Personalidade: Aparício Basílio da Silva

O amor homossexual sempre rondou os bastidores da História, independentemente de classe social, raça ou religião. Um dos grandes nomes da cena paulistana dos anos 60 e por mais de três décadas foi Aparício Antônio Basílio da Silva.

Aparício veio com a família para São Paulo ainda criança, de Itajaí, Santa Catarina. Nos anos 50, estudou pintura, mas desistiu da carreira quando viu artistas como Di Cavalcanti e Aldemir Martins passando dificuldades financeiras. Mais tarde, cercou-se de obras de arte, colecionando telas de Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, Carlos Prado e outros. Tornou-se comerciante, industrial e, em 1981, inaugurou uma exposição de 23 esculturas e 78 múltiplos (esculturas reproduzidas mais de uma vez) numa galeria de Nova York – Aparício nasceu pobre e ficou rico.

Escultor, estilista, ex-presidente do Museu de Arte Moderna de São Paulo e empresário de sucesso, tendo sido responsável pela criação da linha de perfumes Rastro, a segunda perfumaria nacional, logo depois da Phebo. Frequentador assíduo da alta sociedade paulista, sua vaidade se refletia na vestimenta, possuindo mais de 200 camisas, 240 pares de meia e 60 pares de sapato. Era capaz de reunir em poucos minutos um dos grupos mais animados da cidade para uma festa e contar histórias que deixavam indiferentemente bem ou mal as mais conhecidas figuras do país.

Em 1978, ele fez uma incursão no campo teatral, tornando-se produtor da peça Chuva, de Somerset Maugham, protagonizada por Consuelo Leandro, Sergio Mambert e Raul Cortez, no Teatro Anchieta, em São Paulo. Ouviu críticas da classe teatral que o recebeu como um intruso no meio.

Sua perfumaria nasceu no fundo de um quintal de uma loja de presentes com o mesmo nome, Rastro, na Rua Augusta, em 1956, que veio a ser a primeira butique da cidade. Ali, em sociedade com uma amiga, ele começou vendendo praticamente tudo na área de roupas e adereços e acabou desenhando moda para as clientes.
Em 1960, com o irmão João Carlos, químico, começou a fazer a colônia Rastro. O sucesso foi imediato. Depois de algum tempo, a colônia, num conjunto que também compunha sabonete e desodorante, tornou-se um negócio mais importante do que a loja que lhe dera origem, colocando-se bem num mercado altamente competitivo.

Em 1978, quando vigorava o autoritarismo, uma campanha publicitária lançada para promover o perfume Rastro, aconselhava sugestivamente para todos os contatos irresistíveis de primeiro, segundo, terceiro ou qualquer grau. Emoldurando a peça, três fotografias eram apresentadas: a de um elegante casal, a de uma cena de carícia entre duas mulheres e a de um jovem e um homem de meia-idade posando juntos.

Um dos mais bem sucedidos self made man do país, Aparício comercializava também louças sob a marca Faiança, tecidos sob a marca Trama, bijuterias finas com pedras brasileiras e sachês, tudo encomendado a terceiros. Escreveu também um livro em inglês (A Romantic Is Born) e outro em francês (Moi Tout Nu ou Presque Nu). Em 1989 escreveu o livro de crônicas: Escritos Visantes.

Muito antes de as celebridades tomarem conta das badalações, das revistas especializadas e dos programas de TV, Aparício já se comportava como uma celebridade. Ia a tantos os eventos da noite paulistana que tinha até um lema. “O segredo é surgir, sorrir e sumir”. Ele reinou por mais de três décadas, do início dos anos 1960 até 1992, quando teve uma morte trágica, aos 56 anos em 26 de outubro de 1992.

Aparício foi brutalmente assassinado com 97 facadas, depois de uma noitada em uma das únicas boates gays da cidade naquela época, a Rave Dinner Club, na Rua Bela Cintra. O seu algoz tinha o biótipo clássico do garoto de programa e o principal motivo para o crime foi o dinheiro. Nesse crime outras duas pessoas estavam envolvidas, entre elas uma mulher. Um dos assassinos, Alexandre Santamaria Mendes, hoje ainda cumpre pena pela participação no crime.

