As ciladas comuns da vida gay

Quantos de nós, gays, já nos questionamos: Será que algum dia eu vou encontrar alguém legal para ser o meu parceiro?

Na juventude e até os trinta e poucos anos nós gostamos de ir ao matadouro, “para o festival de carne“, nos bares, saunas e boates. Essa é a rotina da noite gay de qualquer grande cidade do Brasil.

Muitos gays gostam de se relacionar com homens casados, outros gostam de ferver e cultuam apenas a beleza física dos bofes. Ah, não posso me esquecer dos gays que são românticos e vivem a desilusão de relações amorosas que não deram certo.

Num determinado momento da vida de todos os gays vem o questionamento sobre as idas e vindas aos clubes e bares noturnos GLS.

O cotidiano dos gays é sempre igual. As pessoas são as mesmas, só querem saber de sexo e ninguém está a fim de um relacionamento mais sério.

Os gays, independente de suas características, sabem que dificilmente irão encontrar uma pessoa para se relacionar, além do sexo em uma boate – uma cilada comum da vida gay.

Além das boates e dos bares, quais outros espaços a comunidade homossexual tem para se relacionar? Esse é o grande conflito de todos, mas também pode ser encarado como o grande drama da comunidade gay.

Apenas uma minoria encara esses conflitos de frente porque a maioria prefere não pensar a respeito e escolhem ficar vagando na noite numa incessante busca frenética por companheiros e que ao final da noite não vai além do sexo. Quantos gays terminam sozinhos à noite?

Eu tive um amigo que odiava ficar sozinho e no meio da madrugada saia como louco para procurar um corpo de homem para terminar a noite. Aquelas atitudes lhe renderam muitas encrencas, com homens bêbados, taxistas e notívagos de plantão.

Analisando as ciladas do cotidiano dos gays eu chego a duas conclusões:

Uma é que se trata de um dilema clássico e que para alguns não tem solução mesmo!

A outra pode ser um convite para refletirmos sobre o mundo gay do qual fazemos parte.

A grande maioria dos gays procura um parceiro fixo, com quem possa compartilhar dos bons e maus momentos, mas devido à busca pelo parceiro ideal ou ao corpo perfeito ficam à mercê da solidão.

Os gays vivem dos parceiros sem nomes, do sexo anônimo na sauna, da ilusão de uma relação com um homem casado que se sabe de antemão que não irá para frente.

O hedonismo solitário será o destino da vida dos gays. Amargo? Não, diria que é realista e faço uma crítica, sem ser chato ou politicamente correto, a respeito dos valores da comunidade gay.

Isso tudo é a valorização do corpo e o individualismo exacerbado. Daí quando você passar a mão sobre o seu rosto e perceber as rugas e os vincos, vai descobrir que o tempo passou.

Vai lembrar que já passou dos 40 anos, que está sozinho e, pior que isso, no mesmo lugar onde estava aos 25 anos. Onde? Na pista das boates, nas mesas dos bares, no darkroom das saunas procurando desesperadamente por um “corpo”.

Finalizo este post com um depoimento de um jovem de 23 anos que me escreveu no mês passado:

Cantar ou ser cantado? Em locais públicos, já se tornou moda. Não interessa onde, nem hora e nem dia, qualquer momento é o momento. Sempre tem um atirado lançando aquele olhar matador, que por vezes é retribuído com um disfarçado sorriso e outras com um sorriso confirmador. Mas quando o cara não agrada às minhas exigências, todo o meu corpo, como em perfeita harmonia, trata de esnobar o coitado que me encarou. Viro as costas e procuro outro.

Sobre Regis

57 anos de idade, residente na cidade de São Paulo

Publicado em 21/06/2011, em Comportamento, Sexo e marcado como . Adicione o link aos favoritos. 10 Comentários.

  1. A dificuldade em encontrar “príncipes (ou princesas) encantados(as)” é a mesma para homens hetero ou homossexuais e para mulheres idem. É que eles só existem em fantasias completamente fantasiosas. O que há são seres humanos, variados, feios ou bonitos, espertos ou tolos, inteligentes ou burros. Para cada aparente dicotomias como estas, na verdade há uma gama que vai do horroroso ao belíssimo. Cada um, ou uma, vai ser um composto de qualidades. Ninguém terá tudo.

