A velhice do homossexual

Como preparar a velhice ?

Entre nós, são poucos os que se preocupam em construir condições seguras para viver sua homossexualidade de forma tranquíla também na terceira idade.
No último sábado estive no interior paulista, na cidade de Piracicaba e me deparei com uma situação muito triste de um homem com quase 70 anos que vive em condições muito precárias, sozinho, sem assistência de conhecidos ou parentes, recursos financeiros minguados e com muitas doenças típicas da terceira idade, mas o pior de tudo, foi perceber ” a solidão”.
Bem, esse é apenas um dos milhões de casos semelhantes em todo o Brasil e porque não dizer no mundo.
Quero registrar aqui o texto do Oswaldo Braga, do Portal gay de Minas que é muito pertinente para este post:
A partir da metade do século XX, várias gerações de homossexuais vêm desbravando e destruindo preconceitos, construindo uma trilha de facilidades para os gays do futuro. A cada geração, jovens homossexuais se beneficiam da luta desses pioneiros que, literalmente, conseguiram plantar a idéia de que o amor entre iguais, o amor gay, não é uma doença mental, ou um crime, ou um pecado. Num trabalho lento, de formiguinha, vai-se criando condições para que os mais jovens sejam menos discriminados e vivam sua homoafetividade sem passar pelas dores das antigas gerações.
 
Os jovens homossexuais de 1969 deram início a essa nova visão dos gays, como cidadãos providos de direitos – inclusive ao amor – e marcaram a historia com o enfrentamento aos policiais diante do bar Stonewall Inn, em Nova York. Esses jovens são os gays idosos de hoje. Talvez a primeira geração de gays conscientes de seus direitos como homossexuais que chega à terceira idade. Assim como desbravaram caminhos que hoje facilitam a nossa vida, estão sendo obrigados a preparar o terreno e criar condições dignas para enfrentarem sua própria velhice. E os futuros velhinhos gays e lésbicas novamente irão se beneficiar disso. Berlim possui uma população de 1,3 mil homossexuais idosos vivendo em asilos despreparados para lidar com sua orientação sexual. Muitas vezes são obrigados a se ocultarem de volta no velho armário, contra o qual lutaram tanto. É comum relatos de velhinhos gays e lésbicas que, ao revelarem sua homossexualidade nesses asilos ou casas de repouso ou centros de vida assistida, passam a ser excluídos das conversas e deixam de ser bem-vindas às refeições. Vivem sobre a ameaça de um dia dependerem de estranhos para suas necessidades pessoais e acabarem sendo vítimas de maus tratos, insultos e desrespeito. Muitos acabam vítimas de depressão e chegam mesmo a cometerem suicídio.
 
As poucas vezes que tive oportunidade de conversar sobre homossexualidade com os companheiros e companheiras da terceira idade, encontrei duas posições distintas: compreensão e condenação. Alguns nos condenam diretamente, normalmente fundamentados em crenças religiosas. Em outros, os olhares furtivos traduzem recriminação escapando ligeiro como quem evita o contato com o diferente. Outros, porém, alicerçados em seus anos de vida, souberam transformar experiência em maturidade e aprenderam a respeitar todas as formas de amor. Esses geralmente nos acolhem e nos fazem perceber que existem problemas muito mais sérios e insolúveis que a sexualidade e a forma de amor do outro. Por fim, existem aqueles que nos olham com admiração e uma pontinha de inveja e revelam, no brilho de seus olhares, histórias sofridas de negação, preconceito e dúvidas que provavelmente morrerão com eles.
 
Em minha lida com os gays, é comum ouvir o depoimento de jovens românticos que ainda sonham encontrar um grande amor, que enfrentem juntos chuvas e tempestades e com quem possam compartilhar sua velhice, substituindo o fogo da paixão pela compreensão e a amizade do seu companheiro. Muitos se ressentem das barreiras que nossa sociedade impõe a esse sonho e, se já é difícil encontrarmos casais heterossexuais que tenham conseguido envelhecer juntos, mesmo vivendo num mundo heteronormativo, o que dirá casais gays. Além de todas as dificuldades inerentes a uma vida a dois, casais gays ainda enfrentam a homofobia e carregam a incumbência de construir o que venha a ser um casamento homossexual, onde nenhum dos dois esteja representando os papeis tradicionais de gênero e não reproduzam a interação hierárquica falida entre o masculino e o feminino que fundamenta o casamento heterossexual.
 
Isso faz com que o somatório velhice – homossexualidade – solidão – tristeza seja comum entre nós e nos desperta para que façamos alguma coisa que quebre esse ciclo. A idéia de um asilo GLBT me encanta. Fico imaginando um lugar onde nós, as mariconas, possamos dar a nossa pinta, rirmos e nos divertirmos uns com os outros, sem medo de sermos ridicularizados, sem a responsabilidade de parecermos mais novos ou nos enquadrarmos num padrão de beleza que nem mesmo os jovens estão dando conta de se enquadrar. Um lugar onde nossa identidade seja respeitada, onde tenhamos uma assistência médica adequada às nossas necessidades e que nos faça sentir independentes, longe da sensação de estorvo.
 
A velhice e a homossexualidade juntas, nos colocam diante de uma combinação perigosa de preconceitos que tem trazido muita dor aos nossos pioneiros. Precisamos encontrar uma forma de nos libertarmos da opressão geracional e garantirmos condições dignas aos envelhecentes homossexuais. Precisamos pensar na nossa casa de repouso e assumir que seremos velhos um dia e uma barriga de tanquinho não é para sempre.
O.k, boa semana a todos !
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Sobre Regis

57 anos de idade, residente na cidade de São Paulo

Publicado em 11/05/2009, em Comportamento, Saúde, Sociedade e marcado como . Adicione o link aos favoritos. 4 Comentários.

  1. Com certeza uma questão muito importante a ser abordada. Espero que a conscientização chegue o mais rápido possível, e que aqueles que tenham a oportunidade avance em direção a ações concretas, pois já existe gays realmente passando por esta situação triste e por muitas vezes desumana demais.

    Parabéns pelo artigo.

  2. Cara que texto mais cabeça, gostei muito e tenho muito o que aprender.
    É complicado falar em velhice sem falar da solidão. Acho que em qualquer condição humana a velhice incomoda, mas é preciso envelhecer com sabedoria para ultrapassar todas as barreiras sociais, principalmente, no nosso país. Valeu !

  3. Muito bom e reflextivo o texto em os jovens gay pense no futuro e que não discrimine os gay maduros de hoje.Quantas vezes ouvi cochichos e deboches por estar juntos com meu parceiro maduro.Citar uma forma de discriminção entre o nosso proprio meio.
    Em que estes jovens de hoje reflita o seu futuro do amanhã não discriminando o de hoje.
    Parabéns pelo texto cheio de contúdo e inteligente.

  1. Pingback: Qualidade de vida na terceira idade « Grisalhos

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