direto ao psiquiatra e nem passou por um psicólogo.

No consultório psiquiátrico, primeiro, ele chorou muito porque nessa idade não aguenta mais sofrer às escondidas.

A consulta psiquiátrica foi uma oportunidade para o Augusto abordar temas tão delicados da sua homossexualidade.

Na primeira consulta ele reclamou do isolamento social, tão comum aos gays, mas que no seu caso tinha outro enfoque porque ele tem um relacionamento estável há 10 anos e a vida social do casal se resume ao trabalho, cinema nos finais de semana e apenas um amigo.

No mês seguinte o psiquiatra identificou estado de depressão. Na idade do Augusto a vida está definida, os sonhos já não povoam a sua mente e o prenuncio da velhice gay incomoda. O isolamento social leva os gays a um estado de depressão que se instala silenciosamente e quando se percebe já toma conta da sua vida e ai o tratamento é à base de muitos medicamentos.

Bem, o problema grave do Augusto não era o isolamento social e nem a depressão, mas a ansiedade diária e ideias de suicídio.

Frequentemente, Augusto se via pulando da janela do seu apartamento no décimo segundo andar do prédio onde mora e nunca contou a ninguém sobre esses pensamentos.

Não pense você que esse tipo de ocorrência é raro porque essas situações são comuns entre os gays e principalmente os mais velhos e idosos.

A falta de carinho combinado com Isolamento social + Depressão + Ansiedade = Ideias de suicídio.
 
Depois de um ano de muita medicação e diversas visitas ao psiquiatra Augusto conseguiu equilibrar os seus pensamentos suicidas. O Médico vai continuar fazendo o acompanhamento do paciente porque ninguém se cura dessa doença definitivamente.

Neste ano a vida do Augusto mudou. A primeira coisa que fez foi romper a relação com o parceiro. Ele descobriu que nunca havia sentido amor ou carinho pelo companheiro. O parceiro também não tinha amor, simplesmente “gostava” e queria apenas sexo e boa vida, não sabia expressar os sentimentos de carinho. Para o parceiro Augusto era apenas um “troféu”.

Na velhice os gays escolhem companheiros para amizades, sexo e vida social, mas sempre falta o principal: amor, carinho e afeto.

O gay idoso pensa da seguinte forma: já vivi demais, sofri desilusões e nesta idade não vou encontrar o homem certo para ser o meu parceiro. Outra coisa interessante: A escolha sempre inclui a beleza física e a estabilidade econômica, mas exclui vários atributos vinculados ao carinho.

Hello!! Não existe o homem gay ideal.

O seu parceiro será aquele com quem você faz sexo como terapia e sem obrigação e brinca como criança sem ser criticado. Será aquele que te completa, te auxilia e te apoia em tudo.

O seu parceiro será aquele que gosta de compartilhar coisas simples como: tomar banho juntos, cortar as unhas dos pés, fazer massagem ou entrelaçar as pernas na hora de dormir.

O seu parceiro será aquele que gosta de estar ao seu lado em todos os momentos da vida.

O seu parceiro será aquele que lava a louça após o almoço ou jantar, limpa a casa quando a empregada estiver ausente ou que conversa abertamente sobre os todos os problemas do cotidiano.

Uma relação gay é antes de tudo uma relação humana. Levamos tanta pancada no decorrer da vida que ficamos insensíveis e nos fechamos às questões simples da vida.

Outro fator importante: não basta ter um companheiro, é necessário manter um circulo de amizades, mesmo que restrito. Você não vive numa ilha, portanto, aprenda a socializar.

Não existe receita de felicidade para os gays, mas na velhice temos que trabalhar a auto estima e ter muita atenção às situações que nos levam a ter doenças muitas vezes incuráveis.

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Sobre Regis

58 anos de idade, residente na cidade de São Paulo

Publicado em 20/07/2011, em Comportamento, Qualidade de Vida, Relacionamento, Saúde e marcado como , , . Adicione o link aos favoritos. 10 Comentários.

  1. Marcelo Amancó

    É inegável que, com o assunto sendo psicoterapia, nós, com mais de 60 anos, pertencemos a uma geração extremamente reprimida pelos conceitos equivocados sobre sexo e amor transmitidos por certos credos religiosos. Some-se a esse fator a influência familiar, responsável por uma educação castradora – e não libertadora – que nos tolheu os passos e nos colocou a cabresto de sermos nós mesmos, homo ou heterossexuais. Converso com meus pares de geração e noto que essa opressão, resultado da repressão, atinge a muita gente. Devemos cruzar os braços e chorar ? Claro que não. Obstáculos é para serem removidos e transpostos. Consequências de repressões precisam, com o tempo, ser dissolvidas por todos nós, com a ajuda de especialistas, se for o caso. Agora, causa uma certa inveja, longe de ser maldosa, dessa geração dos 18 ou 20 anos que não foi submetida a essas toneladas de conceitos nefastos à saúde emocional das pessoas. Esses jovens de hoje são muito mais felizes que nós, mas enfrentam uma dificuldade que não vivenciamos, tal como se apresenta hoje: a escravidão às drogas. Quando éramos jovens, elas existiam, mas não com a quantidade e a facilidade de acesso atuais. Eles estão sendo oprimidos pela dependência química, e não se dão conta dessa realidade, considerando que consumi-las é sinal de grandeza, modismo e autoafirmação. Qual das gerações leva vantagem ? O jogo está empatado, porque um e outro empeço é danoso ao bem-estar de todos nós.