    E então? Bem, um amigo já falecido me dizia que o amor é como a neurose. Começa com uma cisma e, aos poucos, vai se fixando e, quando vemos, estamos neuróticos. Ou amando profundamente. O difícil, dizia ele, e perder a neurose. Ou deixar de amar. Nos inventamos neuroses e amores, mas temos dificuldade de desinventar…

    E manter o amor significa reinventa-lo continuamente. O que é difícil para os homens é não admitir que gostamos de variedade seja de homens, de mulheres ou… de ambos. As mulheres sabem que não podem confiar em seus maridos. E nos também sabemos que não podemos confiar em nossos homens. A maioria da mulheres vai se acomodando, querendo não saber, fingindo não saber, ou sabendo e relevando o comportamento do parceiro.

    Para começar a relação a ser estável parece-me que temos que começar aceitando este comportamento masculino. E cada “príncipe” deve ser ou uma trepada única, ou um affair, ou um deixa para lá. Se o novo começa a querer ficar com você só para ele, ou você desiste do parceiro fixo ou você corta. E redescobre o parceiro(a) como objeto de um amor reinventantado.

    Descobri isto a duras penas, confesso. Não estou mais na idade de casar novamente. Procuro redescobrir motivos para reinventar o amar constantemente. Mas, sendo homem que gosta (também) de homem, procuro retirar prazer e até paixão com que surge, mas evitando sempre, e sendo honesto com eles, que eles inventem um amor eterno enquanto dure que não virá

  2. Tenho 30 e já sofro com estes problemas. Eu curto caras mais velhos, mas tem de ser malhados. Dois relacionamentos estáveis que tive não deram certo, muitos dos motivos foram minha falta de maturidade para lidar com algumas situações. A cada um destes rompimentos, o sentimento e a frustação de achar que irei terminar meus dias finais de vida sozinho são intensificados. E triste, mas parece ser o caminho que me resta.

    • eh isso que eu nao quero. por isso estou saindo dessa vida. Deus tem coisa melhor pra gente.

    • Em resposta a Leonardo (29/04/2015)
      Você fala em falta de maturidade da sua parte: a maturidade acaba vindo com o tempo, cedo ou tarde, tudo bem que tem gente bem mais nova que é muito mais madura que muita gente bem mais velha, mas muitas são pessoas que tiveram que amadurecer rápido demais. De qualquer forma, a maturidade acaba vindo, cedo ou tarde. Também já sofri muita frustração por achar que ia terminar sozinho. Quer saber? Você fala em falta de maturidade, será que ela não vai vir agora que você está passando por esse momento? Sei que é fácil falar, pois só quem está passando é realmente quem sabe o que está sentindo, mas tente não pensar da forma como está no final do seu texto! Boa sorte para você.

  3. Eduardo Policarpo Soares

    Me identifiquei muito com esta matéria pois isto foi uma realidade minha até os meus 30 anos de idade quando decidi parar de frequentar o meio GLS. Hoje tenho 44 anos de idade e tenho um relacionamento de união estável com um rapaz de 22 anos de idade que comecei a me relacionar quando ele tinha seus exatos 18 anos. Namoramos durante 6 meses e ai passamos a morar juntos debaixo do mesmo teto. Vivemos hoje uma vida de casado com os direitos e obrigações, momentos de prazer e momentos de dificuldade mas tudo com cumplicidade, sinceridade.

    Mas esses anos de caça que vivi (dos meus 22 até meus 30 anos) me ensinaram muita coisa pois tive muitas desilusões, já fui assaltado dentro do motel, na rua por ceder aos encantos de “novinhos” que pareciam a primeira vista querer um sexo gostoso mas na verdade estava mesmo era afim de uma oportunidade de dar o bote e o “otário” aqui caia igual um peixinho.

    Já fui o “veadinho das ruas” que satisfazia os desejos dos pichadores, dos favelados, dos jovens dos aglomerados, gostava de andar pelas madrugadas como um vampiro pela procura insaciável pelo sexo e prazer.

    Aprendi na vida gay tudo é mais curto, nada é para sempre, aprendi que os que tem seus corpos cultuados e venerados hoje são as mariconas de amanha que correrão desesperadamente atras dos novinhos na esperança de terem sua juventude revivida.

    Sei que nada é para sempre, mesmo eu estando hoje com um relacionamento estável e uma vida de casado exemplar. Sempre converso com meu esposo e passo para ele as experiências que tive no mundo GLS.