Eu jamais poderia imaginar que um dia eu pudesse conhecê-lo, porque o Aparício era uma figura pública e eu tinha um tesão e atração por ele que naquela época vivia o esplendor dos seus 42 anos e eu 18 – coisas de adolescentes!

No verão de 1978 eu estava na Boate OFF na região dos jardins em São Paulo e numa das mesas lá estava ele sentado e acompanhado de dois jovens. Numa das suas saídas para o bar eu tomei coragem e puxei conversa. Ele foi muito gentil, mas disse-me que estava com os afilhados e não poderia estender a conversa – Se estivesse vivo, Aparício teria hoje 74 anos.

img_aparicio

Notas sobre o assassinato:

Aparício morreu com 97 perfurações, a maioria no peito, rosto e pescoço, provocadas por uma tesoura.
Os assassinos eram Arlindo Cajazeira de Carvalho, com 21 anos na época e já falecido. Alexandre Santamaria Mendes, 22 e hoje com 41 anos, e Kátia Valéria Moretto Mello, 23. Os três foram presos e condenados em 1994 a 29 e 27 anos de prisão, exceto Arlindo que já faleceu, os demais cumprem pena até 2021.
Aparício foi abordado por Arlindo na boate Rave, nos Jardins. Na região da Avenida Paulista, juntaram-se a Carvalho o casal Kátia e Alexandre.
Eles mataram o empresário e roubaram o seu carro, um Tempra. O corpo foi encontrado em uma vala à beira de uma represa.

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Sobre Regis

58 anos de idade, residente na cidade de São Paulo

Publicado em 22/02/2011, em História, Memória, Personalidade e marcado como , , , . Adicione o link aos favoritos. 17 Comentários.

  1. Kátia realmente está morta, pena que não posso colocar o óbito dela aqui.

  2. marta de souza

    Kátia Valeria Morretto Melo continua nas ruas da zona sul

  3. paula couto

    ela esta nas ruas

  4. Nossa! essa Kátia já morreu há uns 15 anos.

  5. Caramba fiz uma viagem no tempo agora! Quanta saudade…

  6. A mulher está falecida e morreu na prisão mesmo.

  7. pelo que saiba a mulher Katia, faleceu na prisão devido a doença AIDS.

  8. Lembro de tudo isso, é lamentável que esse tipo de violência continua acontecendo. Devo confessar que também já tive a ilusão de achar que podia comprar um jovem. Felizmente saí dessa com vida. Hoje, homem só da minha idade, ou mais velho.

  9. Sandra Nunes

    Nota: A assassina Kátia Valeria já circula novamente pelas ruas de Copacabana no Rio de Janeiro.

  10. Uma espécie de Darcy Penteado pelo prestigio no high society gay daquela época, mas sem a sensibilidade e criatividade desse artista múltiplo que foi o pintor e escritor Darcy.

  11. Tesão esse Aparício hein…..pqp.
    Por incrível que pareça meu perfume predileto; rastro aroma alfazema, desde criança, antigamente era em forma de um bojo hoje em spray mas
    difícil de achar…..18 dilminhas
    Esse homem escreveu como quis sua historia de vida:
    -surgiu: do nada e fez fortuna
    -sorriu: lindo sorriso, tinha o faz me rir(dinheiro) e “n” bofes ao cubo, festas, glam….
    -sumiu: um dia ele tinha que sair de cena, de que jeito? somente um homicídio pra dar fim no Aparício.

    .

  12. Gostaria de saber o nome dos assassinos do crime hediondo praticado contra o empresário Aparicio Basilio da Silva.

  13. Gostaria de saber o nome dos autores deste crime hediondo praticado contra o empresario Aparício Basílio da Silva.

  14. Emanoel, obrigado pelo breve comentário. Este espaço também visa manter viva a memória de pessoas especiais como o Aparício.

    abraços

  15. trabalhei com Aparicio um ´´otimo patrão

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