    • Marcelo,

      Não sei se a coisa é tão tranquila assim. Minha vida, já longa, foi um constante negar de minha homossexualidade e só depois de maduro, bem maduro, eu a aceitei.

      Mas continuei, e continuo, sem me entender bem. Talvez por ser bissexual isto seja mais complicado. A verdade é que ano passado, já com 65, aceitei fazer terapia. De início não pelo homoerotismo, mas agora principalmente por isto. Quero viver o tempo que me resta podendo ter relações sexuais com homens sem ficar preocupado com isto.

      Mas a cada dia vejo como isto não é tão fácil. Os jovens hoje me parecem tão perdidos como os de minha juventude, você tem razão. E, posso estar enganado, mas ser viado continua sendo um defeito para a maioria das pessoas, mesmo os gay. Uma saída tem sido se trancar no gueto. Mas guetos não são confortáveis e não nos protegem para sempre. A experiência judaica mostrou isto de forma horrorosa não tem muito tempo.

      Outra forma é ficar no “armário”, na verdade ser discreto e não tentar mudar o mundo. Este é o meu caso, não que eu ache correto, mas estou muito velho…

      Mas respeito e admiro os que não querem nem o gueto nem o armário. Pode ser que este não precisem de psicoterapia

  2. oi jorge valeu o seu comentario gostei mesmo, é isso ai não podemos ficar parado, muito obrigado.

  3. Realmente ficar parado não resolve nada eu tambem acho e concordo, mas aqui a coisa é diferente.
    A cidade não oferece nenhum lugar para entendidos, a gente fica sem saber e eu tenho muito medo da bandidagem e prefiro não dar motivo, e com isso eu sofro demais, fico muito isolado, os meus amigos são todos heteros.

    • Caro Luiz, entendo suas preocupações, são as minhas também. Como vc faço terapia em busca de conviver melhor com minha situação. Não acredito que seja situação diferente aqui onde vivo. Quando digo que não podemos ficar parados, tenho em mente estarmos buscando soluções para que possamos sair do isolamento, não digo que seja fácil. Vc, por exemplo, faz terapia e está aqui conversando com um grupo, acho que isso é válido e já é um grande passo. Concordo que não podemos ficar correndo risco de sermos vítimas de aproveitadores e da bandidagem, é o que mais encontramos. Mas acho que podemos encontrar amigos, mesmo heteros que nos ouçam e possam nos fazer sentir menos sós. Um abraço. Jorge

  4. Tobias Roça

    Parabéns por esse comentário. Ele expressa uma preocupação que atinge praticamente todos nós, homossexuais, com mais de 60 anos. Algumas das situações dessa faixa de idade foram traduzidas pelo texto. Beleza, ainda que sofrido.

  5. edgarsaldanha

    Oportuno trazer uma reflexão a respeito envelhecimento X gays – só assim desconstruiremos esse arquetípico que somos somente luxo,purpurina etc.
    Somos pessoas comuns com todos os sofrimentos inerentes, porém, temos um diferencial: a luta interna da repressão e a vil hipocrisia da sociedade em geral sobre tratamento igual p/todos os cidadãos.
    É bom que nós 60tões, repensemos nossas escolhas/parcerias.Evitando sermos presa fácil de oportunistas/alpinistas, manipuladores das nossas carências psico/afetivas.
    Há saidas dignas sim, lembramos “Só há opressores se o oprimido permitir”…

  6. Este artigo tem haver comigo, eu tenho 59 anos e faço terapia ha 5 anos, e ainda me sinto muito só e não tenho ninguém há 20 anos, e tenho medo, moro em uma cidade do interior e eu ainda acho que pelo fato de ser gay parece que as pessoas se afastam. É muito estranho.

    • Este artigo assim como os outros que tenho lido no Grisalhos é um incentivo à vida. Vencer nossos medos e ver a vida sem idealizar situações como o encontro do companheiro ideal ou do amigo ideal é algo difícil para muitos de nós. Também moro numa cidade do interior de Minas e tenho outras situações em minha vida que me impedem de realizar o sonho de ser eu mesmo. Mas continuo tentando pois descobri que ficar parado lamentando é um atraso.

      • Eu aprendi às duras penas que nada na vida é eterno.
        Na minha velhice gay eu não quero enferrujar e me acomodar.
        De que adianta ficar lamentando se cada dia eu fico mais velho?
        Também, não quero ficar com depressão ou idéias de suicídio como o Augusto, pois a vida é muito preciosa para ser desperdiçada

        abs

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