Arquivo mensal: fevereiro 2011

Mentes abertas, corações abertos

Ontem eu revi o filme A Single Man, cujo titulo infeliz em português é Direito de Amar, com Colin Firth, que finalmente ganhou um Oscar de melhor ator, por sua interpretação em O discurso do Rei.

Assim, como o personagem principal do filme, os gays são solitários e sozinhos e até a invisibilidade citada nos diálogos são reais.

As relações humanas são complexas e no contexto da sexualidade a complexidade vai além das peculiaridades individuais, porque é muito difícil alguma parte ceder em prol de uma relação pautada em carinho. Ninguém está interessado em fazer concessões.Tem gente que não gosta de carinho porque teve traumas na vida e acha tudo isso uma besteira.

Vivemos num mundo do imediatismo e dos valores materiais. Tudo está ligado ao consumo, ao individualismo, ao presente, ao aqui e agora – igualzinho ao enredo do filme, onde não há expectativas de um futuro – A única certeza do futuro, é a morte.

Quando se fala em carinho entre os gays, todos torcem o nariz. A primeira imagem que vem à mente é de um relacionamento edificado apenas no sexo.
Outro ponto discutido no filme e que também permeia as relações gays é o medo. O medo do futuro, da velhice, da solidão e principalmente, o medo da falta de amor, de carinho e afeto.

É óbvio que existem relações de afeto entre os gays. Eu conheço alguns casais que vivem relações de carinho porque se permitiram abrir o coração e a mente.
Será que temos que viver relações plenas de amor? Eu acredito que não. O amor é um sentimento que muda de acordo com nossas vivências, mas o carinho independe de amor. Quem nasceu carinhoso vai morrer carinhoso. Existe carinho sem amor? Sim, existe carinho sem amor! O carinho é um gesto afetivo entre dois indivíduos que pode envolver um contato físico, um olhar ou um gesto.

Eu tenho um amigo que vive um relacionamento há 25 anos e ele sempre me diz que não pensa em viver a vida sem o companheiro porque nem passa pela sua cabeça ficar sozinho e porque nunca encontrou um homem tão carinhoso quanto o companheiro.
Eu sempre digo pra ele: Você é esperto! e na minha concepção, a esperteza dele foi abrir o coração e ter a sensibilidade e a inteligência de perceber que o carinho do parceiro vem de encontro aos seus objetivos, mesmo que o futuro seja incerto.

Quando temos que ceder nós não fazemos concessões e preferimos partir para outro parceiro do que tentar conciliar as virtudes e os defeitos, que aliás, todos tem. Numa relação entre gays se existir o carinho, isso já é meio caminho andado para uma relação pautada em respeito e amizade.

No filme o protagonista queria suicidar-se porque não aguentava mais viver sozinho depois da morte do companheiro com quem viveu e amou por dezesseis anos, mas a vida é uma caixinha de surpresas e quando ele percebeu que um aluno se preocupou com ele e deu demonstrações de atenção e carinho, ele desistiu do suicídio, mas um ataque cardíaco fulminante lhe tirou a vida.

Por isso eu digo: Mentes abertas, corações abertos.

Quando abrimos a mente às possiblidades que a vida nos apresenta nas nossas relações, é importante ter a inteligência para avaliar cada uma delas, abrir também o coração e se permitir dar e receber carinho, porque é isso o que procuramos a vida inteira.

Quem tem a mente e o coração aberto nunca ficará sozinho na vida, mesmo que a única certeza do futuro seja a morte.

Gays maduros não revelam orientação a médicos

Acho que é cultural, mas os gays brasileiros não revelam a sua orientação sexual a ninguém e nem a médicos, apesar da maioria ter um historico de doenças sexualmente transmissíveis. Além disso, é evidente a situação de não preparação para o envelhecimento, embora os gays tenham pavor da solidão.

A forma como os gays preparam o seu envelhecimento também revela algumas fragilidades. O círculo de amizades é muito reduzido e a maioria admite que não conversa com a família e os poucos diálogos ocorrem com aqueles amigos mais íntimos, que na velhice dá para contar nos dedos.

Aqueles que estão envelhecendo não observam ao seu redor que outros gays da mesma idade ainda não entendem sua orientação sexual e evitam conversas sobre amor e sexo entre os iguais – É o que eu chamo de “cada um no seu armário”.

Em contrapartida os gays mais jovens trocam informações sobre a sexualidade e procuram compartilhar informações com colegas e médicos, o que pode auxiliar na identificação de doenças e obter auxílio médico para tratamentos que no idoso geralmente ocorre tardiamente.

Eu recomendo a todo gay maduro ou idoso: Procure um médico infectologista e que ele saiba sobre a sua orientação sexual. Ter uma relação aberta com um médico é o primeiro passo para enfrentar o preconceito internalizado em todos nós.

O ponto X deste assunto é a sua saúde e não a orientação sexual.

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