Gay maduro e transgressor

Eu nunca havia pensado nisso antes, mas todo gay é transgressor. A transgressão está na própria sexualidade que nos coloca frente a frente com a sociedade na qual estamos inseridos.

Transgredir é verbo transito direto – durante a nossa vida inteira seremos transgressores por infringir as leis da sociedade heterossexual dominante no Brasil e no mundo.

Desde os tempos de colégio eu sempre me senti um transgressor de outras regras, normas e leis, mas escondi minhas preferências sexuais para não ser achincalhado e humilhado. Na verdade os transgressores não gostam de se sentir acuados, pois não faz sentido ser transgressor e covarde.

Eu me recordo de uma relação sexual que tive com um padre lá pelos idos dos anos 70 –ele era um transgressor das leis e regras da igreja e gostava daquilo, mas não fazia nada para romper com o clero, portanto, era transgressor consciente.

Nas comunidades gays a transgressão passa necessariamente por uma quebra de conduta que tem origem em cada indivíduo e esse começa na família, depois na educação, nas relações de amizades das escolas e colégios e vai até o momento quando nos deparamos com as perseguições das garotas loucas e afoitas para namorar e fazer sexo. Fugimos delas como o diabo foge da cruz – O próprio diabo é transgressor das leis de Deus.

Transgredimos até mesmo quando enfiamos a cabeça no armário, seja para disputar uma vaga no mercado de trabalho, seja durante o período da faculdade e principalmente quando a família começa a perceber que não saímos com garotas, não fazemos planos de constituir família e temos hábitos de sair com amigos estranhos, invariavelmente, à noite e finais de semana.

Alguns poucos gays transgridem abertamente e chutam o balde assumindo a homossexualidade. Essa transgressão é aquela que tem um sabor especial, porque é a transgressão para a nossa liberdade a qualquer custo, é quando transferimos a nossa dor para os familiares e entes queridos – nesta situação o transgressor deixa de ser transgressor quando assume perante a família e a sociedade.

Para a maioria dos gays remanescentes dentro do armário, as transgressões aumentam na medida em que nos tornamos adultos. Gostamos de viver em perigo, dentro dos guetos, fugindo dos familiares como rebeldes sem causa.

Ficamos menos transgressores quando atingimos a idade madura, entre 40 e 50 anos – Nessa fase não queremos confrontos e rebeldias, não nos importamos muito com nada que acontece ao nosso redor. Se já nos libertamos da família vivemos a nossa vida sem dar muita satisfação à ninguém porque ninguém paga as nossas contas.
Se estivermos vivendo uma relação estável – Dane-se o mundo!

Mas ainda ficamos putos quando alguém pergunta: Você ainda não é casado? Se não temos parceiro fixo, criamos álibis próprios dos transgressores.

O mais interessante é que as cobranças diminuem na medida em que envelhecemos, mas mesmo assim, continuamos transgressores até o final dos nossos dias – Uma vez gay sempre gay!

As nossas transgressões estão alicerçadas na ética da transgressão – Se até Buda ou Jesus Cristo transgrediu, pense como evoluímos graças aos transgressores como Oscar Wilde, Nei Matogrosso, Cazuza e até Clodovil.
Pode parecer estranho pensar em uma ética da transgressão, no entanto, sem ela haveria uma tendência à estagnação, tanto no campo individual quanto coletivo.

O transgressor é o agente solitário que opera a superação de si mesmo na ruptura com o mundo que o cerca. Cada um, ao buscar ou ao tentar o ainda-não ousado, o novo, incorre em transgressão, não como subversão da ordem, mas como criação.

Eu sou o agente solitário que me superei ao romper com o mundo machista na qual eu estou inserido. Ainda faltam alguns poucos anos para eu romper definitivamente com tudo e ousar o novo e isso é transgressão, porque é assim que acredito que viverei melhor, independente da minha preferência sexual por homens, acima de tudo eu sou um ser humano.

Nota: O gay transgressor da imagem deste post é Francês, tem 63 anos e gosta de homens entre 60 e 80 anos, também, se declara como uma verdadeira mulher – seu e-mail:

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Sobre Regis

57 anos de idade, residente na cidade de São Paulo

Publicado em 13/09/2010, em Comportamento, Opinião, Sexualidade, Sociedade e marcado como . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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