    Para falar a verdade quando conheci meu atual marido eu estava decidido a viver a minha vida a viajar pelo Brasil a fora para conhecer lugares e curtir a vida sem se preocupar com caçar para satisfazer minhas vontades de sexo. Foi neste momento da minha vida que ele apareceu, um rapaz que nunca frequentou o meio GLS, nunca teve contato com as gírias e os dialetos utilizados nos guetos gays e por ai vai.

    Mas mesmo tendo esta relação que “as vezes acho que é um conto de fadas” tenho ciência e os pés bem no chão de que tudo é efêmero nesta vida.

    Amo e respeito muito o homem que vivo com ele hoje mas tenho ciência que um dia pode passar, espero eu que nunca passe mas o futuro não tenho como saber por este motivo vivo o presente.

    Gostaria de receber um comentário de grisalhos a respeito.

    Obrigado.

  4. ricardo rocha

    Pela primeira vez tive a maravilhosa oportunidade ler quase toda a matéria de vocês. É incrível como nos acorda, são situações realmente vividas. Hoje com 60 anos,me considero bem e de bem com a vida e até tive uma conversa com o espelho meu, e aí tive um encontro com coisas e fatos que aconteceram, acontece e que não nos damos conta, achei extremamente positiva a matéria. Parabéns. rr.

  5. Amigo, eu vivo esse problema: saio para “caçar” (só que atualmente já não estou saindo mais tanto como antes), e a solidão que muitas vezes consigo no fim da noite é dureza! Não quero e não curto essa vida de “caça”, mas infelizmente é o que me resta! Sabe quando você se convence que o seu negócio é ficar sozinho mesmo? Pois eu já me convenci! Mas a solidão não é a minha opção (nunca foi), mas definitivamente algo sério não é a minha praia (por falta de sorte)!

    Quero muito ter um relacionamento sério com alguém (até já tive), mas como não dou sorte, melhor parar de insistir! Quase não saio mais porque cansei dessa vida de “caça” e, se é para terminar a noite sozinho, fico em casa sem perder noite de sono, pois assim lucro mais! Sei que essa solidão não é exclusiva do nosso meio, mas eu já passei dos trinta e quero muito ter um companheiro, quero muito ter um relacionamento sério! Posso conseguir um relacionamento sério indo para a “caça”? Posso, mas as possibilidades não são tão altas assim!
    Esse tempo que eu fico perdendo na “caça”, agora estou investindo em viagens. E não são viagens tipo com amigos gays “caçando” as melhores boates GLS do local, pois estou optando em viajar sozinho mesmo! Agora mesmo no réveillon viajarei sozinho! Sei que não é o ideal, mas é melhor que ficar “caçando”! E mesmo para onde vou não quero saber de caçar: sairei, sim, mas para conhecer o lugar e pessoas novas, nada de paquera!
    A solidão é severa! E quando você se dá conta disso depois de um tempo, vê a idade chegar e nada, apavora ainda mais! Eu mesmo acho que a solidão será minha companheira, mas chegar a essa conclusão apavora! Mas não é por isso que sairei por aí “caçando”! De vez em quando até dou minhas escapadas, mas sinceramente essa não é a vida que quero para mim.

  6. edgarsaldanha

    Pois sim, cilados todos humanos etamos susceptiveis,mas em se tratando de gays maduros, a situação é mais complexa.Com a massificação da net as proporções deram espaços p/os transtornados e oportunistas mostraraem a cara.Esta sim temos que nos estar atentos.Pois as lacunas solitarias e vazias em nos faz com que sejamos mais vulneraveis.Cuidado com os caras “adoro coroas”, são uns pilantras oportunisstas além de péssimos parceiros sexuais.

  7. Que diabo de tragédia é essa? Flagar-se sozinho depois dos 40 num local onde esteve aos 25? kkkkkk Eu tenho 77 (Juro) e só muito recentemente descobri que minha atividade sexual está limitada pelo túmulo, já que, por ser passivo não preciso da ereção… Nunca fui tão cantado em toda minha vida: na rua, no taxi, nas aglomerações, sem falar da sauna que evito ir só, para não ser comido outra vez por CINCO machos diferentes numa manhã de domingo. Há coisas e queixas que eu não consigo entender.

    • Juca

      Como você mesmo disse: nunca foi tão paquerado.
      Você está sendo usado como carne fresca por todos esses homens que te procuram, na rua, no taxi, nas aglomerações e depois te jogam na lata do lixo.
      Se a sua vida se resume apenas a isso, é lamentável, porque há coisas e queixas que ainda virão, desde a perda de um filho, até a perda da dignidade, como farrapo humano largado à própria sorte.

      abraços

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